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Ao volante do Volkswagen ID. Cross: em Portugal, por menos de 30 mil euros

Carro elétrico Volkswagen ID. Cross branco exibido numa sala de exposição moderna com grandes janelas.

Os elétricos “para todos os dias” da Volkswagen estão prestes a entrar numa nova fase - e, desta vez, a marca parece querer acertar no essencial. A receita passa por recuar um pouco face aos primeiros ID, sobretudo no desenho exterior, no ambiente a bordo e até na forma como os modelos se chamam, alinhando-se com aquilo que muitos clientes sempre associaram à Volkswagen. Ao mesmo tempo, há um avanço claro onde mais importa: na tecnologia, com mudanças na química das baterias e uma escolha mais criteriosa da sua capacidade.

Mas vamos com calma. Depois do ID. Polo, fomos conhecer a interpretação SUV do mesmo conceito: o ID. Cross, o sucessor natural do T-Cross com motores de combustão.

Essa ligação percebe-se de imediato nas dimensões e, mesmo com a camuflagem típica das unidades pré-série, as linhas mantêm-se muito próximas das que vimos no concept apresentado no Salão de Munique, em setembro do ano passado - e que agora pudemos experimentar em primeira mão:

Retro? Não obrigado

Se por fora não se antecipam praticamente alterações face ao concept, Mindt e a sua equipa quiseram que o interior fosse mais “caloroso” do que em alguns ID. que já circulam nas estradas portuguesas. Há mais materiais macios ao toque, uma paleta de cores mais equilibrada, mais botões físicos e ainda referências de inspiração retro (Golf I) na instrumentação, para reforçar a ponte com o passado da Volkswagen.

Também o painel de bordo adota uma arquitetura horizontal, com um eixo visual comum entre o painel de instrumentos (10,3″) e o ecrã central de infoentretenimento (12,9″).

No primeiro, destaca-se naturalmente a “vista retro”, com velocímetro clássico à esquerda e um «conta-rotações» à direita - aqui não se contam rotações, mas sim a potência entregue ou recuperada pelo motor elétrico. Pessoalmente, acabei por preferir sempre a vista mais moderna e limpa, porque a retro cansou-me mais por ter demasiado ruído gráfico. Opiniões.

Mais botões são boa decisão

O volante multifunções - com topo e base planos - foi totalmente redesenhado. À esquerda, a área de botões concentra as funções dos assistentes de condução, o cruise control adaptativo (dependendo da versão) e também o volume do áudio. À direita, controlamos o Cockpit Digital e acionamos os comandos por voz. Atrás do volante encontra-se ainda a haste que gere a transmissão.

Os comandos da climatização ficam na zona central do painel de bordo, numa fila de botões físicos; logo abaixo, existe a bandeja para carregamento sem fios (opcional) do telemóvel. E as opções de personalização da iluminação ambiente foram claramente ampliadas.

O novo T-Roc não se importou de “emprestar” as suas manetes das portas ao ID. Cross. E, já que falamos das portas, há outra alteração pequena, mas relevante face a outros ID: existem quatro botões dedicados para os quatro vidros elétricos, abandonando - ainda bem - o sistema de apenas dois botões comutáveis para dianteiros e traseiros.

A bordo, noto uma construção sólida, mas os revestimentos são estruturalmente rígidos, com uma película fina de material suave ou, nalguns casos, com aplicação de tecido.

Compacto, mas com muito espaço

O ID. Cross mede 4,153 m de comprimento, sendo apenas um pouco mais comprido do que o T-Cross (+2,6 cm). A distância entre-eixos cresce 5 cm para 2,601 m, igual à do iminente ID. Polo. Como é típico num elétrico pensado de raiz, isto traduz-se numa habitabilidade maior para os passageiros na segunda fila.

Há espaço para cinco adultos, com os ocupantes traseiros a terem três dedos entre a cabeça e o tejadilho e quatro dedos entre os joelhos e as costas dos bancos dianteiros, considerando 1,80 m de altura. Têm ainda saídas de ventilação diretas ao centro, embora sem regulação de temperatura ou intensidade. O piso plano ajuda a acomodar um quinto passageiro atrás, ainda que o lugar central continue a ser mais estreito.

A bagageira oferece 475 litros, mais 20 litros do que a do T-Cross e quase mais 100 litros do que a do Golf. Por baixo do piso da mala há um alçapão bem profundo que a marca alemã diz estar pronto para receber duas grades de bebidas. Existe ainda uma bagageira dianteira (frunk) com 22 litros, especialmente prática para guardar os cabos de carregamento.

Três motores e duas baterias

Partilha com o ID. Polo a plataforma MEB+, com tração dianteira, distinguindo-se do resto da família ID (tração traseira ou integral). Desde os e-Up e e-Golf que a Volkswagen não combinava propulsão elétrica com tração dianteira.

