Distraí-me por uns tempos - não muitos - e deparei-me com uma evidência: o Pornhub está carregado de “porno de IA”. E, sinceramente, já existem mais de 100 categorias de porno, cruzadas com dezenas de milhares de tags ativas, num fluxo interminável de dados. Um verdadeiro cardápio.
Venho de uma pré-história diferente: comecei a minha adolescência onanista a preencher o imaginário com o que dava, diante da centerfold de uma “Playboy”. Era uma loira do Texas, abundante, talvez Cindy ou Laurey - um tesouro que eu escondia durante meses a fio. Hoje, não consigo sequer conceber o que é ser púbere e transportar, no telemóvel, esta abundância. A qualquer hora. Em qualquer lugar.
Jovens, porno e a nova viragem do porno sintético
A discussão é antiga: jovens e consumo de porno. A minha história geriátrica da revista é apenas um detalhe. O ponto é que, do que observo, algo mudou de forma decisiva: o porno sintético está a ganhar terreno ao porno real. E há quem veja nisso uma boa notícia.
Aqui não falo de deepfakes. Não é o esquema de pegar em pessoas conhecidas - ou em colegas de escola - e, de forma criminosa, colocá-las a “participar” num filme porno através da colagem de uma cara num vídeo já existente. Isso é outro assunto. A UE, aliás, vai mesmo legislar para travar a criação, por IA, de conteúdos sexuais abusivos, incluindo imagens sexualizadas sem consentimento e pornografia infantil artificial.
O que tenho em mente é outra coisa: pornografia gerada por inteligência artificial sem atores humanos, com personagens quase saídas do gaming, como se tivessem escapado de um videojogo para um motor de conteúdo adulto.
A promessa parece limpa: acabam-se as produções com humanos, termina a exploração associada à indústria pornográfica, e por aí fora. Como é que isto poderia ser mau? É precisamente aí que entra a armadilha da “vítima zero”.
O que muda quando o desejo deixa de ter “outro”
Não é por falta de percurso que o tema me interessa. Passei das “Playboys” para “Ginas” e, nos anos 90, para as cassetes VHS; depois vi a internet chegar, escrevi - aqui e noutros lugares - sobre este assunto, investiguei e, sim, visitei o Pornhub. Ainda assim, é possível que o porno sintético por inteligência artificial traga efeitos que não estamos a antecipar.
Quando se troca uma pornografia com humanos por uma pornografia 100% sintética, ocorre uma deslocação profunda: o desejo deixa de ter um “outro” - humano, imperfeito, que sabemos existir - e passa a funcionar como um “espelho” dos meus impulsos. Mais: torna-se um simples prompt definido por mim. Do outro lado há algo sintético, perfeito, ajustável, programável, incapaz de sentir dor, prazer, cansaço ou sofrimento. Isto é, para mim, uma rutura antropológica.
Não é uma fantasia futurista. Os motores de porno estão a ser inundados por vídeos gerados por IA. A OpenAI vai disponibilizar erotismo no ChatGPT para adultos. A xAI (Musk) já tem um modo polémico que cria imagens e vídeos explícitos. E a indústria está a inclinar-se para produção sintética feita por encomenda.
No ano de 2025 - que foi ainda de arranque - o mercado de conteúdo adulto com IA já valeu 2,5 mil milhões de dólares.
Consequências: corpo real, relações reais e desinibição total
O porno sintético, treinado em milhões e milhões de filmes para “aprender” a ser gerado, pode tornar a própria realidade esquisita. No sexo real existem poros, assimetrias, texturas e odores - coisas que a IA tende a higienizar. O risco é o cérebro passar a olhar para o corpo humano como uma versão defeituosa de um modelo sintético.
No sexo verdadeiro - a dois ou a mais - há negociação, limites e vulnerabilidade. Já no porno sintético, o utilizador transforma-se num “deus” que administra o mundo. Isso pode fomentar uma intolerância persistente a qualquer fricção, cedência ou compromisso nas relações humanas.
A pornografia tradicional funcionava como uma janela: víamos outros a ter sexo. Mesmo quando esses “outros” eram, por vezes, humanos disformes - corpos anormais, alterados, fora do padrão. No porno sintético, pelo contrário, instala-se uma customização narcísica: define-se cada detalhe da personagem, como se o desejo deixasse de ser por alguém e passasse a ser por uma projeção de perfeição.
No porno sintético há uma customização narcísica, dado que se definem todos os detalhes da personagem
O porno de IA pode aliviar carências emocionais e descarregar a urgência biológica, mas ao mesmo tempo valida uma narrativa misógina e retira incentivo para procurar parceiros reais - porque parceiros reais são logisticamente “caros”, emocionalmente complexos e “arriscados” para o ego.
E, para agravar a comparação, o sexo a sério tende a ser (muitas vezes) desapontante: a outra parte tem vontades, limites, reações, críticas, opiniões; aponta dedos; fala com outros…
Há ainda um lado sombrio específico do porno sintético. Ao não envolver “vítimas” e ao parecer isento de “culpa”, ele facilita uma desinibição total: o correspondente sintético de um humano pode ser submetido a qualquer sevícia ou degradação imaginável, porque o utilizador não encontra barreiras morais. Afinal, é só código, não é?
Isso abre a porta à exploração de nichos de agressividade e de fantasias extremas, capazes de treinar o cérebro para padrões de excitação profundamente desumanizantes.
Voltemos ao contraste que me persegue: eu e a Laurey - ou Cindy - de seios fartos do Texas, que me durou o ano inteiro de 1982 em termos eróticos, versus um jovem que acumula centenas de horas de porno sintético antes da primeira experiência real.
A “outra” da minha primeira vez não tinha nada a ver com a Cindy do Texas. E, ainda assim, foi alucinantemente milhões de vezes melhor - mesmo tendo sido mau no sentido realista. Como costuma ser a primeira vez. Era o que se dizia.
O jovem de hoje, porém, já não está apenas a ver horas infinitas de porno para se masturbar: está a “cablar” o seu “sistema de recompensas” para um estímulo de IA que a biologia humana nunca conseguirá igualar.
A IA não se limita a deslocar a fasquia do que é excitante. Ela entrega impossíveis - e, ao mesmo tempo, expõe o humano como sujo e perigoso.
A IA promete 100% de recompensa e 0% de risco, numa estética de hiper-realismo líquido: pele de porcelana, fisicalidade impossível. As proporções deixam de ser biológicas para serem matemáticas. É um universo de filtro de Instagram onde tudo se pode ver ou fazer - não são humanos, é código. Posso até apreciar ver bizarrias, mas, ali, não são pessoas reais.
O trilho está a ser aberto. O sexo “verdadeiro” tem atrito: cansa, aborrece, dá chatices, é sujo. Exige negociação. Exige aceitar a possibilidade de rejeição. Exige o “outro”. Já o porno IA é pornografia sem o outro: sem espera, sem risco, sem problemas. Fabricada só para mim, à medida dos meus desejos. À medida das minhas taras. O real nunca conseguirá oferecer isso. E o sexo irá importar cada vez menos.
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