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Tensões no Estreito de Ormuz: EUA e Irão jogam influência com o “Projeto Liberdade”

Dois oficiais navais analisam uma mesa táctica com mapas e modelos de navios, com o mar e navios ao fundo.

O agravamento das tensões no Estreito de Ormuz está a ser gerido com cálculo de ambos os lados da guerra que se prolonga desde 28 de fevereiro. Tanto os Estados Unidos da América (EUA) como o Irão procuram reduzir a margem de manobra do adversário, enquanto tentam projetar força para o momento em que voltarem a sentar-se à mesa das negociações.

John Strawson, perito em Estudos do Médio Oriente na Universidade de East London, considera que “estamos num momento perigoso neste conflito”, com as duas partes “presas a uma retórica crescente sobre o controlo do Estreito de Ormuz, que tem sido reforçada pelos confrontos militares”. O risco de a situação fugir ao controlo deve ser sempre equacionado, mas “seria trágico, dado que cada lado assinalou que deseja o fim da guerra”, disse Strawson ao Expresso.

Desde o início da operação norte-americana “Projeto Liberdade”, apenas um número reduzido de navios atravessou o Estreito de Ormuz: o navio-tanque de gás Nooh Gas, sancionado pelos EUA três dias antes do início da guerra, que navegou por uma rota controlada pelo Irão junto às águas territoriais iranianas; o navio-tanque de produtos petrolíferos Zerba, registado na Índia; o Alliance Fairfax, com bandeira norte-americana, que estava no Golfo Pérsico desde o fim de fevereiro e conseguiu sair após coordenação com as Forças Armadas dos EUA; e uma segunda embarcação, não identificada, também de bandeira norte-americana.

Estreito de Ormuz não foi reaberto

Assumir que a normalidade regressou é enganador. Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, reconheceu que o Irão atacou os EUA mais de dez vezes durante o cessar-fogo. Além disso, desde o anúncio da mais recente trégua, apreendeu dois navios porta-contentores. Em reação, no âmbito do “Projeto Liberdade”, Washington instalou uma “presença significativa” no estreito, mantendo o bloqueio, explicou Caine, esta terça-feira.

O militar referiu ainda que uma “área de segurança reforçada” no lado sul do estreito está a ser defendida com meios terrestres, navais e aéreos dos EUA. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, descreveu-a como uma “poderosa presença vermelha, branca e azul” em Ormuz, concretizada em “centenas de caças, helicópteros, drones e aeronaves de vigilância, fornecendo vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, para navios comerciais pacíficos”.

Na prática, está a ser montado um quadro mais permissivo - ou, pelo menos, percecionado como mais seguro - para a navegação comercial, assente numa vigilância apertada sobre o Irão através de satélites, drones e inteligência artificial. A lógica operacional é clara: tudo o que se deslocar em terra, à superfície do mar ou debaixo de água será detetado e atingido de imediato. Em paralelo, navios estão a ser posicionados ao longo de um troço da costa dos Emirados Árabes Unidos que as forças norte-americanas têm vindo a desminar de forma discreta.

Ainda assim, qualquer tentativa de desbloquear o estreito de forma duradoura será, contudo, “complexa”, sublinha Strawson, investigador em Estudos do Médio Oriente. “Parece que os EUA estão a tentar operações seletivas, movimentando um pequeno número de navios, mas os iranianos demonstraram que a operação americana pode ser vulnerável a ataques”, acrescenta. Apesar de o regime teocrático controlar apenas um dos lados da costa, Strawson considera que “precisamos de uma solução diplomática se queremos abrir o estreito”.

Ali Alfoneh, perito do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, recorda que os EUA continuam sem assegurar a liberdade de navegação através do Estreito de Ormuz. “Podem não atingir esse objetivo sem se envolverem numa invasão terrestre do Irão.”

Operação arriscada: é possível pressionar sem desencadear combates?

“Existem 22.500 marinheiros em mais de 1550 navios comerciais presos no Golfo Pérsico, sem poderem transitar”, admitiu Caine, quantificando a dimensão do bloqueio que permanece. Hegseth, por sua vez, apelou a Teerão para deixar os “navios inocentes passarem livremente”, insistindo que “estas águas internacionais pertencem a todas as nações, não ao Irão para tributar, cobrar taxas ou controlar”.

