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Esoterismo no Telegram ao serviço da propaganda russa, diz OpenMinds

Pessoa a consultar previsões de tarô no telemóvel, com cartas, matrioska e computador ao fundo numa mesa de madeira.

Em 2022, quando a Rússia avançou com a invasão da Ucrânia, o futuro parecia particularmente nebuloso. Essa falta de certezas levou muitos russos e ucranianos a procurarem respostas em práticas esotéricas - leituras de Tarot, amuletos de proteção e videntes. No ano passado, o jornal ucraniano “Kyiv Independent” referia que cerca de 43% dos ucranianos acreditavam em diferentes formas de esoterismo.

Entretanto, a Reuters relatou que, também na Rússia, a adesão ao misticismo está a crescer: quase metade da população acredita que algumas pessoas conseguem antecipar o futuro ou têm poderes mágicos. A agência cita uma sondagem do instituto estatal VTsIOM, que relaciona esta tendência com um “aumento de ansiedade” provocado “pelos desafios geopolíticos e económicos na Rússia e no mundo”.

Nas redes sociais, estas leituras e previsões sobre o destino global multiplicam-se. “É o ano do Cavalo de Fogo e da Roda da Fortuna, e isso significa uma coisa: o mundo deixa de viver segundo as regras antigas. Tudo o que parecia ‘estável e compreensível’ desfaz-se, e quem chegar primeiro é que ficará com o poder”, lê-se (numa tradução feita com recurso a inteligência artificial) numa publicação de 7 de dezembro do ano passado, na conta de Telegram @tarotnevrut. A mensagem apontava, de forma indireta, para uma mudança no peso geopolítico dos Estados Unidos da América (EUA).

“O mundo deixará de ser unipolar, com um único ‘dono’ ou um só país a decidir por todos”, acrescenta a mesma previsão. “Começa uma era de multipolaridade, em que há vários centros de influência, cada um a puxar o mundo na sua direção.”

A Imperatriz Kremlin… e um Zelensky sem coroa

É igualmente a partir de @tarotnevrut que, um mês antes, surgiu uma leitura de cartas sobre a possibilidade de, em 2027, ocorrer um encontro entre o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o Presidente russo, Vladimir Putin. Nessa interpretação, era feita a seguinte observação: “Segundo as minhas próprias interpretações deste baralho, a Imperatriz representa a Rússia, e o Imperador representa a Europa. Admito que a Ucrânia e o seu líder sejam relativamente fracos para terem um arquétipo tão poderoso”.

Já uma publicação recente de outra conta, @crazyprophecies, sustenta que “as elites” pretendem empurrar a população para “derrubar o Presidente em funções”. Ao mesmo tempo, defende que “a Rússia não precisa de revoluções nem de períodos de turbulência”.

Estes são dois exemplos destacados num relatório da OpenMinds, empresa de tecnologia de defesa que realizou campanhas de contra-influência em territórios ucranianos ocupados e também projetos de investigação sobre a guerra da Rússia contra o país vizinho. O documento conclui que, pelo menos, 15% dos canais esotéricos russos mais populares no Telegram divulgaram previsões ou comentários sobre assuntos políticos, na Rússia e fora dela.

A análise baseia-se em dados recolhidos na plataforma em setembro do ano passado e indica que, na maioria das situações, o enquadramento destas publicações estava “quase sempre” em linha com a posição do Kremlin.

No total, a investigação identificou 730 canais deste tipo. Entre eles, os cinco com maior envolvimento em conteúdos políticos somavam mais de 100 mil seguidores. Segundo o relatório, existe uma “sobreposição significativa” entre quem segue canais de astrologia aparentemente “neutros” e quem acompanha canais que, “pelo menos ocasionalmente, interpretam acontecimentos da atualidade através de uma lente cósmica”.

“Intencionalmente ou não, tais comentários ajudam a normalizar narrativas estatais, sobretudo para públicos que não procuravam política. Porque estes leitores são frequentemente vistos como “não-políticos”, as suas mensagens podem ter ainda mais peso, formuladas numa mensagem mística, e não ideológica, explica o relatório intitulado “Estrelas, cartas e narrativas estatais: esoterismo ao serviço da propaganda russa”.

Da “adoração a Putin” às restrições ao Telegram

A OpenMinds enumera como temas recorrentes “adoração a Putin”, “ódio a Zelensky”, “glorificação do 9 de maio” - data em que a Rússia assinala a vitória na II Guerra Mundial, em 1945 -, “guerra como ordem cósmica” e “adivinhação como geopolítica”. No mesmo levantamento, Putin surge como “a figura política mais analisada no espaço esotérico russo”, com recurso a mapas astrais do nascimento, leituras numerológicas e previsões de “energia quântica” sobre o chefe de Estado.

“Os leitores de Tarot interpretam as suas entrevistas com [o apresentador americano de direita radical] Tucker Carlson; astrólogos oferecem análises de personalidade de governantes ‘com predominância de Saturno’, como Putin. Nos horóscopos diários, são comuns lembretes como ‘não duvides de ti - és Balança, como Putin’”, detalha o relatório.

Ainda assim, mesmo quando parte deste conteúdo místico reproduz narrativas políticas favoráveis ao Kremlin, a crença no esoterismo não deixa de encontrar oposição nos círculos de poder. Em 2024, o jornal francês “Le Monde” noticiou que deputados, padres ortodoxos e propagandistas se juntaram para desenhar uma lista de pessoas e organizações alegadamente a “promover terrorismo, extremismo e ideologia destrutiva”, no contexto de uma campanha contra o “satanismo”.

No ano seguinte, o jornal digital “Meduza” avançou que deputados russos tinham preparado uma proposta de lei para proibir publicidade a “práticas místicas, energia curativa e aconselhamento espiritual”, impondo limites à distribuição de informação sobre serviços que abrangiam desde astrologia até nutrição.

Em paralelo, o próprio Telegram tem sido alvo de restrições de acesso e o seu fundador, Pavel Durov, está sob investigação num processo penal com acusações de terrorismo. As autoridades russas têm aplicado bloqueios ao acesso à internet, o que está a levar muitas pessoas a instalarem VPN (aplicações que permitem contornar a censura digital) e a aumentar o descontentamento entre as elites.

Fenómeno está subestimado

A OpenMinds considera que a dimensão real do fenómeno poderá estar a ser desvalorizada, uma vez que várias previsões circulam também no YouTube ou em transmissões em direto. Perante as restrições ao Telegram, a empresa admite que o panorama possa mudar. “Resta saber se os canais esotéricos vão migrar para a MAX ou espalhar-se por outras plataformas”, nota.

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