Sob a superfície lisa da água do porto moderno, continuam sepultados os restos de uma das mais importantes batalhas navais do início do século XIX. Agora já se sabe: o naufrágio encontrado a uma profundidade relativamente reduzida pertence ao navio de linha dinamarquês “Dannebroge”, que se perdeu em 1801 sob o fogo da frota britânica comandada por Horatio Nelson. O que era uma nota discreta da história militar transforma-se, de repente, num cenário palpável, onde madeira, ferro, fogo e corpos colidiram de forma violenta.
Busca difícil no porto industrial lamacento de Copenhaga
Imagens românticas de água cristalina não encaixam nesta escavação. O naufrágio encontra-se a cerca de 15 metros de profundidade, no fundo escuro e lamacento do porto de Copenhaga, numa zona revolvida durante décadas por dragas e navios. A visibilidade para os mergulhadores arqueológicos desce, por vezes, praticamente a zero.
O Viking Ship Museum coordena os trabalhos. A razão para a intervenção é, ironicamente, um projeto de prestígio da cidade: Lynetteholm, uma enorme nova ilha portuária destinada a criar habitação e reforçar a proteção costeira. Antes de chegarem paredes-estacas, aterros e maquinaria de obra, os arqueólogos têm de resgatar tudo o que ainda possa ser salvo.
O local não entrou no radar por acaso. Cartas náuticas históricas, relatos e dados modernos de sonar indicavam que ali se teria afundado um grande navio da frota dinamarquesa. Confirmar se era mesmo o “Dannebroge” exigiu à equipa um trabalho minucioso na água turva.
Como os investigadores identificaram sem dúvida a nau Dannebroge
Para chegar à identificação, os especialistas recorreram a uma combinação de arqueologia clássica e ciência natural:
- Dimensões das estruturas de madeira: o comprimento, a largura e a configuração das cavernas e tábuas preservadas correspondem a um grande navio de linha de cerca de 1800.
- Distribuição dos achados: a posição dos canhões, das peças de equipamento e dos objetos do quotidiano segue a planta típica de um navio de guerra desta classe.
- Dendrocronologia: através dos anéis de crescimento da madeira foi possível determinar a idade e a origem da madeira de construção, que coincide com a época de construção do “Dannebroge”.
Os mergulhadores trabalham quase às cegas. Cada prato de cerâmica, cada fragmento de sapato é apalpado com cuidado no lodo, assinalado e recuperado. No fundo do porto vai-se desenhando, peça a peça, a fase final de um navio em chamas que esteve sob bombardeamento intenso.
O naufrágio transforma uma batalha naval conhecida de uma história heroica numa tragédia concreta, comprimida num espaço apertado.
Porque é que este navio esteve no centro da batalha em abril de 1801
O olhar recua até 2 de abril de 1801. A Royal Navy britânica ataca Copenhaga para desmantelar uma aliança nordeuropeia de neutralidade armada no mar. Para Londres, essa coligação - da qual faziam parte a Dinamarca, a Rússia, a Suécia e a Prússia - ameaçava a supremacia no comércio e na logística de guerra.
No porto, a Dinamarca organiza uma linha defensiva com navios de guerra pesados. O “Dannebroge”, com cerca de 48 metros de comprimento e armado com numerosos canhões, é uma peça central dessa barreira. A sua função era bloquear o acesso à capital e manter as embarcações britânicas à distância.
Rapidamente, o navio passa a estar na mira dos atacantes. Granadas destroem partes da madeira, derrubam mastros e perfuram as amuradas. Depois, rebenta um incêndio a bordo - num depósito flutuante de pólvora feito de madeira, alcatrão, cabos e munições, um cenário quase sem saída.
Fontes históricas referem que o “Dannebroge” derivou em chamas antes de, por fim, explodir. Enquanto a historiografia costuma concentrar-se nas manobras táticas de Nelson, o naufrágio puxa o foco para o outro lado desta operação: um navio cheio de gente, transformado de forma sistemática num inferno.
O horror do combate: estilhaços, fumo, calor
Os arqueólogos marítimos sublinham a brutalidade de um confronto destes para a tripulação. Os projéteis não eram o único problema. Quando as balas de canhão embatiam nos cascos de madeira, estilhaços afiados saltavam pelos conveses estreitos, acelerados como se fossem projéteis adicionais. Ao mesmo tempo, fumo, calor e ruído enchiam o espaço.
Os homens tinham de continuar a operar as peças, afastar os feridos, travar os incêndios - tudo isto num labirinto de madeira inclinado e cheio de fumo. O facto de alguns restos da tripulação ainda se encontrarem no fundo do mar só intensifica o caráter dramático deste lugar.
O que os objectos do quotidiano revelam sobre a vida a bordo
À primeira vista, um naufrágio pode parecer apenas um amontoado de canhões e vigas. No caso do “Dannebroge”, são as coisas pequenas que mostram o verdadeiro significado da descoberta. Os mergulhadores não trouxeram à luz apenas artilharia pesada, mas também vestígios do dia a dia dos marinheiros.
Entre os achados já documentados contam-se, entre outros:
- dois canhões sobre reparos, provavelmente da armamento original a bordo,
- sapatos e botas de tamanhos diferentes,
- garrafas e recipientes de cerâmica,
- peças de uniforme, botões e distintivos metálicos,
- restos de tranças e cestos.
