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Parecem seguros de si, procuram validação constante - e acabam por se denunciar através de um hábito banal no dia a dia online

Jovem sentado numa cafeteria a olhar para o telemóvel, com pessoas e bebidas ao fundo.

Uma investigação recente sugere que quem apresenta traços narcisistas muito marcados costuma revelar um padrão bastante específico no uso das redes sociais. Não é o estilo de vestir, nem a expressão facial, mas sim o telemóvel na mão e o olhar fixo no Instagram, TikTok ou Snapchat que deixam a pista mais clara.

O que o estudo sobre narcisismo e redes sociais revela

O trabalho, publicado no International Journal of Human-Computer Interaction, analisou o comportamento de 208 jovens adultos com idades entre os 19 e os 28 anos. Os participantes responderam a questionários sobre personalidade, uso de redes sociais e emoções associadas a acontecimentos sociais.

"Quem apresentava traços narcisistas acentuados usava as redes sociais de forma claramente mais intensa e desenvolvia mais facilmente uma espécie de dependência."

A investigação centrou-se sobretudo num fenómeno que muita gente conhece: o medo de ficar de fora, frequentemente referido pelo acrónimo FOMO (Fear of Missing Out). No estudo, as pessoas com traços narcisistas fortes mostravam este receio com muito mais frequência.

Queriam saber constantemente o que os outros faziam, onde estavam, com quem saíam e se elas próprias estavam a receber atenção suficiente. Nesse contexto, as redes sociais transformam-se no palco ideal: estão sempre acessíveis e permitem medir tudo através de gostos, comentários e número de seguidores.

O medo de ser excluído como combustível

As pessoas narcisistas receiam de forma particular não estar presentes, ser ignoradas ou substituídas. Essa insegurança interior empurra-as para a internet - e prende-as lá.

  • Consultam as redes sociais de minuto a minuto.
  • Publicam muito mais do que a média sobre o seu quotidiano.
  • Verificam gostos e comentários quase de forma compulsiva.
  • Comparam-se continuamente com outros perfis.
  • Ficam sensíveis quando uma publicação recebe "pouca" reação.

O estudo descreve aqui um círculo vicioso: o medo de exclusão leva a um uso excessivo. A utilização intensa, por sua vez, aumenta a insegurança, porque o olhar está sempre preso a outras pessoas, aparentemente mais bem-sucedidas ou mais populares.

"As redes sociais alimentam o ego a curto prazo - e reforçam, a longo prazo, o vazio interior."

Quando o telemóvel passa a valer mais do que a vida real

Os investigadores explicam que este tipo de dependência pode prejudicar bastante a rotina. Quem precisa de estar sempre online perde capacidade de concentração no trabalho, nos estudos e nas relações.

As consequências mais comuns são:

  • Dificuldades de concentração: interrupções constantes por notificações e deslizar pela aplicação em qualquer momento livre.
  • Afastamento da vida real: os encontros com amigos tornam-se secundários, desde que o perfil pareça interessante.
  • Instabilidade emocional: a autoestima depende fortemente da validação digital.
  • Sono de pior qualidade: noites longas no telemóvel, a ruminar sobre publicações e reações.

Em pessoas com traços narcisistas, este comportamento agrava as inseguranças já existentes: idealizam-se online, enquanto offline lidam cada vez pior com críticas, rejeição ou tédio.

Como reconhecer o narcisismo tóxico no dia a dia

O estudo sobre o uso das redes sociais mostra apenas uma parte do problema. O filósofo Fabrice Midal descreve, num vídeo muito divulgado, outros sinais típicos de narcisismo problemático nas relações - isto é, comportamentos que podem desgastar emocionalmente os outros.

"Um narcisista tóxico instrumentaliza os outros seres humanos para se sentir melhor consigo próprio."

Segundo Midal, há algumas perguntas que ajudam a perceber como nos sentimos numa relação, seja amorosa, de amizade ou profissional:

  • Sinto-me bem, ao longo do tempo, quando estou com esta pessoa?
  • Tenho a sensação de ser realmente visto e levado a sério?
  • Posso ser fraco, triste ou inseguro - ou isso é usado contra mim?