O secretário da Defesa voltou a frisar que os EUA não são os principais prejudicados: “Esta é uma missão temporária para nós. Como já disse, o mundo precisa desta via navegável muito mais do que nós. Estamos a estabilizar a situação para que o comércio possa voltar a fluir, mas esperamos que o mundo assuma a responsabilidade no momento apropriado.”

Pela voz de Hegseth, a administração Trump procurou reforçar a ideia de que o cessar-fogo não foi rompido e de que o “Projeto Liberdade” melhora a posição negocial de Washington. “Os EUA afirmam que o cessar-fogo não terminou e que o ‘Projeto Liberdade’ é um conflito distinto, mas representa um desafio ao controlo do Irão sobre o Estreito de Ormuz. Se os EUA continuarem a operação, é provável uma escalada”, observa James Devine, professor de Relações Internacionais na Universidade de Mount Allison.

Isto significa que Teerão dificilmente poderá ficar sem resposta: se não reagir, arrisca-se a perder influência e, ao mesmo tempo, precisa de evidenciar que mantém capacidade de fogo. Embora os EUA apresentem o “Projeto Liberdade” como uma iniciativa humanitária para permitir a saída de navios retidos no Golfo Pérsico, “o plano foi provavelmente concebido para testar a determinação iraniana e afrouxar o seu controlo sobre o Estreito de Ormuz sem a necessidade de retomar grandes operações militares”, explica Devine.

O professor acrescenta que a operação norte-americana “parece ter a intenção de transferir a culpa de uma escalada para o Irão, caso esta se verifique”. Porém, avisa, “é uma estratégia arriscada se os EUA não estiverem política e militarmente preparados para a retoma dos combates”.

Teerão agarrada à influência conquistada

Na leitura do professor de Relações Internacionais, não é inesperado que o Irão se mostre disposto a proteger a sua posição no Golfo Pérsico, um dos seus principais trunfos de influência nesta guerra. “Se o ‘Projeto Liberdade’ resultar na rutura do cessar-fogo, não há razão para acreditar que a situação militar fique diferente da anterior, ou que os EUA consigam forçar o Irão à capitulação através de bombardeamentos”, sustenta Devine.

Jamie Shea, antigo vice-secretário-geral-adjunto para os Desafios Emergentes de Segurança da NATO, discorda e contrapõe: “O cessar-fogo terminou de facto, com o Irão a atacar navios no Golfo, incluindo de nações não beligerantes como a Coreia do Sul, a disparar contra navios de guerra americanos e a lançar mísseis de cruzeiro contra instalações petrolíferas nos Emirados Árabes Unidos e Omã”.

O Pentágono afirma ter destruído lanchas rápidas iranianas com capacidade para disparar mísseis. Ainda assim, tanto para Washington como para Teerão, “é conveniente declarar que o cessar-fogo geral ainda está em vigor, enquanto se ameaçam mutuamente com inferno e fogo caso retomem os ataques militares em grande escala”, disse Shea ao Expresso, descrevendo um cessar-fogo cada vez mais frágil. “Washington parece determinada a retomar o controlo do Estreito ao Irão, e o Irão tenta resistir à perda desse controlo com todos os meios disponíveis.”

A retórica de Trump e de Hegseth tornou-se menos agressiva do que tem sido habitual. Porém, os ataques reivindicados pelo Irão no Estreito de Ormuz - tentativas de atingir navios de guerra dos EUA, ações bem-sucedidas contra alguns navios mercantes e contra a instalação petrolífera dos Emirados, em Fujairah, apesar de Teerão ter negado envolvimento por não querer ultrapassar certos limites - indicam que, mesmo que os iranianos não consigam impedir a retirada de navios pelos americanos, continuam com margem para alargar de novo a guerra, atacando infraestruturas e, em particular, os Emirados Árabes Unidos.

Emirados tornaram-se um alvo útil

Na ótica iraniana, os Emirados são “particularmente próximos dos EUA”, algo que, segundo Strawson, fica ilustrado pela decisão do país de abandonar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), “algo que os EUA desejavam”. “Não creio que tenha sido um ataque não planeado, muito pelo contrário. Os iranianos usaram a atividade dos EUA no estreito como uma oportunidade para punir os Emirados.”

Alfoneh vai mais longe e enquadra o episódio numa estratégia de maior alcance: o regime iraniano entende que os Emirados - sob liderança de Abu Dhabi - se aproximaram de Israel. “Teerão procura mobilizar seis dos sete emirados (Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah) contra Abu Dhabi”.

