Os primeiros sinais de demência quase nunca são dramáticos. Não surgem como nomes esquecidos ou chaves perdidas, mas como alterações tão discretas que se tornam praticamente impossíveis de identificar: um vocabulário ligeiramente mais reduzido, menos variedade na descrição, uma subtil “achatamento” da linguagem.
Investigação recente que eu e os meus colegas realizámos indica que estas mudanças podem ser detetáveis anos antes de um diagnóstico formal - e um dos exemplos mais claros poderá estar escondido nos romances de Sir Terry Pratchett.
Terry Pratchett é recordado como um dos escritores mais imaginativos do Reino Unido, o criador da série Discworld e um mestre da sátira, cuja obra juntava humor a uma apurada consciência moral.
Após o diagnóstico de atrofia cortical posterior, uma forma rara da doença de Alzheimer, tornou-se um defensor influente da investigação e da sensibilização para a demência. Menos conhecido é o facto de os efeitos iniciais da doença poderem já estar presentes na sua escrita muito antes de ele saber que estava doente.
Com frequência, a demência é apresentada como uma condição marcada pela perda de memória - mas isso é apenas uma parte do quadro. Nas fases iniciais, a demência pode afetar a atenção, a perceção e a linguagem antes de os problemas de memória se tornarem evidentes.
Estas alterações precoces são difíceis de reconhecer porque acontecem de forma gradual e podem ser facilmente confundidas com stress, envelhecimento ou variações normais do comportamento.
Ainda assim, a linguagem oferece uma janela singular para a mudança cognitiva. As palavras que escolhemos, a amplitude do nosso vocabulário e a forma como estruturamos descrições estão intimamente ligadas ao funcionamento do cérebro. Mesmo pequenas alterações no uso da linguagem podem refletir mudanças neurológicas subjacentes.
No nosso estudo mais recente, analisámos a linguagem ao longo dos romances Discworld de Terry Pratchett, observando de que forma a sua escrita se transformou com o passar do tempo.
Concentrámo-nos na “diversidade lexical” - uma medida de quão variadas são as escolhas de palavras de um autor - e demos especial atenção aos adjetivos, as palavras descritivas que conferem textura, cor e profundidade emocional à prosa.
Nos romances mais tardios de Pratchett, verificou-se um declínio claro e estatisticamente significativo na diversidade de adjetivos utilizados. A riqueza da linguagem descritiva foi-se estreitando gradualmente.
Não se trata de algo que um leitor, necessariamente, notaria, nem correspondeu a uma deterioração súbita da qualidade. Pelo contrário, foi uma mudança subtil e progressiva, detetável apenas através de uma análise linguística detalhada.
De forma crucial, a primeira quebra significativa surgiu em The Last Continent, publicado quase dez anos antes de Pratchett receber o diagnóstico formal.
Isto sugere que a “fase pré-clínica” da demência - o período em que as alterações associadas à doença já estão a ocorrer no cérebro - poderá ter começado muitos anos antes, sem sintomas externos óbvios.
Esta conclusão tem implicações que vão muito além da análise literária. Sabe-se que a demência tem uma longa fase pré-clínica, durante a qual as oportunidades de intervenção precoce são maiores. No entanto, identificar pessoas dentro dessa janela continua a ser um dos maiores desafios nos cuidados de demência.
A análise linguística não é, por si só, uma ferramenta de diagnóstico, e não funcionaria de forma igualmente eficaz para todas as pessoas. Fatores como escolaridade, profissão, hábitos de escrita e contexto linguístico influenciam a forma como cada um utiliza a linguagem.
Mas, integrada numa abordagem mais ampla - a par de testes cognitivos, imagiologia cerebral e marcadores biológicos - a análise da linguagem pode ajudar a detetar risco precoce de forma não invasiva e com boa relação custo-eficácia.
Importa notar que os dados linguísticos já existem. As pessoas produzem enormes quantidades de texto em e-mails, relatórios, mensagens e comunicação online. Com salvaguardas adequadas de privacidade e consentimento, mudanças subtis no estilo de escrita poderão, um dia, ajudar a sinalizar declínio cognitivo precoce muito antes de o funcionamento diário ser afetado.
Porque é que a deteção precoce da demência e da doença de Alzheimer é tão importante
A deteção precoce é hoje mais crucial do que nunca. Nos últimos anos, surgiram novos medicamentos para a doença de Alzheimer que procuram abrandar a progressão da doença, em vez de se limitarem a gerir sintomas.
Fármacos como lecanemab e donanemab têm como alvo proteínas amiloides que se acumulam no cérebro e que se considera terem um papel importante na doença. Ensaios clínicos indicam que estes tratamentos seriam mais eficazes quando administrados cedo, antes de ocorrer dano neuronal significativo.
Identificar pessoas durante a fase pré-clínica daria a essas pessoas e às suas famílias mais tempo para planear, aceder a apoio e ponderar intervenções que possam ajudar a abrandar a progressão. Entre elas incluem-se mudanças no estilo de vida, estimulação cognitiva e, cada vez mais, novos medicamentos para atrasar a evolução da doença.
Mais de uma década após a sua morte, Terry Pratchett continua a contribuir para a nossa compreensão da demência. Os seus romances permanecem profundamente acarinhados, mas dentro deles existe também outro legado: indícios de que a demência pode deixar marcas muito antes de se revelar.
Prestar mais atenção à linguagem - mesmo à linguagem que julgamos conhecer bem - pode transformar a forma como detetamos, compreendemos e, em última análise, tratamos esta condição devastadora.
Thom Wilcockson, Professor Auxiliar (Senior Lecturer) em Psicologia, Loughborough University; Ahmet Begde, Investigador Associado, Demência, University of Oxford, e Melody Pattison, Docente em Linguística, Cardiff University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário