Recordista de autonomia
Num mercado em que quase todas as marcas prometem “a próxima grande revolução” elétrica, a Volvo decidiu jogar com um trunfo menos óbvio: mostrar que ainda sabe fazer engenharia em casa, com identidade própria. O novo EX60 não aparece apenas como mais um SUV elétrico - surge como uma declaração de intenções numa fase em que muitos já colocavam a inovação europeia a reboque da China.
O EX60 é o primeiro modelo a estrear a plataforma SPA3 e, ao contrário do que seria fácil supor, esta base - desenhada desde a origem para elétricos - não foi “importada” do universo Geely. Foi desenvolvida internamente, pelos suecos. Mesmo reconhecendo a liderança chinesa na propulsão elétrica, para a Volvo é um motivo evidente de orgulho ter tido luz verde para assumir esse trabalho.
Desta vez, será a plataforma sueca a servir mais tarde noutros modelos do universo Geely, além de constituir a base de futuros Volvo, pelo menos ao longo da próxima década.
Ainda que, como me diz, com evidente orgulho, Anders Bell, o diretor técnico (CTO), não faça sentido falar hoje em plataforma:
“(…) não lhe posso dizer que será a plataforma de todos os novos automóveis, mas lança os mesmos princípios que esses modelos vão usar, em termos de software, de tensão elétrica, de montagem de baterias diretamente na carroçaria (cell-to-body) e sem módulos, de construção mega casting, etc”.
Anders Bell, o diretor técnico (CTO) da Volvo
O novo Volvo EX60 é o oitavo elétrico da marca (e o quinto SUV) e foi concebido de raiz para o ser. Isso ajuda-o a posicionar-se com força no segmento premium, onde vai medir forças com os iminentes BMW iX3 e Mercedes-Benz GLC EQ, além do Audi Q6 e-tron que já está à venda.
É, por isso, natural que traga um sistema elétrico de 800 V, essencial para elevar a eficiência e, ao mesmo tempo, permitir carregamentos em corrente contínua (DC) a potências muito altas - logo, mais rápidos.
Vão existir três motorizações:
- P6 RWD - bateria de 80 kWh, autonomia de 620 km, um motor traseiro (tração traseira), potência de 275 kW (374 cv);
- P10 AWD - bateria de 91 kWh, autonomia de 660 km, dois motores (um por eixo e tração integral), potência de 375 kW (510 cv);
- P12 AWD - bateria de 112 kWh, autonomia de 810 km, dois motores (tração integral), potência de 500 kW (680 cv).
No caso do EX60 P12, os motores traseiros são PSM (síncrono de íman permanente), de maior rendimento) e os dianteiros ASM (assíncrono, por indução), mais eficientes. E caso se confirme os 810 km de autonomia na homologação final, passará a ser o SUV elétrico com maior autonomia do mundo, ainda que por uma vantagem residual de 5 km para o BMW iX3 50 xDrive, que também já testámos. Isto a partir de consumos que os engenheiros suecos estimam entre 14,7-16,0 kWh/100 km.
Os tempos de carregamento também deverão convencer muitos futuros clientes: todas as versões poderão carregar a 22 kW em corrente alternada (AC) e chegar a 370 kW em corrente contínua (DC) no topo de gama P12 - o que significa 20 minutos para repor a carga de 10% a 80% e, sobretudo, mais 340 km de autonomia em apenas 10 minutos.
São valores muito competitivos e que, na prática, só aparecem nos elétricos mais recentes e avançados do mundo: para comparação, nesses mesmos 10 minutos, o Mercedes-Benz GLC EQ anuncia 303 km extra de autonomia e o BMW iX3 anuncia 372 km.
Importante evolução no interior
Por fora, mantêm-se sinais bem reconhecíveis nos SUV da Volvo, como os faróis dianteiros com a assinatura Thor, mas agora com uma frente sem grelha e com as óticas verticais traseiras desencontradas entre a parte superior e a inferior.
No interior repete-se essa mistura de tradição com modernidade. O habitáculo do Volvo EX60 junta tecidos, zonas em pele sintética ou natural e madeira, dentro de um conceito claramente escandinavo - e claramente Volvo.
Tanto a sensação de construção robusta como os materiais de toque suave não surpreendem, mas há mudanças importantes, desde logo a posição mais recuada da instrumentação (a fazer lembrar monovolumes), que convida o condutor a ler a informação por cima - e não através - do volante.