Há, pelo menos, um ponto inequívoco: ao atingir os Emirados Árabes Unidos, Teerão procura sinalizar disponibilidade para intensificar o conflito e recuperar a linha seguida antes do cessar-fogo - isto é, penalizar aliados dos EUA na região e complicar a produção e a exportação de petróleo. Mesmo que os EUA tenham vantagem em confrontos navais, os seus parceiros no Golfo Pérsico mantêm vulnerabilidades.

“A guerra entre o Irão, Israel e os EUA transformou-se num conflito congelado que irrompe intermitentemente, quando uma das três partes viola o aparente cessar-fogo e desencadeia nova ronda de hostilidades, ou assassínio de dirigentes iranianos ou ataques às infraestruturas económicas do Irão, seguidos de retaliações iranianas contra as infraestruturas energéticas regionais”, afirmou Alfoneh ao Expresso. Considera que “é provável que este padrão persista até que o regime em Teerão entre em colapso e o Irão seja dividido após uma guerra civil, ou até que construa duas armas nucleares, teste uma com sucesso e mantenha a outra para dissuasão”.

Frente de desgaste político para Trump

Donald Trump tem procurado, de forma consistente, transmitir a ideia de que o tempo joga a seu favor. Ainda assim, está por saber se dispõe realmente desse tempo, sobretudo num ano de eleições para o Congresso (em novembro), com pressão crescente sobre os mercados globais de energia, o comércio internacional e o impacto geral da guerra na comunidade internacional.

O Presidente dos EUA enfrenta pressões no Congresso, que questiona se já ultrapassou o limiar de 60 dias após o qual cabe ao poder legislativo decidir se o país deve manter-se em guerra. Em paralelo, Trump diz acreditar que consegue intimidar o Irão e levá-lo à submissão, sem apresentar provas disso. Para a República Islâmica, a mera sobrevivência do regime já é, por si, uma vitória; e, se conseguir conservar algum nível de controlo sobre o Estreito de Ormuz, ultrapassa essa fasquia.

Alfoneh assinala que os aiatolas acreditam ter capacidade económica para aguentar um bloqueio norte-americano ao Estreito de Ormuz até 3 de novembro de 2026, data das eleições nos EUA. “O Irão pode não ser capaz de derrotar os EUA militarmente, mas Teerão parece acreditar que pode impor custos políticos ao Partido Republicano e derrotar o Presidente Trump nas bombas de gasolina americanas”, enfatiza o investigador.

Nesta leitura, “os EUA poderão ser arrastados para uma crise política - e talvez constitucional - se o Partido Democrata conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e, possivelmente, no Senado, e o Presidente se recusar a reconhecer o resultado das eleições”, descreve Alfoneh. E interpreta que, no meio dessa turbulência, “o Irão pode contar com certo alívio estratégico da pressão externa”.

Irão aposta no tempo e na paciência, os mais fortes guerreiros

O bloqueio norte-americano aos portos iranianos também está a afetar a economia do Irão. Ainda assim, James Devine considera “pouco provável que o país tenha chegado a um ponto em que necessite de capitular tão rapidamente”. Por isso, acrescenta, Teerão “pode acolher bem uma certa escalada do conflito, caso isso aumente a pressão sobre Trump, que afirma estar disposto a esperar que Teerão ceda”.

Strawson entende que ambas as partes estão “a fazer bluff”. A expectativa de Trump de uma guerra breve, com resultados dramáticos, revelou-se ilusória; já os iranianos estão a jogar no longo prazo, conscientes de que quanto mais tempo conseguirem resistir, mais podem consolidar o regime.

“Trump está sob pressão nos EUA de sectores do movimento MAGA [Make America Great Again, a sua base de apoiantes marcadamente isolacionista] que se opõem à guerra, e dos democratas, que esperam obter grandes ganhos nas eleições no outono”, prossegue. “O Governo paquistanês mantém as negociações intermitentes entre os dois lados e parece que os iranianos estão a demonstrar flexibilidade em relação ao enriquecimento de urânio, embora não o suficiente para os EUA.”

Segundo os analistas, é difícil antecipar quanto tempo poderá durar este intervalo de “nem guerra, nem paz” sem evoluir para uma nova vaga de combates em grande escala. “O certo é que temos de estar preparados para uma nova guerra”, conclui Strawson.

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