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História da Peugeot no Dakar: de 1987 a 2018

Carro branco todo-o-terreno com pneus grossos e placa "DAKAR PGT" em exibição numa sala moderna.

Depois de termos falado dos camiões do Dakar, hoje é dia de virar a atenção para os carros. A proposta é simples: recuar até 1987, um ano que, para muitos, ainda estava longe de existir na memória - porque nem sequer tinham nascido.

No meu caso, admito que já cá andava. Em 1987 tinha 1 ano: já me desenrascava a andar sozinho, já consegui engolir uma pilha AAA (aconteceu mesmo) e articulava termos de elevada complexidade como “dada”, “piupiu”, “gugu” e “diferencial autoblocante”.

O propósito desta viagem temporal? Passar pela história da Peugeot no Dakar.

Até porque este é o último ano (nota do redactor: à data de publicação deste artigo) em que a Peugeot aparece no Dakar como equipa oficial - há quem garanta que o destino seguinte volta a ser as 24 Horas de Le Mans. Mais uma razão para fazermos este salto de 31 anos. Talvez estes 10 minutos de leitura compensem. Talvez…

1987: chegar, ver e vencer

Em 1987, a verdade é que a Peugeot não tinha uma estratégia delineada para alinhar no Dakar. A entrada aconteceu quase por inércia. Como é sabido, o Grupo B foi extinto em 1986 - tema que já abordámos. De repente, a marca francesa ficou com vários Peugeot 205T16 encostados, sem um palco óbvio onde os colocar.

Foi então que Jean Todt, hoje presidente da FIA e, na altura, fundador e durante muitos anos a figura máxima da Peugeot Talbot Sport, teve o estalo: levar o 205T16 ao Dakar. Uma ideia tão simples quanto brilhante.

“Feitas as devidas comparações, a estreia da Peugeot no Dakar foi como o meu nascimento… não foi planeada. Entre estes dois acontecimentos, só um correu bem. Conseguem adivinhar qual?”

Ari Vatanen, que dominava o Peugeot 205T16 como poucos, foi o homem da frente da Peugeot Talbot Sport. Sobre ele recaía a missão de carregar as cores da marca no Dakar - e o arranque não podia ter sido mais ingrato. Ainda durante o prólogo (uma etapa “a feijões”, usada para definir a ordem de partida), Vatanen teve um acidente.

Resultado desta entrada apoteótica: o Peugeot de Vatanen partiu para a 1ª etapa do Dakar num impressionante 274º lugar da geral.

Apesar disso, na Peugeot ninguém baixou os braços - e o Sr. Todt também não deixava. Mesmo com uma estreia que parecia prometer tudo menos glória, a estrutura da Peugeot Talbot Sport, composta por gente rodada que vinha do Mundial de Ralis, rapidamente se adaptou ao compasso da mítica prova africana.

Quando o Dakar entrou em África, Vatanen já estava no encalço dos líderes. Depois de mais de 13 000 km de prova, junto ao oceano Atlântico, foi um Peugeot 205T16 que chegou primeiro a Dakar. Objetivo alcançado. Chegar, capotar e ganhar. Ou, numa versão livre: “vim, capotei, venci”.

1988: Agarrem esse ladrão!

Pelo segundo ano seguido, a Peugeot voltou a entrar no Dakar com estrondo. O Peugeot 405 T16 (uma evolução do 205T16) chegou a vencer logo em França e manteve-se no topo da classificação… até surgir um contratempo difícil de antecipar.

Jean Todt tinha o essencial calculado - dentro do possível numa prova onde o inesperado é regra. Ari Vatanen liderava com folga à 13ª etapa (Bamako, Bali), quando, durante a noite, o seu carro foi roubado. Alguém achou que era boa ideia roubar um carro de competição e acreditar que passaria incólume. Um Peugeot, não é? Ninguém vai reparar…

Escusado será dizer que o plano não correu bem a ninguém: nem ao ladrão (que largou o 405 numa lixeira), nem a Vatanen. Quando as autoridades recuperaram o carro, já não havia tempo. Vatanen foi desqualificado por não se apresentar a horas na partida e a vitória acabou por cair para o seu “mochileiro”, Juha Kankkunen, que conduzia um Peugeot 205T16 de assistência rápida.