Ecrã passa a horizontal
Outra novidade é o ecrã central de infoentretenimento, de 15,4”, agora colocado na horizontal, quando na Volvo o habitual é o formato vertical. Há também um novo software, com grafismos e uma lógica de menus diferente, sempre dentro do ecossistema Google. A Volvo foi das primeiras marcas automóveis a adotá-lo à escala global.
O EX60 estreia também um cinto de segurança que se adapta à compleição física do seu utilizador e ao tipo de impacto que ocorre, ajustando-se da forma mais adequada.
Destaca-se o espaço generoso entre os bancos dianteiros. Inclui uma zona onde pode ser colocada uma mala e um módulo central de arrumação com vários compartimentos e bastante versatilidade, onde se encontram ainda duas bandejas para carregamento sem fios de telemóveis.
Neste interior, de cinco lugares, realça-se também o grande espaço para os passageiros na segunda fila, sobretudo em comprimento e altura - um passageiro com 1,9 m de altura viaja sem se despentear. Resultado, igualmente, da distância entre eixos aumentada em 10,5 cm face ao XC60.
De co-piloto em Hällered
No circuito de testes da Volvo em Hällered, a cerca de 60 km de Gotemburgo, na Suécia, tivemos oportunidade de andar a bordo do EX60 P10, a versão intermédia com impressionantes 375 kW (510 cv) e 710 Nm. Era também o EX60 «normal» e não o Cross Country (mais vocacionado para fora do asfalto), que apenas chegará no final do ano.
As acelerações são imediatas, o que não espanta tendo em conta os 710 Nm de binário disponíveis nos dois eixos, e os 0 a 100 km/h em apenas 4,6s parecem perfeitamente credíveis. Mesmo com a velocidade máxima limitada a 180 km/h.
A suspensão dianteira é de duplos triângulos sobrepostos, a traseira também independente, mas multibraços (cinco). A versão de entrada (P6) tem suspensão metálica, enquanto existem molas pneumáticas em opção para o P10, que já conta com amortecedores eletrónicos variáveis. O P12 tem amortecedores variáveis e suspensão pneumática de série.
No caso da suspensão metálica são usados amortecedores de frequência seletiva (FSD), que ajustam automaticamente a força de amortecimento em função da frequência de vibração, garantindo um bom compromisso entre conforto e estabilidade, mas sem assistência eletrónica.
Dinâmica deixa ótimas indicações
A Volvo ainda não nos deixou conduzir o novo EX60, mas, como co-piloto, deu para recolher sensações interessantes nas pistas de testes da marca sueca - uma mais sinuosa e outra com piso mais irregular.
No primeiro cenário, confirmou-se um equilíbrio bem afinado entre conforto e estabilidade, com o EX60 a dar a sensação de se comportar como um carro bem mais baixo do que os 1,64 m de altura indicados na ficha técnica.
As 2,3 toneladas de peso também ficam bem disfarçadas, graças à repartição equilibrada de massas entre frente e traseira (quase equitativa) e à eficácia dinâmica. Mostra pouca tendência para perder motricidade, mesmo quando o piloto de testes exagerava um pouco na velocidade de entrada em curva.
No segundo cenário, a capacidade de amortecimento variável convenceu tanto nas pequenas irregularidades como nas elevações maiores do circuito, e não se ouviram ruídos estruturais nas fortes transferências de massas nem nas acelerações feitas em forte apoio.
Quanto à direção ou à resposta da travagem, ainda não é possível fazer comentários, tal como sobre a atuação dos quatro níveis de desaceleração regenerativa (de zero a One pedal). Mas, para os selecionar, terá de ser no ecrã central, já que não há patilhas no volante para os gerir.
Quanto vai custar?
Em Portugal, o novo Volvo EX60 chega a partir do final do verão com um preço de entrada de 67 906 euros para o P6. É um valor que merece atenção: esta versão fica entre 7000 euros e 10 000 euros abaixo da concorrência direta alemã. Foi uma decisão estratégica evidente para um modelo que tem de assumir um papel central na gama da marca sueca, tal como já acontece com o XC60 a combustão e híbrido:
As encomendas já abriram e estão a superar todas as expectativas. Pela primeira vez nos seus 99 anos de existência, a Volvo pondera cancelar uma das semanas de paragem de verão na produção na fábrica de Torslanda (próxima de Gotemburgo), dado que a lista de espera para entrega do modelo supera já os oito meses. Nalgumas versões chega aos 17 meses.
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