Em muitas dinâmicas tóxicas, surge uma experiência contraditória: a pessoa sente-se, por um lado, atraída e valorizada; por outro, fica interiormente diminuída e insegura.

Padrões típicos de comportamento de um narcisista tóxico

Midal aponta vários padrões que se repetem:

  • Manipulação em vez de comunicação aberta: a pessoa orienta conversas, deturpa afirmações e provoca sentimentos de culpa.
  • Ausência de empatia verdadeira: os sentimentos dos outros são relativizados, desvalorizados ou até usados contra eles.
  • Nunca se mostrar vulnerável: a fragilidade é escondida, os erros não são admitidos e a crítica é rejeitada.
  • Autoapresentação como alguém intocável: uma postura de "tenho sempre razão", sem tolerância para oposição.
  • Exploração da proximidade: as necessidades e a energia da outra pessoa servem sobretudo o seu próprio bem-estar.

"Para o narcisista tóxico, o outro existe muitas vezes apenas como palco - não como uma pessoa autónoma com limites."

O que as redes sociais fazem a este estilo de personalidade

As redes sociais amplificam precisamente esta dinâmica. As pessoas narcisistas encontram aí uma fonte inesgotável de admiração, atenção - e novas pessoas para alimentar a sua encenação.

Alguns exemplos retirados da prática de psicólogos e coaches:

  • O parceiro que publica constantemente imagens íntimas sem perguntar primeiro, para se colocar em destaque.
  • A colega que apresenta online qualquer projeto de equipa como sendo exclusivamente seu.
  • O amigo que reage com ressentimento quando as stories não são comentadas ou apreciadas de imediato.

Estes comportamentos, isoladamente, ainda não significam narcisismo clínico. Mas, quando combinados com forte dependência das redes sociais e falta de empatia, desenham um quadro bastante claro.

Como se proteger e ganhar clareza

Se suspeitar que está a lidar com uma pessoa fortemente narcisista, o primeiro passo é prestar atenção ao próprio corpo. Midal aconselha a ouvir sinais subtis:

  • Fico tenso quando esta pessoa me envia mensagem ou me liga?
  • Depois dos encontros, sinto-me mais vazio do que fortalecido?
  • Passo muito tempo a pensar e a ruminar sobre o comportamento dela?

Um sinal interno claro é este: quando se está sempre a justificar, a pedir desculpa e, apesar disso, continua a sensação de nunca ser suficiente.

Nessas situações, ajudam limites bem definidos - tanto online como offline. Pode ser limitar o tempo de resposta, silenciar conversas de forma consciente ou, em casos extremos, bloquear contas. No contacto pessoal, frases curtas e objetivas podem proteger a sua posição sem o arrastar para discussões sem fim.

Quando vale a pena procurar ajuda profissional

Quem se sente muito afetado por uma relação narcisista - seja amorosa, familiar ou profissional - beneficia muitas vezes de apoio psicológico ou terapia. Os especialistas podem ajudar a compreender padrões pessoais, estabilizar a autoestima e desenvolver estratégias de saída.

Também para quem se reconhece parcialmente nesta descrição vale a pena olhar para dentro. Uma forte fixação nas redes sociais, a procura permanente de comparação e validação, e a necessidade de estar sempre a brilhar podem indicar que, por trás da aparência, existe mais insegurança do que se gostaria de admitir.

"O comportamento online mais evidente é muitas vezes apenas a ponta do icebergue - por baixo ficam medos não resolvidos, vergonha e uma autoestima frágil."

Quem consegue afastar deliberadamente o telemóvel e os perfis, repetidamente, conversar de forma genuína e aceitar também sentimentos desconfortáveis, vai quebrando aos poucos o ciclo descrito. As redes sociais deixam então de ter poder como espelho do valor próprio - e voltam a ser aquilo que deviam ser desde o início: uma ferramenta, e não a medida da própria vida.

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