As semelhanças com o ID. Polo continuam no motor (APP290) e nas baterias de iões de lítio. Mantém os mesmos três patamares de potência - 85 kW (116 cv), 99 kW (135 cv) e 155 kW (211 cv) -, e as mesmas duas capacidades de bateria - 37 kWh (LFP, pela primeira vez na marca alemã) e 52 kWh (NMC). As autonomias em ciclo combinado WLTP, ainda por confirmar, apontam para 316 km a 436 km, respetivamente.

Apesar de terem capacidades diferentes, as baterias ocupam um volume semelhante, já que a química NMC oferece cerca de mais 30% de densidade energética. Assim, consegue-se chegar a potências de carregamento mais elevadas e também a maior eficiência para os motores.

O carregamento em corrente alternada (AC) é de 11 kW em ambos os casos, mas em corrente contínua (DC) pode ir até 90 kW com a bateria menor e 105 kW com a maior.

É um valor bem abaixo do que vemos noutros ID (por exemplo, 145 kW no ID.3), mas Matthias Baehr, responsável pelo desenvolvimento do sistema de propulsão, explica-me que o “foco ficou na continuidade de carga acima dos 100 kW, que assim se mantém entre os 40% e os 72% do estado de carga da mesma”.

Há também novidades importantes no chassis. A escolha pela tração dianteira na MEB+ permitiu instalar atrás um eixo semirrígido de torção, muito compacto (com apoios de borracha nas molas e casquilhos com tecnologia orientada para reduzir de forma significativa vibrações e ruído).

À frente, recorre a um esquema MacPherson, com um sistema pensado para gerir as forças de compressão que atuam sobre o amortecedor, além de montantes mais rígidos na barra estabilizadora.

Quando pergunto a Andreas Rickmann, engenheiro responsável pelo desenvolvimento do chassis, se haverá versões com quatro rodas motrizes, esclarece que “não, porque isso iria implicar desenvolver um eixo traseiro independente, totalmente diferente e não há mercados suficientes - pouco mais do que Suíça, Áustria e as partes mais altas da Alemanha - para justificar esse investimento adicional”.

Em contrapartida, vai existir um autoblocante no eixo dianteiro, para tornar a condução em pisos escorregadios e em estradas mais sinuosas mais segura e eficaz.

Ao volante em Amesterdão

Não é o caso dos arredores de Amesterdão, onde as estradas planas e retilíneas são o cenário ideal para os muitos milhares de ciclistas que aqui pedalam todos os dias.

Conduzi a versão de 211 cv, a mais potente e com as melhores prestações: chega aos 100 km/h em 7,4 s e a velocidade máxima fica-se pelos 160 km/h (150 km/h nas duas motorizações menos potentes).

Comecei por apreciar o tato e a resposta do pedal do travão, melhorados com a construção one box, que torna a utilização mais imediata e progressiva e melhora a transição entre travagem regenerativa e hidráulica.

É positivo ver que agora existem discos de travão nas rodas traseiras, algo de que os primeiros ID prescindiram, uma vez que a regeneração era dominante e o motor elétrico estava sobre o eixo traseiro.

Depois, o comportamento surpreende pela positiva. Destaca-se pelo excelente compromisso entre estabilidade e conforto e, acima de tudo, por transmitir uma leveza rara num elétrico - normalmente sente-se o peso concentrado em baixo, devido à bateria com centenas de quilos. É ótimo para baixar o centro de gravidade, mas nem sempre ajuda à agilidade.

Rickmann explica que “esse foi um dos principais objetivos do desenvolvimento dinâmico, que o ID. Cross se guiasse mais como um Volkswagen com motor de combustão”. A sensação é que a meta foi atingida.

A robustez da carroçaria também merece elogios, mesmo a passar em pisos mais degradados ou em transferências de massas mais exigentes. A direção é suficientemente rápida e comunicativa (2,8 voltas entre batentes), mas não notei diferenças no peso ou na resposta global entre modos de condução, nem sequer nos extremos Eco e Sport. O mesmo se passou com a resposta do acelerador.

A estratégia de regeneração também é nova. Ao colocar a haste da transmissão em B, podemos ter regeneração máxima (one pedal drive, praticamente dispensando o travão) ou optar por uma regeneração mais moderada (via ecrã central). Em D não há regeneração, a menos que se selecione o modo Sport.

A partir de quanto?

O novo Volkswagen ID. Cross chega ao mercado nacional em novembro, com preços a começar ligeiramente abaixo dos 30 mil euros para a versão com bateria de 37 kWh. Quase cinco mil euros acima do ID. Polo de entrada.

Fique a conhecer as especificações:

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