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Como aquecer Marte: cientistas explicam plano, riscos e custos do projeto.

Astronauta interage com holograma de planetas numa base futurista em Marte ao pôr do sol.

Três passos - das «estufas» à alteração da atmosfera em Marte - mostram como se pode aquecer o planeta, mas isso exigirá décadas e enormes recursos

A ideia de tornar Marte um planeta habitável já é discutida há muito tempo - nos anos 1970, Carl Sagan sugeriu que o planeta poderia ser «aquecido» e aproximado das condições da Terra. Neste momento, os cientistas procuram responder não à pergunta «será que isto deve ser feito?», mas à questão mais concreta: «é isto sequer possível, em princípio?».

Num «roteiro» de 60 páginas, a equipa liderada por Edwin Kite, da Universidade de Chicago, apresentou um plano em três fases para aquecer Marte de forma gradual - desde soluções locais até uma tentativa de alterar o clima de todo o planeta. O estudo expõe um programa de investigação abrangente para avaliar a viabilidade do aquecimento de Marte.

A primeira etapa passa pela criação de cúpulas herméticas feitas de materiais como o aerogel. Estes deixam passar a luz solar, mas retêm o calor, permitindo formar «oásis» à superfície. Sob essas cúpulas, o gelo subterrâneo pode derreter, fornecendo água para bases e, potencialmente, condições para formas de vida simples.

O passo seguinte consiste em aumentar a quantidade de luz solar que chega à superfície. Para isso, é proposto o uso de espelhos orbitais - na prática, velas solares que irão encaminhar radiação adicional para Marte. Isso pode não só aquecer regiões isoladas, como também começar, de forma gradual, a influenciar o clima global do planeta.

Em particular, esse calor extra poderá libertar dióxido de carbono do polo sul de Marte, tornando a atmosfera mais densa. Trata-se de uma condição essencial para reter calor e dar continuidade ao «acelerar» das alterações climáticas. No entanto, esta abordagem tem uma limitação séria: as tecnologias actuais não permitem fabricar espelhos suficientemente leves. Segundo os cálculos, a sua massa teria de ser inferior a 20 gramas por metro quadrado - cerca de três vezes mais leve do que as soluções existentes.

A opção mais radical seria alterar artificialmente a atmosfera com aerossóis. Os cientistas propõem um cenário em que se espalhariam nanopartículas especialmente desenvolvidas, como estruturas de alumínio ou grafeno modificado, para reforçar a retenção de calor.

Para produzir um efeito visível, seriam necessárias cerca de 3 milhões de toneladas destes materiais. Com as estimativas actuais do custo de transportar carga para Marte - cerca de $2000 por quilograma - isso significa que teriam de ser fabricados no próprio local, o que exige uma indústria desenvolvida que ainda não existe.

No fim, os autores concluem que, do ponto de vista da física, a terraformação de Marte é possível, mas, na prática, trata-se de uma tarefa para décadas. Além de novas tecnologias, serão necessários recursos colossais antes de o planeta poder sequer aproximar-se parcialmente das condições da Terra. Mesmo as estimativas mais prudentes mostram que passarão décadas até haver tentativas de mudança global do clima de Marte. Pelo caminho, subsistem muitos obstáculos técnicos e económicos.

Ainda assim, Marte continua a ser o principal candidato à terraformação. E, como sublinham os autores, do ponto de vista da física, este projecto não parece impossível. A questão não reside nas exigências, mas sim nos recursos - no tempo, na tecnologia e nos custos colossais que serão precisos para transformar o Planeta Vermelho numa «segunda Terra».

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