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Kaja Kallas: Administração de Donald Trump "claramente não gosta da União Europeia (UE)"

Mulher a discursar num pódio com bandeiras da UE, EUA e Ucrânia ao fundo.

Kaja Kallas e a posição da administração de Donald Trump face à União Europeia

A alta representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Kaja Kallas, afirmou este domingo que a administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, "claramente não gosta da União Europeia (UE)". A declaração foi feita numa entrevista conduzida à margem da Conferência Lennart Meri sobre política externa e segurança, que decorre este fim de semana em Talin, na Estónia.

Kallas sustentou que, do ponto de vista de Washington, existe receio de que os 27 Estados-membros, atuando como um todo, possam ganhar um peso comparável ao dos Estados Unidos. Para a responsável europeia, esta leitura aproxima-se das atitudes que atribui também à Rússia e à China: "É porque, se nos mantivermos unidos e atuarmos em conjunto, então somos potências equivalentes, somos fortes", disse, avisando que estas potências "querem desmantelar" o bloco comunitário.

Relação EUA–UE e a estratégia de divisão

Neste enquadramento, Kallas afirmou estar "muito preocupada" com a forma como alguns países da UE respondem, transmitindo a Washington a ideia de que a relação é positiva. Segundo a chefe da diplomacia europeia, ao aceitar a lógica de "Se não gostam da UE, falem connosco [individualmente]", esses Estados acabam por permitir que a estratégia de divisão dos Estados Unidos funcione.

Perceção pública europeia e interdependência transatlântica

A responsável manifestou ainda apreensão perante os sinais captados por sondagens: a opinião pública europeia tende a tornar-se cada vez mais crítica em relação a Washington, ao ponto de apenas 14% considerarem os Estados Unidos um aliado. Ainda assim, defendeu que esta dinâmica não deve ditar a orientação política: "Não nos devemos deixar levar por isso, precisamos uns dos outros. As nossas economias estão interligadas e a nossa segurança também", frisou.

Ucrânia, Rússia e negociações de paz

Kallas criticou igualmente o posicionamento norte-americano nas negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia, que se mantêm paradas há vários meses. Na sua perspetiva, a abordagem passou por "pressionar a Ucrânia a ceder territórios que nem sequer perdeu militarmente".

De forma mais ampla, acrescentou, a estratégia de Trump - aplicada também noutras regiões do mundo - assenta em "fazer chocar as cabeças" de rivais e, depois, impor-lhes a paz. Porém, contrapôs que "um conflito não termina sem aceitação social".

Justiça, raízes do conflito e participação nas negociações

Para Kallas, é indispensável enfrentar as causas profundas e assegurar que existe justiça; caso contrário, uma parte da sociedade "procurará vingança e o ciclo continuará".

"Aliás, há também estudos que mostram que, quando as mulheres participam nas negociações, os acordos de paz são mais duradouros. E... a imagem que vimos das conversações entre os Estados Unidos e a China... havia muita masculinidade na sala, não era?", comentou.

Quanto ao caminho a seguir perante a guerra na Ucrânia, a alta representante reiterou que é essencial "continuar a pressionar a Rússia", para que Moscovo compreenda que a tática de recorrer aos Estados Unidos para atingir os seus objetivos falhou e que terá de se sentar, de facto, à mesa das negociações com Kiev e com os europeus.

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