1989: Um questão de sorte

Em 1989, a Peugeot apareceu no Dakar com uma ofensiva ainda mais musculada, composta por dois Peugeot 405 T16 Rally Raid ainda mais evoluídos. Com mais de 400 cv de potência, o arranque dos 0-200 km/h fazia-se em pouco mais de 10s.

Ao volante estavam duas figuras incontornáveis do desporto automóvel: o inevitável Ari Vatanen e… Jacky Ickx! Duas vezes vice-campeão do mundo de Fórmula 1, vencedor das 24 Horas de Le Mans seis vezes e vencedor do Dakar em 1983.

Não surpreende, por isso, que a Mitsubishi - a única que realmente ameaçava a Peugeot - tenha acabado a observar a luta a partir do degrau mais baixo do pódio. Na frente, Vatanen e Jackie Ickx discutiam a vitória a mais de 200 km/h. Era mesmo tudo ou nada.

“O equilíbrio entre os dois pilotos da Peugeot era tão grande que o Dakar de 1989 transformou-se num sprint.”

Jean Todt cometeu um erro pesado: pôs dois galos na mesma capoeira. E, antes que essa guerra interna oferecesse a vitória em bandeja ao “caracol” da Mitsubishi, o diretor de equipa decidiu fechar a questão com um lançamento de moeda ao ar.

A sorte caiu para Vatanen: escolheu a face certa e venceu o Dakar, apesar de ter capotado duas vezes. No fim, os dois terminaram separados por menos de 4 minutos.

1990: Adeus da Peugeot

Em 1990, o guião repetiu-se: a Peugeot voltou a vencer o Dakar, com Ari Vatanen aos comandos. Entre um problema de navegação e um encontro imediato com uma árvore que quase arruinou tudo, o Peugeot 405 T16 Grand Raid conseguiu, ainda assim, concluir a prova.

Era o fecho glorioso de uma fase de domínio absoluto da Peugeot - um ciclo que começou e terminou da mesma forma: com vitória.

Foi igualmente a última aparição do mítico Peugeot 405 T16 Grand Raid, um carro que ganhou tudo onde competiu. Incluindo Pikes Peak, com Ari Vatanen ao volante - quem mais! Essa conquista em Pikes Peak deu origem a um dos filmes de rali mais sublimes de sempre.

2015: tirar a temperatura

Depois de 25 anos de pausa, a Peugeot Sport regressou ao Dakar. O mundo aplaudiu de pé. Na mala, trazia mais de duas décadas de experiência acumulada em campeonatos do mundo de Fórmula 1 (não correu bem), de ralis e de resistência. Ainda assim, o retorno foi tudo menos tranquilo.

Com o Peugeot 405 T16 Rally Raid a fazer de “peça de museu”, coube ao estreante Peugeot 2008 DKR representar a marca. Só que o carro, com apenas duas rodas motrizes e um motor Diesel 3.0 V6, ainda não estava à altura do desafio.

“Os treinadores de bancada riram-se… “ir para o Dakar num carro de tração traseira? Estúpidos!”.”

A equipa de pilotos era de luxo: Stephane Peterhansel, Carlos Sainz e Cyril Despres. Mesmo assim, levaram uma lição dura.

Para Carlos Sainz, o Dakar ficou-se por cinco dias, eliminado após um acidente aparatado. Stephane Peterhansel - também conhecido como “Sr. Dakar” - terminou num desapontante 11º lugar. Já Cyril Despres - vencedor do Dakar em duas rodas - não passou do 34º, travado por problemas mecânicos.

Não foi, de forma nenhuma, o regresso sonhado. Mas, como se diz, quem ri por último ri melhor. Ou, em português simples: o tempo costuma tratar do resto.

2016: lição estudada

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A Peugeot decidiu não comprar esse ditado e, em 2016, manteve a “fé” no conceito-base do 2008 DKR. Para a marca, a receita fazia sentido; o desastre tinha estado na execução.

