Quadrum: memória em diálogo com o agora
Entrar na Quadrum é, para mim, voltar a discutir com a lembrança de tantas exposições que ajudaram a inscrever este lugar na história da nossa contemporaneidade - e esse embate com o presente nem sempre é fácil. Em “Brama”, exposição de Mané Pacheco (n. 1978), o passado e o agora não se sobrepõem: articulam-se. O título convoca o cio dos veados, um grito imaginado que, mais do que ecoar, parece preencher simbolicamente a beleza transparente da galeria. O espaço é tomado pelo pulsar de obras que ora se desenham, ora se adensam, ora se deslocam; ocupam-no sem o entupir, deixando o olhar e o corpo do visitante livres para atravessar.
Um primeiro olhar fixa-se, inevitavelmente, nessas formas a vibrar no ar sem taparem o espaço. Logo depois, ao aproximarmo-nos, impõe-se a diversidade de materiais: borrachas, ossos, cornos, resistências metálicas, cabos de PVC, serpentinas de cobre, ferragens, fios de telefone, cordas de contrabaixo, rebites, casacos de pelo falso, cabos, airbag, cabelo falso, alfinetes de ama, tubagens de climatização em cobre, tubos de borracha natural, estopa de linho e de sisal, etc. Dita assim - e deliberadamente acumulada, como nas úteis fichas da folha de sala - a enumeração sugere caos. No entanto, não há desordem: há antes um sistema claro, sustentado por três famílias de peças muito distintas que estruturam a exposição.
Três conjuntos de obras em “Brama”
Desenhos volumétricos em três dimensões
Há desenhos de escalas diversas, sempre suspensos e sempre entregues à gravidade, que torce e arqueia as linhas. O elemento de suporte repete-se: borracha, em tubo ou em tiras. Ainda que avancem para o interior da sala, permanecem permeáveis ao olhar; não levantam obstáculos, guardam antes a persistência de um gesto. Mesmo os maiores, colocados diante das paredes envidraçadas voltadas para o exterior, não anulam a leitura do conjunto.
Compactos: corpos sólidos e densos
Nos compactos, a linearidade cede lugar ao volume: surgem massas sólidas, compostas, curtas e atarracadas, por vezes dobradas sobre si próprias, como em “Biomorfo”, um painel de colmeia falso, em alumínio, com uma presença de densidade rara. Rentes ao chão, erguidas ou encostadas à parede, estas peças funcionam como um contraponto rigoroso à leveza aérea dos desenhos.
Trípodes e citações animais
A gravidade volta a ser chamada nos trípodes, no equilíbrio apenas aparentemente precário das três patas. Delas pendem corpos com pelo artificial, sacos, um airbag; delas irrompem hastes e cornos, acentuando uma energia dinâmica, como se o movimento estivesse prestes a acontecer. Essa sugestão empurra-nos para fora da galeria, para um relvado onde dois trípodes nos colocam frente a frente e, ao contrário dos desenhos, afrontam e desafiam a gravidade. São, talvez, as obras que mais justificam o nome “Brama”: um impulso genesíaco que nasce no desvio das patas e se prolonga até à ponta de cada corno.
Montagem, materiais e transformação
A montagem é particularmente feliz: permite ver quase tudo de imediato e, depois, deter-nos em cada peça na sua singularidade, passando da transparência dos desenhos à solidez dos compactos, ou ao desequilíbrio activo dos trípodes. Observados de perto, os materiais revelam uma passagem contínua entre o industrial (reaproveitado) e o natural - recolhido ou apenas sugerido - sempre orientados para a reutilização. Os cornos, por exemplo, vêm sempre da muda natural dos veados e nunca do seu abate. Nesta convivência, o natural e o artificial encontram um ponto de acordo, numa exposição em que tudo parece manter-se em transformação permanente.
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