Há mais de um século que os portugueses recorrem aos jornais em papel para perceber o que se passa no país e no mundo. Depois do papel, ainda na primeira metade do século XX, a rádio abriu um novo caminho para a informação. Com o tempo, foram-se somando alternativas: sítios web, podcasts, redes sociais e até sistemas de inteligência artificial, hoje usados para acompanhar a atualidade. Apesar da multiplicação de formatos, a ligação do público às notícias tem vindo a enfraquecer, dentro e fora de Portugal.
Confiança nas notícias em Portugal: evolução 2015-2025
De acordo com o “Relatório de Notícias Digitais”, que o Instituto Reuters publica todos os anos, tem caído a percentagem de pessoas em Portugal que dizem confiar na maior parte das notícias na maioria do tempo. Em 2015, 66% afirmavam confiar nos meios de comunicação social tradicionais; em 2025, esse valor desceu para 54%.
Entre as marcas nacionais que os inquiridos consideram mais fiáveis estão a RTP Notícias (75%) e o “Jornal de Notícias” (74%). O Expresso e a SIC Notícias, ambos do grupo Impresa, surgem empatados no terceiro lugar, com 73%.
Portugal no panorama internacional da confiança nas notícias
Mesmo com o recuo registado nos últimos anos, Portugal continua entre os países europeus com níveis mais elevados de confiança por parte das audiências. No contexto europeu, fica atrás apenas da Finlândia (67%) e da Dinamarca (56%), surgindo empatado com a Noruega.
Quando se alarga a análise ao resto do mundo, Portugal mantém-se entre os valores de topo, já que são poucos os locais onde mais de 54% das pessoas dizem confiar nos meios de comunicação social. Assim, só a Nigéria (68%), o Quénia (65%), a África do Sul e a Tailândia (55%) apresentam resultados superiores.
No extremo contrário, há também países europeus que se evidenciam pelos níveis mais baixos de confiança nas notícias: Hungria e Grécia, com 22% cada, e Eslováquia (23%). Fora da Europa, os resultados mais reduzidos aparecem em Marrocos (28%) e em Taiwan e nos Estados Unidos (30%).
Televisão continua relevante, mas a quebra na última década é acentuada
Em Portugal, a televisão mantém-se como o canal mais usado para aceder às notícias. Ainda assim, a proporção de pessoas que se informam por esta via caiu de forma expressiva desde 2015: nessa altura, 85% diziam consumir conteúdos jornalísticos pela TV; agora, o valor é de 67%. Segundo o estudo do Instituto Reuters, a descida verificou-se em todos os critérios avaliados.
De acordo com um estudo baseado em dados dos Países Baixos e publicado na revista académica “Journalism Studies”, a maior parte das pessoas evita as notícias ocasionalmente, não de maneira consistente
A categoria “Qualquer meio em linha”, que inclui sítios web, aplicações, redes sociais, podcasts e modelos de inteligência artificial, também recuou 17 pontos percentuais, passando de 86% para 69%. Dentro das opções em linha, as redes sociais sobressaem (44% em 2025), ao passo que os jornais e revistas em papel ficam limitados a 17% dos participantes.
Existem, contudo, países onde as redes sociais pesam mais do que em Portugal, como acontece no Brasil. Aí, os meios em linha são usados por 78% dos inquiridos, com destaque para as redes sociais (54%), um valor oito pontos percentuais acima da televisão. Além disso, de acordo com dados do Painel TIC divulgados pela “Folha de São Paulo”, os brasileiros desconfiam mais de informações produzidas por meios tradicionais (48%) do que das partilhadas por amigos ou familiares nas redes sociais (39%) ou em aplicações de mensagens (42%).
Evitamento de notícias, motivos indicados e críticas ao jornalismo
A diminuição do consumo noticioso não se limita a Portugal e pode estar relacionada com um fenómeno conhecido como evitamento de notícias, isto é, a proporção de pessoas que opta por não acompanhar a atualidade. Em Portugal, 35% dos inquiridos disseram evitar notícias às vezes ou com frequência, abaixo da média mundial (40%). Entre os países com valores mais elevados voltam a surgir vários europeus: Bulgária (63%), Turquia e Croácia (61%).
As razões para este afastamento podem ser diversas. No “Relatório de Notícias Digitais”, os motivos mais referidos são: “Notícias afetam o meu humor negativamente (39%)”, “estão exaustos com a quantidade de notícias (31%)” e “há muita cobertura de conflitos e guerras (30%)”. Há ainda quem deixe de ler notícias por motivos políticos, para evitar discussões, ou por sentir que não existe nada a fazer com a informação recebida.
O estudo com base em dados dos Países Baixos, publicado na revista académica “Journalism Studies”, indica que a maioria das pessoas evita notícias de forma pontual, e não contínua. Além disso, a investigação identifica dois grandes perfis entre quem tenta afastar-se do consumo jornalístico: por um lado, quem considera que as notícias têm baixa qualidade; por outro, quem as acha pouco interessantes ou demasiado difíceis. Em ambos os casos, aponta a pesquisa, é maior a presença de pessoas com baixos níveis de escolaridade.
Por fim, o “Relatório de Notícias Digitais” regista também críticas dos consumidores aos meios de comunicação social que não estão diretamente ligadas ao afastamento das notícias, mas sim à perda de confiança no jornalismo profissional. Para muitos, a perceção de falta de imparcialidade nos jornais constitui um problema. Em paralelo, as audiências dizem querer um esforço maior dos jornalistas na verificação de factos e na prevenção de textos especulativos, bem como mais transparência nas reportagens. Também é manifestado o desejo de mais investigações dirigidas a pessoas poderosas e de menos destaque a conteúdos superficiais cujo objetivo seria gerar acessos em linha.
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