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Quando o cão esfrega a boca: sinais de parodontite e dor dentária

Pessoa a escovar os dentes de um cão dourado dentro de casa, com escova e pasta na mesa.

Por mais ternurento que pareça, a causa por trás pode ser bem séria.

Muitos tutores encaram o esfregar frenético da boca do cão como uma mania engraçada - perfeita para o próximo vídeo no telemóvel. Só que, na prática, isto muitas vezes não tem nada de cómico: pode ser dor intensa na zona da boca. Ignorar este sinal aumenta o risco de uma doença dentária silenciosa acabar por afetar todo o organismo do animal.

Porque é que os cães esfregam tantas vezes a boca

Os cães não usam as patas apenas para coçar a orelha ou tentar alcançar um biscoito. Quando um animal passa repetidamente as duas patas da frente sobre o focinho e a boca, ou quando “esfrega” a cara na relva, no tapete ou no sofá, quase sempre está a tentar chegar a um ponto que o incomoda muito ou que lhe dói.

Há tutores que interpretam isto como um gesto brincalhão ou uma espécie de “limpeza de primavera”. Na realidade, a origem costuma ser outra: um problema doloroso na boca, a que o cão não consegue aceder sem ajuda.

Por trás de um aparente esfregar inofensivo da boca, muitas vezes há um pedido de ajuda - e não uma mania engraçada.

A irritação pode vir de várias zonas: dentes, gengivas, palato, língua ou até de corpos estranhos presos entre os dentes ou encravados na gengiva. No entanto, a causa mais frequente é uma doença muito comum, mas muitas vezes subvalorizada nos animais de companhia: a parodontite.

Parodontite: a doença comum subestimada no cão

A parodontite, muitas vezes chamada “inflamação do periodonto”, é considerada uma das doenças mais frequentes em cães adultos. Especialistas estimam que a maioria dos animais, a partir de cerca de três anos, seja afetada em diferentes graus.

Como a placa bacteriana se transforma numa inflamação grave

O processo parece simples, mas é traiçoeiro:

  • Depois de cada refeição, restos de comida e bactérias depositam-se nos dentes sob a forma de placa bacteriana.
  • Se essa camada não for removida regularmente de forma mecânica, endurece e transforma-se em tártaro.
  • As bactérias instalam-se no tártaro e avançam para o espaço entre o dente e a gengiva.
  • Aí, atacam as estruturas de suporte que fixam o dente ao maxilar.

No início, tudo decorre sem sinais evidentes. O cão continua a comer aparentemente bem, brinca e parece estar em forma. Entretanto, em segundo plano, as bactérias vão destruindo, pouco a pouco, o aparelho de sustentação do dente. A certa altura, o quadro muda: a gengiva inflama com dor, os dentes começam a abanar e o osso do maxilar pode ficar danificado.

Porque é tão típico esfregar a boca com as patas

Quando há dor forte na boca, o cão tenta “raspar” a origem dessa dor de alguma forma. Com as patas, ele massaja ou bate no focinho e na boca; ou então pressiona a cara contra tapetes, relva ou móveis. À primeira vista, pode parecer apenas agitação - mas, na verdade, é uma tentativa desesperada de aliviar a pressão e a irritação.

Quando um cão esfrega repetidamente o focinho, para ele é como ter um espinho na boca - só que não consegue livrar-se dele sozinho.

Cinco sinais claros: como o seu cão mostra dor dentária em silêncio

Reparar apenas no esfregar não chega. É a combinação com outros sintomas que torna o quadro mais evidente. Conhecendo estes cinco pontos, é muitas vezes possível detetar problemas dentários bem mais cedo.

1. Mau hálito persistente

Um ligeiro odor próprio da boca é normal nos cães. A situação torna-se preocupante quando surge um cheiro rançoso, a podre ou com nota metálica, capaz de se espalhar pela divisão. Nesses casos, há normalmente uma grande proliferação bacteriana na boca - um sinal muito forte de inflamação e de tártaro.

2. Bordos das gengivas vermelhos, inchados ou a sangrar

Se levantar as beiças do cão com cuidado, consegue fazer uma verificação rápida. São sinais de alerta:

  • gengiva que não está rosada, mas visivelmente avermelhada,
  • inchaço à volta de determinados dentes,
  • vestígios de sangue no brinquedo, no osso ou na taça de água.

Estas alterações apontam para uma inflamação na zona dentária que já não desaparece por si.

