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Documentário "Vida de Imigrante" denuncia desumanização de imigrantes no sistema português

Homem com bilhete e passaporte na mão numa sala de espera de aeroporto com outras pessoas sentadas e balcão de atendimento.

"Vida de Imigrante": objetivo e abordagem

O documentário "Vida de Imigrante" propõe-se a evidenciar "mostrar uma desumanização dos imigrantes perante o sistema" português, recorrendo a testemunhos verídicos de brasileiros que, apesar de estarem no país há anos, continuam à espera de regularização, enredados numa máquina burocrática que frequentemente os reduz a números.

Com 50 minutos de duração, o filme é realizado por Paulo Gurgel e centra-se no modo como atrasos e falhas processuais afetam pessoas concretas.

Sete casos na AIMA e as consequências na vida quotidiana

Ao longo do documentário, são acompanhadas sete pessoas atingidas por demoras da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) em processos de residência, reagrupamento familiar, renovações e autorizações extraviadas, com reflexos na saúde, no percurso académico, na vida profissional e no equilíbrio familiar.

À Lusa, a advogada luso-brasileira Priscila Nazareth Ferreira explicou que as histórias retratadas são de sete imigrantes brasileiros que não entraram de forma irregular e que "estão em Portugal à espera de renovação de documento, à espera de agendamento de processos altamente qualificados, de enquadramento em situação em que a pessoa tem filhos em Portugal estudando, e tudo isso está dentro de uma mesma estrutura de governabilidade altamente ineficiente".

Entre os relatos, destaca-se o de uma família oriunda do estado brasileiro do Rio Grande do Norte: os pais têm residência e trabalham, mas não conseguem regularizar a filha, de 26 anos, com necessidades especiais.

Para além da mãe Silvia Basílio Souto, o documentário dá ainda voz às histórias de Amanda Abreu (publicitária e criadora da aplicação Mira Imigrante), Bruna Mallman (analista financeira), Diego Pereira (analista de sistemas), Ludimila Carvalho (auxiliar de serviços gerais), Luciano Barbosa Sales (representante comercial) e Martiela João Manuel Zua (professora, mas a trabalhar como cuidadora de idosos por não ter conseguido a residência via CPLP).

A advogada foi perentória ao sublinhar: "Nenhum desses imigrantes entrou em Portugal de maneira ilegal. Isso é um discurso que se vê na política e quem escuta de fora não consegue compreender que a própria legislação permite uma série de artigos que dispensam o visto prévio, justamente no contexto de reagrupamento", frisando também que "uma pessoa que está à espera de agendamento não é ilegal".

É precisamente neste enquadramento de dificuldades e bloqueios, em múltiplas frentes, que o documentário procura "mostrar uma desumanização dos imigrantes perante o sistema".

Iniciativa, crítica ao Estado e estreia na CPLP

O projeto nasceu de uma iniciativa privada liderada por Priscila Nazareth Ferreira, advogada luso-brasileira, natural do Rio de Janeiro, residente em Portugal há 10 anos e que afirma ter acompanhado mais de 13 mil casos de estrangeiros no país. A propósito da forma como muitos processos são tratados, deixou claro: "Nós não somos simplesmente números, somos pessoas".

Na sua leitura, a procura de mão-de-obra foi estimulada pelo próprio Estado português. "Portugal não tem números para avançar mais 20 anos de segurança social. Pessoas que começarem a trabalhar agora não garantem uma reforma para daqui a 40 anos. Essa é a verdade", defendeu.

Ainda assim, acrescentou, o imigrante chega para ocupar esses postos "mas quando chega aqui recebe uma avalanche de pedras, porque, para a sociedade, ele é o problema".

E, na sua perspetiva, "Quando na verdade ele simplesmente é um sintoma, deveria fazer parte da solução (...), mas o Estado não investe na infraestrutura administrativa necessária a abraçar o imigrante tal como a lei prevê". Para a advogada, existe em Portugal uma legislação favorável, mas uma administração pública ineficiente, "cujo sintoma não está apenas na AIMA, está em vários outros setores da administração portuguesa", apontando áreas como saúde, educação, habitação e licenciamentos urbanos.

Priscila Nazareth Ferreira lembrou ainda as fortes vagas de emigração vividas pelos próprios portugueses, mas considera que esse lastro de empatia nem sempre se reflete no presente. "Quando você tira de dentro da cultura portuguesa que um dia os portugueses foram essas pessoas, você esquece do seu passado", disse, evocando a emigração portuguesa em França nas décadas de 60 e 70 do século passado.

"Essas pessoas agora compram imóveis em Portugal à custa desse passado", acrescentou.

O documentário "Vida de Imigrante" deverá estrear na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre o final de maio e o início de junho.

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