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Corrente de inversão do Atlântico pode enfraquecer cerca de metade até 2100

Homem num escritório observa ecrã com mapa do oceano e tempestade, janela mostra mar e turbinas eólicas.

Cientistas concluíram que um grande sistema de correntes no oceano Atlântico poderá perder cerca de metade da sua força até ao fim deste século - uma redução bem superior à prevista por muitos modelos.

Esta estimativa mais rigorosa aumenta a probabilidade de alterações climáticas regionais desiguais na Europa, mesmo que não ocorra um colapso total da circulação oceânica.

Evidência torna o risco mais claro

Este sistema de inversão no Atlântico transporta água quente à superfície para norte e devolve água profunda mais fria para sul, criando as condições para a desaceleração esperada.

Ao confrontar padrões observados no oceano com simulações, Valentin Portmann, da Universidade de Bordéus, mostrou que os sinais do mundo real apontam para uma diminuição muito mais acentuada.

A conclusão mantém-se mesmo em cenários de aquecimento futuro moderado, nos quais projeções anteriores sugeriam um enfraquecimento mais limitado.

A diferença entre a média dos modelos e estas estimativas “constrangidas” por observações indica que as projeções atuais poderão estar, de forma sistemática, a subestimar o quanto este sistema pode abrandar.

Porque a circulação de inversão do Atlântico importa

No Atlântico Norte, esta circulação empurra anualmente água quente das camadas superiores para norte e faz regressar para sul água fria das grandes profundidades.

Ao longo do percurso, a água quente liberta calor para a atmosfera; depois, junto à Gronelândia, a água mais fria e mais salgada torna-se suficientemente densa para afundar.

Se o afundamento enfraquecer, chega menos calor aos mares do norte e a atmosfera à volta altera padrões de tempestades, precipitação e temperaturas regionais.

Grandes avaliações climáticas antecipam uma redução desta circulação ao longo deste século. Já um colapso abrupto antes de 2100 continua a ser menos certo e permanece em debate.

Modelos comparados com medições

Muitos modelos climáticos já apontavam para uma circulação mais fraca em 2100, mas divergiam bastante quanto à dimensão final dessa quebra.

A equipa de Portmann avaliou quais as simulações que melhor reproduziam as correntes observadas, as temperaturas à superfície e a salinidade - isto é, a quantidade de sal dissolvido na água do mar.

As simulações que representavam águas mais “doces” no Atlântico Sul e superfícies mais frias no Atlântico Norte tendiam a sugerir um sistema demasiado estável nas projeções futuras.

Ao corrigir esses enviesamentos, a previsão desceu, mostrando como pequenos erros oceânicos podem amplificar-se e gerar grandes diferenças no clima.

Alterações no sal mudam as previsões

O ajuste mais forte veio do Atlântico Sul, onde os modelos frequentemente deixam as águas superficiais demasiado pouco salgadas.

O sal facilita o afundamento e o movimento da água do mar, porque a água mais salgada fica mais pesada quando arrefece e perde calor.

Quando um modelo tem sal a menos, a circulação de inversão pode parecer mais resistente do que o oceano real poderá ser.

Este enviesamento “invisível” é relevante porque o futuro do Atlântico depende de as águas pesadas do norte continuarem a afundar.

A Europa sente impactos desiguais

Um enfraquecimento mais intenso não significaria arrefecimento idêntico em todos os países, já que o tempo na Europa resulta da combinação de calor oceânico, ventos e geografia.

As costas ocidentais, mais próximas do Atlântico Norte, sentiriam a mudança oceânica de forma mais direta do que as regiões interiores, sobretudo no inverno.

Poderão surgir invernos mais frios ao mesmo tempo que os verões continuam mais quentes, porque os gases com efeito de estufa mantêm o calor retido no planeta em todas as estações.

Por isso, quem planeia a adaptação climática enfrenta riscos mistos: a tendência de aquecimento prossegue, mas os padrões de inverno influenciados pelo oceano tornam-se mais difíceis de antecipar.

A Finlândia evita cenários extremos

No caso da Finlândia, o principal risco apontado pelo investigador Timo Vihma, do Instituto Meteorológico Finlandês, é o arrefecimento invernal.

Uma desaceleração forte poderia baixar as temperaturas de inverno finlandesas em alguns graus, enquanto a Noruega e a Islândia poderiam sentir um efeito maior.

Ainda assim, ao longo do século, os verões na Finlândia continuariam a aquecer, porque os gases com efeito de estufa mantêm calor adicional junto à superfície.

“Não podemos falar de uma era glaciar em circunstância alguma, nem de um clima siberiano a chegar à Finlândia”, disse Vihma.

O colapso continua em discussão

Outros modelos recentes indicaram que, em experiências extremas com forçamentos muito fortes, a circulação persistiria, embora com intensidade muito menor.

Ventos persistentes no Oceano Austral fizeram subir água profunda, mantendo movimento oceânico suficiente para evitar uma paragem total.

Uma análise mais ampla do risco considerou um ponto de viragem - um limiar em que a mudança se autoalimenta - como possível, mas incerto.

Estes resultados reduzem o alarmismo sem eliminar o perigo: mesmo enfraquecida, a circulação pode alterar o estado do tempo e as zonas costeiras antes de 2100.

A preparação continua a ser essencial

Os piores cenários recebem atenção porque as sociedades tendem a garantir proteção contra acontecimentos raros com custos graves e duradouros.

Testar hipóteses severas ajuda a identificar que estradas, sistemas elétricos, portos e explorações agrícolas falhariam primeiro em caso de perturbação.

Reduzir a poluição por carbono continua a baixar a pressão, já que menos aquecimento significa menos água doce a entrar nos mares do norte.

Preparar-se para um enfraquecimento forte não é desistir: é transformar ciência incerta em escolhas práticas antes de surgirem problemas.

Limites justificam prudência

As correntes futuras não podem ser observadas diretamente; por isso, os cientistas comparam mundos projetados com as melhores medições do passado.

“Se quer compreender algo sobre o clima do futuro, não há outra abordagem além dos modelos climáticos”, disse Vihma.

Mesmo os melhores modelos falham pormenores. A nova previsão depende de quais os indícios observados que melhor explicam a mudança posterior.

Essa incerteza deve travar afirmações demasiado confiantes, não adiar a preparação para uma corrente que já se espera que enfraqueça.

Planeamento perante a incerteza

A nova estimativa, o debate climático europeu e os estudos concorrentes sobre colapso convergem numa lição prática: mesmo sem colapsar, o enfraquecimento traz consequências reais.

Observações mais precisas podem refinar a previsão, enquanto cortes mais rápidos nas emissões e planeamento local reduzem os danos se a mudança no Atlântico acelerar.

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