Cientistas identificaram um réptil com 230 milhões de anos, munido de um bico afiado, semelhante ao de um papagaio, capaz de cortar e triturar plantas com uma precisão pouco comum.
A descoberta acrescenta mais um tipo de herbívoro a um cenário pré-histórico já bastante preenchido, num período imediatamente anterior ao momento em que os dinossauros começaram a impor-se na vida terrestre.
Um crânio muda a contagem
Um crânio fóssil recuperado no sul do Brasil preservou as mandíbulas do animal e expôs uma combinação invulgar: um bico cortante associado a dentes de moagem muito compactos.
A partir da análise dessas características, Jeung Hee Schiefelbein, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), demonstrou que o exemplar correspondia a uma espécie até então desconhecida.
Fileiras dentárias distintas e proporções específicas das mandíbulas permitiram separá-lo de outros parentes já descritos, incluindo os encontrados nos mesmos níveis de rocha.
Essa separação anatómica nítida levanta novas questões: quantos répteis herbívoros diferentes partilhavam o mesmo ambiente e de que forma repartiam os recursos disponíveis.
Um bico com dentes
Baptizado de Isodapedon varzealis, este réptil terá atingido cerca de 1,5 metros de comprimento e deslocar-se-ia rente ao solo, apoiado em quatro membros robustos.
Na parte anterior, um bico sem dentes faria o corte inicial das plantas; mais atrás, fileiras de dentes fusionados esmagariam o alimento no interior da boca.
Sulcos finos nos ossos frontais sugerem que essa zona sustentava queratina, o material resistente que hoje reforça os bicos das aves.
O conjunto de corte e trituração aponta para um animal adaptado a vegetação dura, e não para capturar presas rápidas.
Engrenagem herbívora
Na maxila, o osso do crânio que sustenta dentes na mandíbula superior, existiam duas superfícies de moagem correspondentes, em vez de apenas uma.
De cada lado, observavam-se três fileiras dentárias longitudinais, formando um arranjo equilibrado nas duas metades - algo raro entre parentes próximos.
Na maioria das espécies relacionadas, um lado é mais largo do que o outro; por isso, esta simetria parece ir além de uma variação individual comum.
Diferenças na forma de se alimentar poderão ter permitido que vários herbívoros coexistissem na mesma paisagem, explorando as plantas de maneiras distintas no dia a dia.
Um padrão mandibular raro
Por baixo da maxila, o dentário - o principal osso da mandíbula inferior - apresentava a sua própria “prateleira” invulgar, um detalhe que oferece pistas sobre a mordida.
Nessa área, dentes pequenos surgiam muito próximos uns dos outros, ajudando a lâmina inferior a encaixar no sulco superior durante a mastigação.
Outras espécies brasileiras exibiam prateleiras mais largas, ausência de dentes ou sulcos adicionais, produzindo um padrão de mordida diferente ao longo da boca.
Esses contrastes deram ao fóssil uma identidade clara, apesar de os investigadores disporem apenas de parte do crânio, preservado de forma incompleta.
Preparação cuidadosa do fóssil
Fósseis frágeis raramente expõem os detalhes de imediato, e este crânio exigiu meses de preparação paciente para que as estruturas fossem lidas com nitidez.
Os técnicos removeram o sedimento lentamente, porque um gesto apressado poderia partir zonas com dentes - essenciais para identificar a espécie - e, com isso, destruir evidências.
“A região dos dentes, que é muito importante para os rincoçauros, contém as características necessárias para a identificação ao nível da espécie”, disse Schiefelbein.
Esse trabalho meticuloso transformou os ossos enterrados em informação interpretável, sobretudo porque, aqui, o “sinal” da espécie estava mais na mecânica da mordida do que apenas no contorno geral do crânio.
Fósseis ajudam a datar camadas de rocha
Para lá de nomear um novo animal, o achado também ajuda os paleontólogos a correlacionar camadas rochosas no sul do Brasil, onde faltam datações diretas das rochas.
Esse método chama-se bioestratigrafia - alinhar estratos com base em fósseis - e os rincoçauros são marcadores particularmente úteis entre afloramentos dispersos.
Quando padrões semelhantes de mandíbula surgem em locais diferentes, os investigadores conseguem comparar níveis que, noutras circunstâncias, não teriam cinzas vulcânicas datáveis ao longo da bacia.
No caso de Isodapedon, a interpretação mantém-se prudente: existem fragmentos semelhantes em coleções brasileiras que ainda exigem estudo mais completo antes de os nomes ficarem definitivamente estabilizados.
Brasil e Escócia
Testes sobre relações evolutivas colocaram o novo réptil mais próximo de formas escocesas do que das espécies sul-americanas já conhecidas, de acordo com as análises da equipa.
Traços mandibulares partilhados ligam Brasil, Argentina, Escócia e, possivelmente, Zimbabué numa história mais ampla de herbívoros do Triásico Superior em terras antigas.
Na época, os continentes integravam a Pangeia, um supercontinente, o que teria facilitado a dispersão de animais aparentados por terras contínuas ao longo de muitas gerações.
Essa ligação faz com que o fóssil brasileiro integre um padrão maior do que uma descoberta isolada numa única pedreira.
Vida antes dos dinossauros
Nesse período de tensão ecológica, já existiam dinossauros primitivos no Brasil, mas ainda não tinham tomado conta dos ecossistemas.
Os grandes herbívoros incluíam rincoçauros e parentes dos mamíferos, enquanto pequenos parentes iniciais dos dinossauros circulavam pelas mesmas redes alimentares.
O stress climático durante o Episódio Pluvial Carniano - um intervalo mais húmido no Triásico Superior - remodelou muitos ecossistemas em terra e no mar.
Nesse pano de fundo em mudança, diferentes herbívoros poderão ter persistido ao repartir os recursos alimentares de forma mais fina do que os seus rivais.
A raridade mantém as perguntas
Mesmo com a descrição formal, o registo fóssil continua a deixar lacunas sobre a distribuição deste animal ao longo do tempo.
Algumas mandíbulas isoladas de outros locais brasileiros parecem semelhantes, mas fragmentos podem induzir em erro mesmo investigadores cautelosos.
Idade, desgaste e crescimento conseguem alterar fileiras dentárias, fazendo com que indivíduos jovens se pareçam com espécies distintas nas coleções sem aviso.
Crânios mais completos irão testar se esses fragmentos pertencem a Isodapedon ou a outro ramo ainda oculto dentro do grupo.
O que o fóssil revela sobre Isodapedon varzealis
Um crânio com bico, fileiras dentárias equilibradas e uma preparação cuidadosa permitem que um fóssil frágil ofereça uma imagem mais nítida e detalhada da vida no Triásico.
Descobertas futuras poderão mostrar quantas estratégias de herbivoria existiam no sul do Brasil antes de os dinossauros se tornarem os herbívoros dominantes ao longo de milhões de anos.
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