Na Razão Automóvel, é este tipo de sinergias que nos entusiasma: foram elas que permitiram à Alfa Romeo acrescentar um supercarro à sua história centenária - algo que não acontecia desde a apresentação do 33 Stradale original, em 1967.
Alfa Romeo 33 Stradale e Maserati MC20: o que partilham
Não surpreende, por isso, que o novo supercarro preste homenagem ao seu notável antecessor, adotando o mesmo nome e usando-o como fonte de inspiração para as suas formas - só ficou a faltar, verdadeiramente, o cuore com um V8…
Ainda assim, não é o V6 que aqui me faz torcer o nariz. Como já foi dito, o novo 33 Stradale nasce precisamente destas sinergias, ao derivar diretamente do Maserati MC20, o supercarro aclamado da marca do tridente - o 33 Stradale tem de ser igualmente muito bom…
O que me deixa «intrigado» é esta troca de papéis entre marcas. No fim de contas, é o Alfa Romeo que surge como o mais exclusivo e, sem rodeios, o mais caro dos dois. Aponta-se para um valor perto dos dois milhões de euros (sem impostos), enquanto o Maserati pode ser comprado sem limites de produção por menos de «modestos» 300 mil euros em Portugal.
A realidade é que, fora do que se vê a olho nu, ambos os supercarros italianos partilham praticamente tudo: desde a monocoque em carbono às estruturas dianteira e traseira em alumínio, passando pelo motor e pela transmissão, sem esquecer o esquema de suspensão de duplos triângulos sobrepostos.
Até nas medidas exteriores há coincidências (ou diferenças mínimas): a distância entre eixos, por exemplo, é exatamente a mesma - 2,7 m.
Mas… sabiam que o Maserati MC20 era para ter sido inicialmente um Alfa Romeo?
Quanto mais se olha para a ligação entre estes dois supercarros, mais a história parece saída do enredo de Inception (A Origem), de Christopher Nolan. E porquê? Porque o Alfa Romeo 33 Stradale deriva diretamente do Maserati MC20 que, por sua vez… deriva do Alfa Romeo 8C que acabou por ser cancelado.
O anúncio do Alfa Romeo 8C em 2018 e as suas especificações
Parece confuso? Foi a 1 de junho de 2018 que se começou a falar, pela primeira vez, de um superdesportivo da Alfa Romeo.
Isso aconteceu durante a apresentação dos planos para o futuro da marca - mais uns… desde 2014 que havia planos conhecidos, mas frequentemente revistos -, num anúncio feito por Sergio Marchionne, então diretor executivo da FCA.
As especificações prometiam: o 8C seria um superdesportivo híbrido com mais de 700 cv, recorrendo a um motor biturbo (sem indicação do número de cilindros) montado em posição central traseira e a um eixo dianteiro motriz eletrificado.
Depois do 4C - a definição exímia de um mini-supercarro -, só posso dizer que as expetativas ficaram muito elevadas com este anúncio. Mas a «felicidade» duraria pouco.
Em julho desse mesmo ano, a morte de Sergio Marchionne baralharia (uma vez mais) o caminho da Alfa Romeo. Mike Manley (na altura diretor executivo da Jeep) assumiu o lugar e, quase um ano e meio depois, em novembro de 2019, eram revelados novos planos com uma palavra-chave: racionalizar.
O 8C caiu, tal como um novo GTV (Giulia Coupé), e o 4C seria descontinuado sem a renovação prevista nem sucessor. Em vez destas propostas claramente desportivas… e alfistas, surgiria apenas mais um foco em SUV - que hoje se materializa no Tonale e no B-SUV (2024).
Nem a fusão entre a FCA e o Groupe PSA, que deu origem à Stellantis, nem a chegada de um novo diretor executivo à Alfa Romeo, Jean-Phillipe Imparato, inverteriam esse rumo… até agora.
8C morre para MC20 nascer
Quase ao mesmo tempo que era anunciado o cancelamento do Alfa Romeo 8C, a Maserati aguçava a curiosidade dos aficionados com algo chamado MMXX (M240) - nada menos do que o futuro MC20.
Adivinhem só. O MMXX era o 8C da Alfa Romeo, qual fénix renascida das cinzas…
Se, por um lado, custou não ver um supercarro com o scudetto da Alfa Romeo, por outro é reconfortante saber que o projeto chegou ao fim - ainda que sob outro emblema. Afinal, são estas máquinas que fazem os entusiastas e os futuros entusiastas sonhar…
E este tipo de mudança não é novidade na indústria, nem sequer é algo estranho à Maserati - o Ferrari Califórnia, por exemplo, começou por ser pensado como Maserati.
Assim, a apresentação do Alfa Romeo 33 Stradale soa quase a um ato de justiça, como se devolvesse à marca aquilo que, na origem, era seu.
Para rematar - e com mais uma reviravolta numa história já cheia delas -, ao mostrar um 33 Stradale 100% elétrico (mesmo limitado a 33 unidades, existem duas motorizações à escolha), a Alfa Romeo acabou por «minar» a revelação do MC20 Folgore, o há muito prometido supercarro 100% elétrico da Maserati.
Independentemente de onde estas máquinas soberbas tenham começado, o que realmente importa é que as continuem a imaginar e, sobretudo, a concretizar - já chega de SUV…
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