As mães de dois reclusos que faleceram no mesmo dia e na mesma prisão estão a pedir ao Estado português indemnizações que, no total, ultrapassam um milhão de euros. As famílias de Danijoy Pontes e de Daniel Rodrigues, ambos mortos em 2021 no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), sustentam que os dois estavam doentes, eram presos preventivos e não tiveram acesso ao acompanhamento clínico necessário, acabando por morrer num estabelecimento cujas más condições o Governo promete encerrar há anos.
Alice Santos avançou com uma ação administrativa de responsabilidade civil contra o Estado no Tribunal Administrativo de Lisboa. É mãe de Danijoy Pontes, que entrou no EPL em agosto de 2020, com 23 anos. Na primeira consulta médica em contexto prisional, indicou antecedentes de esquizofrenia, doença bipolar e depressão. Nas consultas seguintes de Psicologia e Psiquiatria, foram identificados surtos psicóticos e prescrita medicação.
Danijoy Pontes morreu a 15 de setembro de 2021, na cela 60 da Ala D. Um recluso da cela ao lado relatou que, entre as 23 horas e a meia-noite, o ouviu bater na porta e na parede da cela para pedir auxílio, mas a ajuda não apareceu. A porta só foi aberta nas primeiras horas da manhã, quando Danijoy já tinha morrido. A autópsia apontou problemas cardíacos.
Na ação apresentada, a mãe afirma que o "EPL não tinha condições mínimas de apoio" e defende que o filho deveria ter sido transferido para o Hospital Prisional São João de Deus, em Caxias. "Sucede que tal indicação nunca foi dada pelos serviços clínicos, que mantiveram a medicação e consultas de Psiquiatria que, num prazo de um ano, não ascenderam a quatro. Pelo que o deficiente acompanhamento clínico proporcionado pelo Réu a Danijoy prejudicou - e não podia deixar de prejudicar - a sua situação de sofrimento e morte", pode ler-se no processo, no qual é pedida uma indemnização de 578 mil euros.
Sofreu AVC
Luísa Matos apresentou uma segunda queixa contra o Estado, reclamando também 578 mil euros pela morte do filho, Daniel Rodrigues, que deu entrada no EPL em dezembro de 2020. À data, o recluso já padecia de "endocardite bacteriana e epilepsia". Tinha ainda sobrevivido a um acidente vascular cerebral (AVC) e, segundo a ação, a medicação administrada na cadeia não conseguiu manter a patologia controlada.
De acordo com a queixa, por volta das 4 horas de 15 de setembro de 2021, os companheiros de cela "chamaram Daniel, todavia este não respondeu". "A enfermeira deslocou-se à cela de Daniel, encontrando-o deitado, com uma pulsação fraca e uma frequência respiratória baixa, às 7.15 horas. Foram efetuadas diversas manobras de reanimação após Daniel ter entrado em paragem cardiorrespiratória, durante 20 minutos, sem efeito", refere o documento.
A autópsia concluiu que Daniel Rodrigues sofreu um novo AVC.
Segundo a ação judicial, "Pese embora o que as suas análises hematológicas revelaram, não lhe foram administradas as dosagens corretas de medicação (para a epilepsia e anticoagulantes), a fim de suprir as suas necessidades clínicas".
Ministra reúne-se com famílias e dirigentes da APAR
As famílias de Danijoy Pontes e de Daniel Rodrigues dizem nunca ter aceite as mortes e, em março de 2022, organizaram a primeira manifestação a exigir investigação sobre os dois casos. Na semana passada, voltaram a protestar junto ao Ministério da Justiça. A ministra Rita Alarcão Júdice reuniu-se entretanto com as mães dos reclusos falecidos no EPL.
Também a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) tem reunião agendada com a ministra para o dia 20. "Se o EPL fosse um canil já tinha encerrado", acusa Vítor Ilharco, da APAR.
Pormenores
Arquivamento
O Departamento de Investigação e Ação Penal abriu inquéritos para apurar as circunstâncias das mortes de Danijoy Pontes e de Daniel Rodrigues. Ambos acabariam por ser arquivados, sem responsabilizações.
Encerramento
O fecho do EPL tem sido anunciado em várias ocasiões. A mais recente ocorreu em março, quando a ministra da Justiça indicou que a Ala A encerrará este ano, a Ala E em 2027 e as restantes até 2028.
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