3. Dificuldade em mastigar

Muitos cães afetados não deixam de comer de um dia para o outro. Os sinais costumam ser mais subtis:

  • o cão demora mais tempo a terminar a refeição;
  • mastiga de forma claramente unilateral;
  • separa pedaços duros ou deixa a ração seca no prato;
  • engole a comida inteira, em vez de mastigar.

Este padrão indica que o cão está a tentar evitar contactos dolorosos dentro da boca.

4. Perda de dentes sem explicação

Se, de repente, faltarem dentes sem ter havido um acidente, a causa é quase sempre uma doença crónica do periodonto. O dente vai ficando progressivamente solto e, depois, parece cair “do nada”. Para o animal, isso é doloroso e pode limitar a mastigação de forma permanente.

5. Esfregar recorrente da boca com as patas

O comportamento descrito no início é, claramente, um sinal de alerta - sobretudo quando:

  • o esfregar surge de novo,
  • acontece muito mais vezes do que antes,
  • aparece em conjunto com mau hálito ou dificuldades a mastigar.

Quem mantém estes cinco pontos sob observação reconhece problemas dentários muito antes de o dia a dia do cão ficar totalmente dominado pela dor.

O que o veterinário tem de fazer: check-up dentário profissional em vez de um snack para roer

Assim que vários destes sinais aparecem, não há alternativa a uma avaliação veterinária. Remédios caseiros, snacks de higiene oral ou pós colocados na água podem reduzir sujidade ligeira, mas perante uma parodontite verdadeira têm limites muito claros.

Destartarização sob anestesia: porque é necessário

Uma limpeza dentária profissional no veterinário não funciona como uma visita rápida ao dentista humano. Para permitir um trabalho realmente completo, o animal, na maioria das vezes, tem de ser anestesiado. Só assim é possível:

  • remover tártaro acima e abaixo da linha da gengiva,
  • avaliar cada dente individualmente, incluindo os do fundo da boca,
  • extrair dentes soltos, se necessário,
  • apreciar o estado do osso do maxilar.

Os custos variam consoante a região, a clínica, o tamanho do cão e o nível de intervenção necessário. Muitas vezes situam-se na ordem das centenas de euros. Quem tiver um seguro de saúde animal com cobertura dentária pode conseguir o reembolso de parte do valor.

O que fazer depois do tratamento

Depois de uma intervenção completa, muitos tutores respiram de alívio - e assumem que o assunto ficou resolvido. Sem bons cuidados posteriores, porém, o tártaro regressa rapidamente. Entre as medidas úteis contam-se:

  • controlos dentários regulares no veterinário,
  • escovagem diária, ou pelo menos frequente, com pasta dentífrica própria para cães,
  • snacks de roer adequados, que façam limpeza mecânica,
  • alimentação ajustada, que não seja demasiado aderente.

O verdadeiro desafio começa depois da limpeza: só uma higiene consistente impede que o cão volte a sofrer dentro de poucos meses.

Como os tutores podem detetar cedo problemas dentários

Muitas pessoas passam anos sem quase nunca olhar para dentro da boca do cão. No entanto, bastam rotinas simples para identificar problemas a tempo:

  • Uma vez por semana, levantar as beiças por momentos e observar os dentes.
  • Durante as festas, reparar se o cão esfrega a cabeça de forma invulgar.
  • À hora da refeição, observar se o cão hesita ou muda de lado a mastigar.
  • Notar conscientemente o odor da boca, em vez de o ignorar.

Quando o cão é habituado desde pequeno, com calma, a estas inspeções, poupa-se muito stress mais tarde na clínica. Muitos animais aceitam bem que se levantem as beiças, sobretudo se isso estiver associado a elogios e a um biscoito.

Como as doenças dentárias sobrecarregam todo o corpo

Uma parodontite grave não fica limitada à boca. As bactérias que se multiplicam no foco inflamatório podem passar para a corrente sanguínea e alcançar outros órgãos. Com o tempo, aumenta o risco de problemas cardíacos, lesões renais ou doenças do fígado. Além disso, a dor crónica na boca pode levar o cão a comer menos, perder peso e, no geral, perder qualidade de vida.

Por isso, levar a sério o esfregar precoce da boca como sinal de aviso protege não só os dentes, mas a saúde global do animal. Neste contexto, um check-up rápido no veterinário é muitas vezes a opção mais económica e mais suave quando comparada com tratamentos tardios de complicações.

No fim, a regra é simples: mais vale mandar observar a boca um pouco cedo do que tarde demais, quando o cão já passou meses a sofrer em silêncio. Aquilo que parece uma brincadeira “fofa” com as patas no focinho é, muitas vezes, o primeiro pedido de ajuda.


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