Bom dia,
Convite: “Junte-se à Conversa”
Deixo-lhe, para começar, um convite: hoje, às 14h, “Junte-se à Conversa” com David Dinis e Martim Silva, para debater “Montenegro 2.0: a marca e as sondagens”. Inscreva-se aqui.
China, o “Império do Meio”, e a disputa pelo centro
Em mandarim, a palavra China escreve-se 中国 (lê-se “Zhōng guó”), uma expressão que pode traduzir-se por Império do Meio. A origem do termo recua ao século III a.C., à época da unificação sob a Dinastia Qin. Para os chineses de então, o seu território ocupava o centro geográfico e cultural do mundo. A expressão tem acompanhado a afirmação geopolítica do país e, provavelmente, poucas vezes terá sido tão pertinente como agora - tanto que, no Expresso da Manhã de hoje, o Paulo Baldaia pergunta ao meu camarada Hélder Gomes se a China estará a tornar-se o novo centro do mundo.
Xi Jinping entre Trump e Putin: sinais para Washington e para Moscovo
Menos de uma semana depois de receber Donald Trump, Xi Jinping voltou a escancarar as portas de Pequim, agora para Vladimir Putin. As duas cimeiras, marcadas com poucos dias de intervalo - a ida do Presidente russo foi comunicada por Moscovo no sábado, apenas horas depois de o avião presidencial norte-americano ter descolado da capital chinesa - compõem um retrato do presente: as duas maiores potências rivais dos Estados Unidos procuram seduzir a China (para usar a expressão deste excelente texto de antecipação da cimeira, precisamente do Hélder Gomes). O movimento reforça a ideia de Pequim como centro de gravidade de uma ordem internacional cada vez mais fragmentada - ou multipolar, no vocabulário preferido de Putin.
É difícil ver aqui coincidência. A visita de Putin - a 25.ª à China, segundo os meios estatais de Pequim citados pelo “Guardian” - funciona, antes de tudo, como uma “demonstração de força”. Ao acolher o líder russo logo após o Presidente norte‑americano, Xi deixa claro que não subscreve uma lógica de blocos e, em particular, que não acompanha os esforços ocidentais para afastar Moscovo. Pelo contrário: Pequim quer mostrar que é capaz de falar com Washington ao mesmo tempo que aprofunda uma parceria que descreve como “sem limites” com a Rússia. E isto apesar de a China não precisar “de quase nada” da Rússia, como sublinha ao Expresso Sarah Hurst, analista britânica especializada em assuntos russos.
À hora a que escrevo, Xi e Putin tinham acabado de falar aos jornalistas, depois de assinarem 20 acordos. A cimeira traz uma agenda exigente: está prevista a aceleração de projetos estratégicos, como o gasoduto Força da Sibéria‑2 (6700 quilómetros, ligando a Sibéria Ocidental à China, via Mongólia), desviando gás do Ártico russo para o mercado chinês, em vez de seguir para a Europa.
Ainda sem pormenores de grande substância, e no meio de várias garantias de reforço da cooperação, os dois países já indicaram que querem acelerar o trabalho conjunto em inteligência artificial e tecnologia. E, como seria de esperar, voltam a insistir na multipolaridade nas relações internacionais, rejeitando “todas as formas de intimidação unilateral e a ações que distorcem a história – palavras de Xi, sem remetente assinalado”, como destaca a Reuters. O Presidente chinês alertou também para a urgência de travar a escalada no Médio Oriente - numa altura em que Trump volta a ameaçar o Irão com um ataque demolidor.
Este equilíbrio simultâneo entre os dois campos parece ter um propósito evidente: aumentar a margem de negociação da China. Ao colocar-se como interlocutor indispensável de dois protagonistas centrais da política mundial, Xi transforma Pequim num ponto de passagem obrigatório. E, como notam vários analistas, não é apenas um gesto de simbolismo: é igualmente um recado para Washington - a China tem alternativas e segue uma estratégia própria.
Para Putin, a deslocação tem um peso diferente. Acontece numa fase sensível, com a guerra na Ucrânia a prolongar-se sem ganhos relevantes, Kiev a conseguir atingir a região de Moscovo e sinais crescentes de aperto sobre a economia russa. A dependência em relação a Pequim torna-se mais profunda, seja no plano energético, seja no comércio, seja no recurso a mecanismos financeiros fora da órbita do dólar. O Kremlin continua a insistir numa parceria entre iguais, mas o equilíbrio mudou - e inclina-se cada vez mais para o lado chinês.
Ontem, a Reuters noticiou ainda que a China treinou secretamente cerca de 200 militares russos em território chinês no final do ano passado, estando alguns desses efetivos já a combater na Ucrânia - uma cooperação que, segundo a agência, revela um envolvimento direto de Pequim na guerra muito acima do que era conhecido. Houve também uma notícia potencialmente desestabilizadora para a pompa e circunstância: o “Financial Times” escreveu que Xi Jinping terá dito a Donald Trump que Vladimir Putin poderá vir a “arrepender-se” da invasão da Ucrânia. Um desmentido de Pequim assegurou, porém, que nada disso seria motivo para estragar a coreografia acordada - até porque a comparação com a receção a Trump será inevitável, ao ponto de gerar um comentário do porta‑voz do Kremlin, Dmitry Peskov, à televisão estatal russa: “Nem sempre é fácil comparar o conteúdo, uma vez que nem tudo é visível à superfície. No entanto, o principal valor reside no conteúdo, e não nos aspetos cerimoniais”.
