A Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi tem atravessado uma fase particularmente turbulenta. A detenção de Carlos Ghosn no final do ano passado, sob suspeitas de irregularidades financeiras, abalou a estabilidade do entendimento entre as marcas. A dúvida instalou-se: conseguiria a estrutura manter-se de pé sem a figura central que a idealizou e a manteve coesa durante cerca de 20 anos?
Passados vários meses desde a detenção e da consequente perda dos cargos que Ghosn desempenhava, começam a surgir indícios de que existe uma via não apenas para preservar a ligação, mas até para a estreitar, sobretudo no eixo Renault–Nissan.
Esse percurso poderá mesmo desembocar numa fusão entre a Renault e a Nissan. A hipótese tem um lado irónico: segundo o Financial Times, antes de ser detido, uma fusão entre a Renault e a Nissan fazia parte da estratégia que Carlos Ghosn tinha em mente.
Como funciona a Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi
Na altura, esses planos encontraram forte resistência por parte da administração da Nissan. A razão passa por perceber que a Aliança não opera como um grupo automóvel tradicional; na prática, aproxima-se mais de um modelo de cooperação e desenvolvimento partilhado do que de duas marcas plenamente integradas sob a mesma estrutura.
Ainda assim, a teia accionista cria um desequilíbrio relevante: a Nissan detém 15% da Renault e esta controla 34% da maior e mais valiosa Nissan, o que confere ao construtor francês maior capacidade de influência e decisão - incluindo o poder de indicar executivos sénior para a administração do fabricante japonês.
Em outras palavras, a balança de poder pende claramente para um dos lados. Por isso, de acordo com fontes citadas pelo Financial Times, a “administração (da Nissan) sempre disse que lutaria duramente contra qualquer reorganização que entrincheirasse o seu estatuto de segundo nível”.
Fusão, parte II
Esse era o cenário anterior. Com Carlos Ghosn fora de cena e depois das tensões vividas na Aliança nos últimos meses na sequência da sua detenção, surgem agora referências a um ambiente potencialmente mais favorável. Para isso também terá contribuído a criação recente de um novo conselho de administração da Aliança, liderado pelo actual presidente da Renault, Jean-Dominique Senard.
Foi a própria Renault que avançou primeiro, ao procurar reactivar conversações com a Nissan tendo em vista uma eventual fusão ao longo dos próximos 12 meses. Ainda assim, esta união - por agora apenas hipotética - entre a Renault e a Nissan (e a Mitsubishi, participada em parte pela Nissan) seria apenas o ponto de partida.
Todos querem a FCA
Caso o processo avance, a intenção passaria por juntar forças para comprar mais um grupo automóvel, aumentando a capacidade de disputar a liderança mundial frente à Toyota e ao Grupo Volkswagen.
O alvo em vista é a FCA - Fiat Chrysler Automobiles -, que, como noticiámos, também despertou recentemente o interesse de Carlos Tavares, CEO da PSA. A própria FCA, ainda durante o período em que o falecido Sergio Marchionne conduzia o grupo, procurou activamente parceiros - ou mesmo uma fusão - com vários candidatos, entre os quais a PSA, a GM e até a Hyundai.
Se então não foi possível chegar a um acordo, hoje o contexto parece apontar para maior margem de manobra, ou condições mais propícias, para criar um novo “leviatã” na indústria automóvel.
Jeep e Ram: o principal atractivo da FCA
De onde vem o apetite pela FCA? Duas palavras: Jeep e Ram. Ambas são marcas muito rentáveis, com presença forte no mercado norte-americano, e é difícil ignorar o potencial internacional da Jeep.
Além disso, somar mais de 5 milhões de veículos produzidos pela FCA aos quase 11 milhões da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi permitiria, no futuro, economias de escala de grande dimensão e a consequente redução de custos - um tema crítico num sector em transformação acelerada, que exige investimentos avultados em áreas como a electrificação e a condução autónoma.
Fica por saber quem chegará primeiro a essa aquisição. A Renault e a Nissan ainda terão de alinhar internamente múltiplos pontos antes de fecharem qualquer entendimento; quando (e se) isso acontecer, é possível que a FCA já tenha sido assegurada por outro grupo concorrente.
Fontes: Financial Times e Automotive News.
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