Após o confronto com o Pentágono e o estatuto de «risco para as cadeias de abastecimento», a Anthropic promove o Claude Mythos para a cibersegurança e regressa às conversações com a Casa Branca
Nos últimos meses, a administração de Donald Trump e a Anthropic envolveram-se num conflito prolongado em torno da utilização da inteligência artificial em contextos militares e estatais. Na retórica pública, a empresa foi descrita como «radicalmente de esquerda» e como uma ameaça à segurança nacional, além de ter enfrentado restrições associadas a riscos nas cadeias de abastecimento tecnológicas.
A ruptura começou com a posição rígida da Anthropic sobre a forma como os seus modelos podem ser usados: a empresa recusou autorizar a aplicação da IA em vigilância interna em massa e em sistemas de armamento totalmente autónomos, sem intervenção humana. As tecnologias da companhia foram primeiro integradas de forma intensiva nas estruturas do Departamento da Defesa dos EUA e, mais tarde, a própria empresa chegou a obter acesso ao funcionamento em redes militares fechadas.
O conflito depressa passou para o plano jurídico e político: a Anthropic foi, de forma temporária, classificada como um «risco para as cadeias de abastecimento», levando a empresa a avançar com uma ação judicial para contestar a decisão. As restrições acabaram por ser suspensas pelo tribunal, embora a tensão pública se mantivesse.
A situação começou a alterar-se com o lançamento do novo modelo Claude Mythos Preview, orientado para a cibersegurança. A Anthropic apresenta-o como a versão mais poderosa do sistema, capaz de detetar vulnerabilidades em navegadores, sistemas operativos e infraestruturas críticas. O modelo está disponível apenas em modo privado e já está a ser testado por grandes empresas, entre as quais a Apple, a Nvidia e o JPMorgan Chase.
Segundo a empresa, o Mythos Preview foi concebido para identificar falhas críticas antes de estas poderem ser exploradas por atacantes. De acordo com fontes citadas, o acesso antecipado ao sistema já gerou discussões de emergência no setor financeiro dos EUA e contou com a participação do presidente da Reserva Federal, Jerome Powell.
A Anthropic confirmou também que está a manter conversações com estruturas governamentais norte-americanas sobre as capacidades do novo modelo, incluindo funções ofensivas e defensivas de cibersegurança. Representantes da empresa referem que já decorreram briefings com altos responsáveis, sem revelar nomes. Outro sinal de aproximação foi a presença do CEO da Anthropic, Dario Amodei, em reuniões na Casa Branca e a notícia de que a empresa contratou a firma de lobbying Ballard Partners, ligada ao círculo de Trump. Segundo a Axios, as negociações incluem a possibilidade de uma integração mais profunda do Claude em estruturas estatais, entre as quais organismos responsáveis pela cibersegurança e pela inteligência.
Fontes familiarizadas com estas conversas defendem que recusar este tipo de tecnologias no setor público pode ser encarado como um risco estratégico para os EUA na competição com a China. Nos testes do Mythos Preview já participam algumas unidades da comunidade de inteligência e a CISA, agência responsável pela proteção das infraestruturas críticas.
Se estas conversações resultarem numa expansão da adoção do Claude nos sistemas governamentais, isso poderá assinalar uma inversão nas relações antes conflituosas entre a Anthropic e o Pentágono - da confrontação para uma cooperação prática no domínio da cibersegurança e da IA.
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