As fichas de menores no SNS24 terão sido consultadas sem autorização por um hacker que usou as credenciais de um médico atualmente inscrito na Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Minho, apurou o JN. Um pai de uma criança de três anos disse ao JN que o alerta lhe chegou ao fim da tarde de quinta-feira, através da creche. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, por seu lado, referem que não se pronunciam sobre situações concretas ligadas à cibersegurança.
Alerta na creche e confirmação do acesso no SNS24
Daniel Silva contou ao JN que recebeu ao final do dia desta quinta-feira uma mensagem da creche do filho, a avisar que estavam a ocorrer "acessos indevidos no SNS24 aos dados de uma série de crianças", alegadamente "filhos de funcionários" da instituição.
Perante o aviso, o pai verificou o registo do filho, de três anos, e confirmou que os respetivos dados tinham sido consultados sem uma justificação aparente por um médico a partir de Miranda do Corvo (Coimbra), no dia 21 de maio, às 00.40 horas. O clínico em causa chegou a exercer naquele concelho, mas, neste momento, trabalha na ULS do Alto Minho.
No caso de Daniel Silva, os seus próprios dados não foram vistos pelo mesmo médico. "Percebi mais tarde que o caso não era único na creche [do filho], mas mais generalizado", referiu. Acrescentou ainda que ele e o filho são seguidos num centro de saúde em Matosinhos, pelo que a informação da família no SNS24, por regra, só deveria poder ser acedida, por exemplo, pelo médico ou pelo enfermeiro de família.
Queixas nas redes sociais e abertura de inquérito
A alegada consulta indevida de dados de crianças tem sido discutida nas redes sociais e terá dado origem a dezenas de queixas. O JN, que recebeu igualmente denúncias de pais por e-mail, sabe que um hacker terá obtido acesso a várias palavras-passe do médico - incluindo credenciais usadas em contexto profissional -, pelo que não estará em causa um ataque informático dirigido à ULS onde o profissional agora exerce.
De acordo com informação recolhida pelo JN, a Polícia Judiciária já terá instaurado um inquérito.
Credenciais comprometidas
Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), responsáveis pela gestão da linha SNS24, indicaram que não comentam "casos concretos relacionados com matérias de segurança ou cibersegurança" e não adiantaram se estão a ser adotadas medidas para limitar os impactos.
A mesma entidade afirma que "todas as comunicações de possíveis incidentes de cibersegurança são analisadas e está em permanente articulação com as autoridades competentes. Sempre que há indícios de factos ilícitos, estes seguem os trâmites instituídos".
A ULS do Alto Minho, onde o médico em causa exerce atualmente, sustenta que "tudo indica que foram comprometidas as suas credenciais, não tendo os acessos sido realizados pelo profissional".
Segundo a unidade, "O compromisso das credenciais do médico terá resultado no acesso indevido a registos administrativos, não clínicos, de diversos utentes, entre os quais crianças", acrescentando que as autoridades já foram informadas.
O JN contactou o Ministério da Saúde e a ULS de Coimbra - uma vez que uma das consultas terá sido feita a partir de Miranda do Corvo -, mas as entidades remeteram esclarecimentos para a SPMS.
Dezenas de queixas
A Ordem dos Médicos confirmou também à agência Lusa que recebeu dezenas de queixas relacionadas com este assunto. "Eu próprio contactei todas estas entidades diretamente, também estou a tentar perceber - dada a dimensão da situação e as dezenas de queixas que a Ordem dos Médicos já recebeu hoje de manhã - e tanto quanto é possível perceber, até ao momento, (...) parece que estamos perante uma situação de cibersegurança, de falha em termos de segurança informática", afirmou o bastonário Carlos Cortes.
A CpC: Cidadãos pela Cibersegurança, associação de defesa dos direitos digitais, solicitou esclarecimentos à Comissão Nacional de Proteção de Dados perante a alegada violação de dados clínicos de menores no portal SNS24 e apelou aos pais para apresentarem queixa caso confirmem acessos sem explicação aos registos dos filhos.
Em comunicado, o Portal da Queixa - rede social de consumidores online - refere ter recebido reclamações sobre "alegados acessos indevidos a dados clínicos de menores" e frisa a importância de os pais confirmarem se os seus filhos também foram afetados.
Alguns utentes estão a reportar constrangimentos, esta sexta-feira, no acesso à informação pessoal na aplicação e no portal do SNS24.
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