O triângulo China–EUA–Rússia e o “Kissinger ao contrário”
Neste triângulo China–EUA–Rússia, as posições inverteram-se face à Guerra Fria. A China deixou de ser o vértice mais frágil e passou a ser o pivô - no texto do Expresso já citado acima, fala-se num “Kissinger ao contrário”. Em 1972, no auge da Guerra Fria, o então Presidente norte-americano Richard Nixon e o conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger deslocaram-se a Pequim para abrir caminho a uma aproximação à China, isolando Moscovo de um parceiro mais fraco, mas com relevância.
Xi pode estar a fazer algo semelhante, ao garantir a continuidade de uma aliança com um país vizinho, com quem partilha fronteira e que, apesar das dificuldades, mantém peso territorial e militar, além de matérias-primas. Mesmo que isto se pareça com um “abraço de urso”, Putin não tem espaço para o recusar.
Outras notícias
Ébola. A OMS reconhece que o surto atual é "maior do que o constatado" e admite que pode alastrar mais depressa do que se previa. Em Portugal, a DGS reforçou a vigilância e o Governo já aconselhou a evitar "viagens não essenciais" à República Democrática do Congo. Preparámos um conjunto de perguntas e respostas com o essencial sobre este surto.
Abusos sexuais. A PJ admite que poderá haver mais casos de crianças abusadas, com idades entre quatro e seis anos, numa escola de Marvila, em Lisboa.
Flotilha humanitária. Seguro recebe hoje as famílias dos dois portugueses detidos por Israel.
Código do Trabalho. A Proposta de Lei do Governo deu entrada no Parlamento, com algumas cedências à UGT, mas mantendo no essencial o texto original em matérias como a subcontratação, o limite dos contratos a termo e a não reintegração de trabalhadores despedidos de forma ilícita. Além disso, volta a exigir-se prova na dispensa para amamentação, “de seis em seis meses”.
Filas no aeroporto. Carlos Moedas defende a suspensão do controlo eletrónico de passageiros em Lisboa.
Papa. Seguro convidou o Papa Leão XIV a visitar Portugal no próximo ano.
Mango. O filho do fundador de uma das maiores empresas europeias do setor da moda foi detido por suspeitas de homicídio do pai, que morreu após uma queda durante uma caminhada. Jonathan Andic foi entretanto libertado, após pagar uma fiança de um milhão de euros.
Lusa. A principal agência noticiosa portuguesa cumpre hoje um dia de greve, coincidindo com o debate, no Parlamento, de vários projetos de lei que propõem rever os seus estatutos. Os trabalhadores temem “os riscos de influência política e de governamentalização, ferindo a proteção de independência dos jornalistas”.
Festival de Cannes. “Será esta a melhor competição dos últimos anos”, pergunta o enviado do Expresso, Rui Pedro Tendinha.
Arsenal. Os londrinos voltaram a ser campeões ingleses no sofá (graças a um empate do Manchester City com o Bournemouth), 22 anos depois do mítico título sem derrotas, no auge da era Arsène Wenger.
Mundial. As escolhas de Roberto Martínez para a seleção portuguesa não trouxeram grandes surpresas, e nem o discurso do selecionador saiu do registo politicamente correto: “Não deixámos ninguém de fora“.
Giro. Afonso Eulálio mantém a camisola rosa.
Programas de áudio. Assim Vamos Ter de Falar de Outra Maneira e Lei da Paridade com novos episódios.
Frases
“Portugal está a fazer aquilo que sempre fez com todos os governos democráticos a seguir ao 25 de Abril, que é estar do lado do nosso aliado, os Estados Unidos da América”
Durão Barroso, ex-primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia, em entrevista ao Expresso/SIC e Renascença.
“O Presidente não disse - embora pudesse ter dito - que vai retirar todas as tropas da Europa; no entanto, a Europa precisa de se sustentar a si própria”
JD Vance, vice-presidente dos EUA, numa conferência de imprensa na Casa Branca, sobre a ordem de Trump para retirar 5000 soldados da Alemanha.
“Acho que é preciso dar um passo decisivo, que é haver também referendos sobre a própria alteração da Constituição. Uma Constituição deve ser referendada nas suas alterações, pelo menos nas suas alterações fundamentais"
Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista, nas Jornadas Parlamentares do Chega, em Viseu.
O que eu ando a ouvir
Entretanto, descobri Wendy Eisenberg e o seu álbum homónimo, editado em abril. É um disco de primavera muito bonito: luminoso, melodioso e, por vezes, mais experimental - em quase todas as faixas surgem mudanças inesperadas, linhas de guitarra mais trabalhadas, uma guitarra de aço tocada ao colo, dedilhados e pequenos detalhes jazzísticos na bateria. Ainda assim, é um disco acolhedor, com um som assumidamente “caseiro”.
Wendy Eisenberg é uma guitarrista e compositora norte‑americana com uma discografia já com oito álbuns, mas bastante fora do circuito comercial - entre as linguagens por onde já passou estão o jazz, a improvisação e a música contemporânea. Em “Wendy Eisenberg”, o registo dominante aproxima-se da música de raiz, do country e do rock - há momentos em que o álbum soa mesmo bastante a música popular. Talvez seja uma boa altura para a trazer a Portugal (em novembro, aliás, vai passar por Inglaterra).
Por hoje, este Expresso Curto termina aqui. Tenha uma excelente quarta-feira e acompanhe-nos também na Tribuna, na Blitz e no Boa Cama Boa Mesa. Se gosta do que lê e vê, assine o Expresso. Nós continuaremos deste lado, a seguir a atualidade em permanência.
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