Objetos destes dão vida à cena de combate. Mostram que o navio não era apenas uma arma flutuante, mas também alojamento, refeitório, oficina, armazém e espaço de convivência.
Uma sola de sapato gasta fala de conveses húmidos, trabalho duro e um quotidiano apertado a bordo - muito para lá de qualquer narrativa heróica.
Um achado particularmente delicado é uma parte de um maxilar humano. Muito provavelmente, pertencia a um dos 19 marinheiros oficialmente dados como desaparecidos do “Dannebroge”. Assim, o local torna-se também um possível túmulo. Os arqueólogos têm de agir com grande sensibilidade, porque aqui não estão em causa apenas objectos, mas restos humanos ligados a um acontecimento concreto e documentado.
Quando o desenvolvimento urbano cruza a memória nacional
Para a Dinamarca, a Batalha de Copenhaga é uma peça importante da narrativa nacional: um país pequeno a defender as suas rotas marítimas, a sua neutralidade e a sua soberania. O naufrágio toca, por isso, uma memória colectiva consolidada em manuais escolares, museus e cerimónias de homenagem.
A escavação atual altera esse olhar. Em vez de pinturas de almirantes e cenas marítimas romantizadas, surgem em primeiro plano vigas queimadas, canos de canhão deformados e objectos pessoais dos marinheiros comuns. Os mitos históricos chocam com a materialidade da guerra.
| Aspeto | Visão anterior | Nova perspetiva trazida pelo naufrágio |
|---|---|---|
| Desenvolvimento da batalha | Manobras estratégicas, cadeias de comando | Caos a bordo, destruição localizada, incêndios |
| Figuras principais | Almirantes, políticos | Marinheiros, suboficiais, feridos e desaparecidos |
| Memória | Narrativas patrióticas | Tensão entre orgulho e sofrimento, números reais de vítimas |
Ao mesmo tempo, este caso mostra quão vulneráveis são estes arquivos subaquáticos. O projeto Lynetteholm ameaça não só este naufrágio, mas também outros vestígios da história do porto. Cada balde de dragagem pode destruir, sem retorno, restos de madeira, munições ou cerâmica antes mesmo de uma equipa científica os conseguir documentar.
Arqueologia num corrida contra a construção civil
Para os investigadores envolvidos, isso significa trabalhar sob pressão temporal. Têm de mapear o local da forma mais completa possível, recuperar os achados, conservá-los e analisá-los, enquanto os planos do empreendimento continuam a avançar.
Os mergulhadores já encontraram numerosas balas de canhão nas imediações do naufrágio. Estes achados confirmam a intensidade dos disparos naquela área. Ao mesmo tempo, chamam a atenção para os riscos: munições antigas podem estar instáveis e os sedimentos podem conter substâncias contaminantes.
Planeamento urbano e proteção do património têm aqui de ser conciliados. Copenhaga enfrenta a questão de quanto património histórico subaquático pode ser sacrificado para fazer a cidade crescer em terra firme. O “Dannebroge” é, por isso, também um teste à forma como o património subaquático é tratado no século XXI.
O que o achado significa para a nossa visão das guerras navais
Um olhar para o interior do naufrágio ajuda a corrigir ideias feitas sobre as guerras navais. As pinturas mostram muitas vezes linhas arrumadas de navios, frentes nítidas e gestos heroicos. A realidade nos conveses era outra: fumo, estilhaços, madeira carbonizada, membros, suor e medo.
Os objectos do quotidiano recuperados mostram até que ponto guerra e rotina estavam entrelaçadas. Muito perto dos canhões, os arqueólogos encontraram restos de louça, recipientes para provisões e pertences pessoais. Os marinheiros dormiam ao lado de caixas de munições, comiam entre cabos enrolados e aguardavam a ordem para disparar.
Estes achados são especialmente úteis para fins educativos. Os museus podem mostrar, de forma muito concreta, como se sentia um dia a bordo de um navio de linha, que cheiros, ruídos e perigos ali existiam. Isso torna números abstractos como “19 desaparecidos” mais tangíveis, sem cair em espetáculo.
Ao mesmo tempo, o caso de Copenhaga aponta para um desafio geral: muitas cidades portuárias em todo o mundo planeiam aterros, terminais de cruzeiros ou portos de contentores precisamente onde historicamente se concentraram os usos mais intensos. Quem leva avante esses projetos sem sondagens arqueológicas prévias pode destruir, sem saber, arquivos únicos no fundo do mar.
Os termos técnicos que surgem nos relatórios representam muito trabalho de detalhe. A dendrocronologia, por exemplo - isto é, a datação da madeira com base nos seus anéis de crescimento - não só permite enquadramento temporal. Também pode revelar de que regiões provinha a madeira de construção e, assim, que rotas comerciais e cadeias de abastecimento uma frota utilizava. Deste modo, de um único naufrágio passa-se a uma peça-chave para compreender redes económicas inteiras da época das Guerras Napoleónicas.
Quem vier no futuro estudar a Batalha de Copenhaga dificilmente conseguirá ignorar as imagens transmitidas pelo naufrágio: não apenas almirantes no convés, mas marinheiros a carregar canhões em fumo espesso, enquanto por baixo dos pés a madeira arde. É precisamente esta mudança para a perspetiva das pessoas comuns que torna tão significativo o achado do “Dannebroge”.
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