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Separação ou divórcio pelos filhos: o que diz Sylvia Mikucki-Enyart

Menino sentado no chão com um peluche e desenho, enquanto duas mulheres conversam no sofá ao fundo.

Terminar um projeto de vida a dois - seja um sonho partilhado ou uma construção feita ao longo do tempo - e avançar para uma separação ou para um divórcio costuma ser um caminho exigente, com confrontos com a outra pessoa, mas também com a própria.

Quando existem filhos em comum, o peso da decisão tende a aumentar. Quer-se proteger o bem-estar das crianças, apesar de a relação entre o casal já não se sustentar. Por isso, não é invulgar ver casais a adiar a separação mesmo num contexto de conflito constante, infelicidade ou rutura total, defendendo que ficar juntos é “melhor para o bem-estar dos filhos”. A questão é perceber se isso corresponde, de facto, ao melhor para eles.

O que alerta Sylvia Mikucki-Enyart (Universidade do Iowa) - “Psychology Today”

Para a professora da Universidade do Iowa, nos Estados Unidos da América, e investigadora na área das relações interpessoais e da comunicação familiar, Sylvia Mikucki-Enyart, esta escolha pode “ter consequências a longo prazo, e muitas vezes negativas, que repercutem muito além da infância”.

A especialista estudou os efeitos de relações parentais conflituosas - e também das separações - em filhos já adultos. A partir desse trabalho, aponta três consequências particularmente prejudiciais.

Três efeitos negativos de manter um casamento infeliz “pelos filhos”

  1. Alianças e lealdades forçadas

Um dos riscos surge quando, sem intenção clara, os pais colocam os filhos na posição de terem de escolher lados. Como descreve Mikucki-Enyart, “Os progenitores muitas vezes não fazem um bom trabalho em esconder o desprezo que sentem pelo cônjuge quando estão mergulhados num casamento infeliz. Além disso, muitas vezes olham para os filhos como aliados, envolvendo-os em conflitos e criando uma aliança com eles, uma dinâmica 'nós contra o outro progenitor”.

Nesta lógica, a professora defende que o resultado é que “os filhos se sintam "presos" entre os dois”, alimentando uma sensação continuada de traição e contribuindo para que, mais tarde, exista afastamento físico em relação a ambos. A investigadora sublinha ainda que “Os investigadores descobriram que as crianças em famílias/casamentos altamente conflituosos e que se mantêm sentem-se muitas vezes apanhados neste meio”.

  1. Parentalização: crianças empurradas para papéis de adultos

A professora associada chama igualmente a atenção para a parentalização, isto é, situações em que os filhos acabam por assumir funções e responsabilidades emocionais próprias de adultos - e cedo demais. Nesse sentido, refere que “Ora, devem por isso ser evitadas informações desadequadas, discussões, conversas entre ambos e, claro, o desprezo”.

Segundo Mikucki-Enyart, não é inesperado que este tipo de parentalização emocional deixe marcas prolongadas: “Não é de surpreender que a parentalização emocional tenha efeitos negativos e duradouros nas crianças, incluindo falta de equilíbrio emocional, relacionamentos difíceis com colegas, dissociação e depressão”.

  1. Um modelo de relação disfuncional para o futuro

Por fim, há ainda o exemplo que fica, para um menor, sobre aquilo que é suposto serem os relacionamentos. A investigadora escreve: “Quando os pais permanecem num casamento infeliz "pelos filhos", é criado de forma inadvertida um modelo de como são as relações e o amor, preparando os filhos para o fracasso, incluindo a permanência em relacionamentos infelizes porque "é assim que as coisas acontecem.

O problema pode tornar-se mais visível mais tarde, porque as crianças que crescem nestes ambientes muitas vezes não dispõem dos mesmos mecanismos de “resolução de conflitos e de comunicação deficiente”, o que pode resultar em “impactos duradouros” e influenciar a capacidade de desenvolver - e, sobretudo, de manter - relações saudáveis e satisfatórias, seja com parceiros românticos, seja com amigos, conclui a professora e investigadora norte-americana.

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