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Sozinho mas forte: porque escolher a solidão pode ser benéfico

Mulher sentada no chão junto a janela, a ler e beber chá quente num dia ensolarado.

Uma forma específica de lidar com o facto de estar sozinho pode mudar bastante este cenário.

Nos últimos anos, têm-se acumulado estudos a mostrar que estar sozinho não é, por si só, um problema. O verdadeiro fator de risco para a saúde mental chama-se isolamento social. Quem percebe a diferença consegue reforçar o seu equilíbrio emocional - e até retirar força dos momentos de silêncio.

Estar sozinho não é o mesmo que solidão

Muita gente mete no mesmo saco duas realidades psicologicamente muito diferentes: o estar sozinho escolhido por vontade própria e o afastamento imposto. Uma pode ser reparadora; a outra pode adoecer.

O que importa não é quantas pessoas estão à nossa volta, mas sim se nos sentimos ligados a elas ou abandonados.

Estudos realizados em grandes países europeus mostram que cerca de 12% da população quase não tem contacto regular com família, amigos ou vizinhos. Ao mesmo tempo, cerca de 7 em cada 10 pessoas dizem viver os seus períodos de estar sozinho como algo mais agradável do que desagradável. Isto mostra até que ponto a avaliação interior faz a diferença.

Os anos da pandemia agravaram esta tendência. Muitas relações enfraqueceram e muitas rotinas quebraram. Desde então, mais pessoas referem sentir-se sozinhas com frequência - em todas as faixas etárias, embora o fenómeno seja particularmente visível entre adolescentes e jovens adultos.

Quando estar sozinho faz bem

A face reparadora da solidão escolhida

Os psicólogos falam muitas vezes em “solidão restauradora”. Referem-se a pausas assumidas de forma consciente, em que não há chefe, família nem notificações a exigir atenção. Nesses momentos, o cérebro entra num estado de repouso que os investigadores chamam “Default Mode”.

Neste modo, o cérebro faz outro tipo de trabalho: organiza experiências, processa emoções e continua a desenvolver ideias. Muitas pessoas contam que, ao dar um passeio sozinhas ou ao rabiscar sem pensar demasiado, lhes surgem de repente soluções criativas que nunca apareceriam no meio da agitação.

Investigações publicadas em revistas como a “Scientific Reports” indicam, entre outras coisas, que:

  • as pessoas que reservam regularmente tempo para si tendem a mostrar maior estabilidade emocional;
  • relatam níveis mais elevados de satisfação com a vida e prioridades mais claras;
  • vivem as suas relações com mais liberdade, porque não sentem necessidade constante de se provar.

Estar sozinho pode, assim, transformar-se num espaço protegido: para pensar, sonhar, ler, ouvir música, fazer trabalhos manuais ou praticar exercício físico - sem comentários, sem comparações e sem pressão para corresponder.

Como se sente a solidão escolhida

Sinais típicos de que o afastamento está a ajudar mais do que a prejudicar:

  • depois do tempo passado consigo, a pessoa sente-se mais calma ou com a cabeça mais clara;
  • regressa à vida social por iniciativa própria, e não por obrigação;
  • enquanto está sozinha, surgem ideias, planos ou simplesmente uma sensação de alívio;
  • o silêncio não é sentido como ameaça, mas como algo reconfortante.

Quem vive experiências destas não precisa de ter remorsos por recusar um convite de vez em quando ou por desligar o telemóvel de propósito. Pelo contrário: estas pausas podem fortalecer a resistência psicológica.

Quando a solidão adoece

O isolamento involuntário como stress prolongado

A realidade muda por completo quando alguém se sente sozinho apesar de desejar proximidade. Essa sensação atua como um stress lento e persistente. Os investigadores assinalam que a solidão prolongada ativa as mesmas regiões cerebrais que a dor física.

Daí podem resultar vários efeitos para a saúde:

  • maior risco de sintomas depressivos e de ansiedade;
  • perturbações do sono, espirais de ruminação e inquietação interior;
  • níveis mais elevados de hormonas do stress no sangue e enfraquecimento do sistema imunitário;
  • a médio e longo prazo, maior risco de doenças cardiovasculares.

Os inquéritos mostram que as pessoas com poucos contactos sociais se consideram infelizes com cerca do dobro da frequência dos restantes. Também relatam mais vezes sentimentos de inutilidade e a impressão de não terem ninguém que se interesse verdadeiramente por elas.

Quem está particularmente em risco

Nos estudos sociais, há um grupo que surge repetidamente em destaque: os desempregados. Quase metade sente-se sozinha com frequência, enquanto entre as pessoas empregadas essa percentagem é claramente inferior. Perder o emprego significa muitas vezes perder também contactos do dia a dia, reconhecimento e estrutura.

O desemprego não pesa apenas na carteira; pesa muitas vezes também na autoestima - e aumenta, por isso, o risco de isolamento social.

