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A manosfera e a crise da masculinidade

Rapaz jovem em quarto a segurar telemóvel e livro, com computador portátil aberto numa secretária.

A mais recente explicação para quase todos os males do mundo já tem nome: manosfera. De acordo com a Wikipédia, “é um conjunto varia­do de sites, blogues e fóruns online que promovem a masculinidade, misoginia e oposição ao feminismo.”

O que a definição da Wikipédia não esclarece

A própria formulação evidencia a confusão instalada. O verdadeiro problema da manosfera não reside em defender a masculinidade, nem sequer em se opor ao feminismo - um movimento que acabou capturado pela lógica política, repleto de paradoxos e, por isso, fértil em indignações seletivas.

A questão central é outra: a manosfera, também ela incoerente e cheia de contradições, nasce de uma sociedade que desistiu da ideia de virtude e que, como explicou Harvey C. Mansfield, se dedicou em particular a negar a virtude masculina. Nesse vazio, o que sobra é muitas vezes ressentimento, aliado a uma noção de êxito medida por dinheiro, carros de gosto duvidoso e mulheres reduzidas a objetos.

Masculinidade, “tóxicos” e dogmas sociais

Antes de mais, a manosfera é uma resposta estéril e empobrecedora a uma narrativa igualmente redutora, assente em premissas absurdas. Uma delas é a ideia de que os traços da masculinidade são inerentemente “tóxicos”. Outra, apresentada como autoridade técnica, vem da American Psychological Association, segundo a qual a “masculinidade tradicional é psicologicamente prejudicial”.

Há ainda uma presunção menos declarada, mas mais perversa: a de que, para as raparigas progredirem, os rapazes teriam necessariamente de ficar para trás.

Entre o wokismo e Andrew Tate: os caminhos oferecidos aos rapazes

Como a engenharia social tende a falhar, é natural que os efeitos de transformar absurdos em dogma comecem agora a aparecer. Barack Obama, figura difícil de acusar de falta de credenciais progressistas, chamou a atenção para o problema.

Para muitos rapazes - já criados com mais referências virtuais do que instituições tradicionais de socialização - parecem restar apenas duas alternativas. Por um lado, um wokismo hegemónico que os rotula como “opressores” e se aplica a “desconstruir” a sua masculinidade; por outro, personagens como Andrew Tate, empenhadas em lucrar com as suas frustrações.

Não me interpretem mal: a misoginia é um problema sério, até porque poucas coisas revelam maior fraqueza de carácter num homem do que tratar as mulheres com desdém. Mas, na dinâmica humana de sempre - uma sucessão de homens e mulheres bons e maus, capazes do melhor e do pior - existem formas masculinas e femininas de cuidar e de amar.

Será incomum uma mulher dizer a um homem que o ama e que, por isso, o quer proteger para o resto da vida, garantindo que nunca lhe faltará nada. E, não se ofenda, caro leitor ou leitora, mas será também incomum uma mulher sentir-se atraída por um homem que queira ser protegido por ela para o resto da vida, ou que espere que ela se coloque à frente para o salvar de uma bala perdida.

A forma de afastar os rapazes da manosfera e da misoginia é simples. Deixemo-los ser rapazes, ofereçamos boas referências e exemplos (não há disciplina de cidadania que substitua o testemunho de um bom pai) e o tempo fará o resto, transformando-os em homens decentes. As mulheres agradecerão.

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