Assim, a Peugeot apresentou-se no Dakar de 2016 com a abordagem de 2015 profundamente revista.

A marca escutou as críticas dos pilotos e atacou os pontos fracos do carro. O motor Diesel 3.0 litros V6 biturbo passou a entregar potência de forma mais cheia a baixas rotações, elevando de forma clara a capacidade de tração.

Por outro lado, o chassis de 2016 era mais baixo e mais largo, aumentando a estabilidade face ao modelo de 2015. A aerodinâmica também levou uma revisão total e a nova carroçaria permitia ângulos de ataque ainda melhores perante os obstáculos. A suspensão não foi esquecida: foi redesenhada do zero, para distribuir melhor o peso pelos dois eixos e tornar a condução do 2008 DKR menos exigente.

No lote de pilotos, entrou mais um nome para o trio maravilha: o 9x Campeão do Mundo de ralis, Sebastien Loeb. O francês chegou ao Dakar “ao ataque” - até perceber que, para se ganhar o Dakar, primeiro é preciso acabar.

Com o acidente de Loeb, a vitória acabou por cair para a “raposa velha”, Stephane Peterhansel, que venceu com uma margem confortável de 34 minutos. Tudo isto depois de um início muito prudente de Peterhansel, em contraste com o ímpeto de Loeb. A Peugeot tinha voltado - e com autoridade.

2017: Um passeio no deserto

É claro que 2017 não foi um passeio no deserto. Minto: por acaso, até foi… a Peugeot fez o pleno ao colocar três carros nos três primeiros lugares.

“Até podia escrever que foi uma vitória “suada” mas também não foi… pela primeira vez na história do Dakar, a Peugeot equipou os seus carros com ar-condicionado.”

Em 2017, o nome do carro também mudou: deixou de ser Peugeot 2008 DKR e passou a Peugeot 3008 DKR, numa piscadela ao SUV da marca. Naturalmente, estes dois modelos são tão parecidos como o Dr. Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, e a Sara Sampaio, um dos “anjos” da Victoria's Secret - o equivalente à Pininfarina da roupa interior feminina. Ou seja, partilham o nome e pouco mais.

Além disso, com as alterações de regulamento no Dakar em 2017, a Peugeot ajustou o motor para reduzir os efeitos negativos da restrição de admissão que penalizava os carros com duas rodas motrizes. Mesmo com novas regras, o domínio esmagador da Peugeot sobre a concorrência manteve-se - apesar da perda de potência e do ar-condicionado.

O Dakar 2017 foi ainda uma reedição elegante da batalha fratricida da Peugeot Sport em 1989 - lembram-se? -, agora com Peterhansel e Loeb como protagonistas. No fim, a vitória voltou a sorrir a Peterhansel. E desta vez não houve ordens de equipa nem “moeda ao ar” - pelo menos segundo a versão oficial.

2018: a última volta rapazes

Como foi referido no início, 2018 seria o último ano da Peugeot no Dakar. A derradeira volta para a “equipa maravilha”: Peterhansel, Loeb, Sainz e Cyril Despres.

O Dakar 2018 não prometia ser tão “limpo” como o anterior. Os regulamentos voltaram a apertar e foi dada maior liberdade técnica aos carros com tração integral para equilibrar a competitividade - nomeadamente mais potência, menos peso e maior curso de suspensão. O sonho húmido de qualquer engenheiro.

Do lado dos carros de tração traseira, houve aumento da largura de vias. A Peugeot voltou a mexer nas suspensões e Sesbastien Loeb já disse à imprensa que o novo Peugeot 3008 DKR 2018 “é mais estável e fácil de pilotar”. Pouco depois de o afirmar, capotou! A sério…

Depois de amanhã, arranca o Dakar 2018. E como disse um dia Sir. Jack Brabham “quando a bandeira baixa, a conversa fiada acaba!”. Vamos ver quem leva a melhor e se a Peugeot consegue repetir a despedida de 1990. Não vai ser simples, mas não apostem contra os franceses…

A Peugeot conseguiu despedir-se vitoriosa do Dakar de 2018?

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