Também os adolescentes e os estudantes aparecem com maior frequência nas estatísticas de risco em levantamentos mais recentes. Em geral, estão muito bem ligados digitalmente, mas lidam com pressão para corresponder, medo do futuro e a sensação de terem de parecer sempre impecáveis. A comparação nas redes sociais pode intensificar a impressão de estarem de fora.

Ser feliz sozinho: passos práticos para o dia a dia

Aprender a aguentar o silêncio

Muitas pessoas pegam no telemóvel quase por reflexo sempre que aparece uma pausa: no comboio, na fila de espera ou na cama. Quem quiser lidar de forma mais consciente com o tempo passado sozinho pode criar pequenos contraestímulos:

  • reservar 10 minutos por dia sem ecrã, por exemplo com uma chávena de chá junto à janela;
  • fazer uma caminhada sem auscultadores e reparar no que o rodeia;
  • manter um caderno onde fique registado, de forma breve, o que se pensa ou sente;
  • experimentar um exercício simples de respiração: inspirar durante três segundos, suster por instantes, expirar durante cinco segundos.

Estes mini-rituais parecem discretos, mas dão ao dia momentos em que ninguém exige nada. Abrem a porta à perceção interior.

Encontrar o equilíbrio certo

O tempo passado sozinho não substitui relações; complementa-as. Quem se isola em excesso arrisca-se a cair na solidão. Pode ser útil fazer um pequeno controlo interior:

Pergunta Possível interpretação
Na maioria das vezes, fico contente por ter planos com outras pessoas? Mistura saudável de proximidade e recolhimento
Costumo cancelar encontros com frequência, embora depois me sinta vazio? Sinal de alerta para um início de isolamento
Tenho pelo menos uma pessoa em quem me consigo confiar? Protege contra uma solidão profunda
Continuo a ter passatempos de que gosto? Sinal de mobilidade psicológica

Se a pessoa notar que os encontros começam a parecer apenas cansativos, que os interesses desaparecem e que os pensamentos negativos sobre si própria passam a dominar, deve levar essa evolução a sério. As ofertas de conversa de serviços de apoio ou linhas telefónicas podem ser, aqui, uma primeira via acessível.

Sinais que não devem ser ignorados

Alguns indícios mostram que a solidão está a tornar-se preocupante:

  • problemas persistentes de sono ou perda de apetite;
  • a sensação de não haver ninguém que se preocupe verdadeiramente;
  • pensamentos frequentes como “Sou indiferente a toda a gente” ou “Há algo de errado comigo”;
  • afastamento também de pessoas e atividades que antes eram importantes.

Se estes padrões se mantiverem durante semanas, vale a pena falar com o médico de família ou procurar aconselhamento psicológico. Muitas respostas funcionam de forma anónima e gratuita, por exemplo através de linhas de apoio ou de serviços de chat.

Usar o estar sozinho como recurso psicológico

O que os recuos conscientes podem trazer a longo prazo

Quem aprende a estar bem consigo próprio ganha várias coisas ao mesmo tempo: mais autoconhecimento, maior paz interior e, muitas vezes, mais clareza sobre quais os contactos que fazem bem e quais os que drenam energia.

Exemplos práticos do trabalho terapêutico mostram que pessoas com rituais de estar sozinho já treinados se sentem mais estáveis em momentos de crise. Têm estratégias para aliviar o stress sem recorrer logo a distrações. Isso pode ajudar a evitar comportamentos aditivos ou decisões impulsivas.

Também é interessante notar isto: pessoas que estão em paz consigo próprias vivem muitas vezes as situações sociais com mais serenidade. Precisam de provar menos, estão mais abertas aos momentos de silêncio nas conversas e ouvem melhor. Isso melhora, por sua vez, a qualidade das relações.

Como organizar de forma útil o tempo passado sozinho

Nem todas as horas sem companhia são automaticamente construtivas. Eis algumas ideias para que estes períodos tenham um efeito mais nutriente:

  • começar um projeto criativo: desenho, fotografia, escrita ou um instrumento musical;
  • fazer atividade física sem pressão de desempenho: alongamentos, ioga, corrida ligeira;
  • criar uma rotina de fim de dia só consigo próprio, como uma bebida específica, apagar as luzes e acender uma vela;
  • pensar de forma dirigida num tema, por exemplo com perguntas como “O que me fez bem esta semana?”

Quando alguém constrói estas pequenas ilhas, fortalece passo a passo a sensação de que pode confiar em si próprio. Essa confiança na própria pessoa é um dos pilares de uma saúde mental estável.

No fim, não se trata de estar sempre sozinho nem de substituir o meio social. O essencial é mudar a atitude interior: sair do medo de estar sozinho e passar a encará-lo também como um aliado silencioso, mas eficaz, da mente.

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