Moradores e comerciantes de Leça da Palmeira dizem recear uma “muralha de contentores” caso avance o projeto de um novo terminal.
Com o olhar preso ao mar de Leça, que o acompanhou desde pequeno, e ao molhe norte do Porto de Leixões - onde ainda se mantém o histórico guindaste Titan, símbolo da construção daquela obra - Óscar Oliveira afirma não conseguir compreender como é que, naquele lugar, se poderá levantar “uma muralha de contentores” e, ao mesmo tempo, fazer desaparecer a marina de recreio para permitir o aumento da infraestrutura portuária.
Impacto na praia e na marginal de Leça da Palmeira
A proposta tem gerado contestação em Leça da Palmeira, no concelho de Matosinhos. Muitos residentes temem uma perda evidente de qualidade de vida, com a praia a ficar ensombrada pelo empilhamento de contentores - um efeito de parede que, além disso, alterará o horizonte de quem vive junto à marginal. Também os utilizadores da Marina Porto Atlântico têm assumido uma oposição firme ao plano da APDL - Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo.
Lançada em meados de fevereiro, a petição “Ampliação do Porto de Leixões: querem emparedar Leça!” reúne quase duas mil assinaturas contra um projeto que descreve como sendo “um novo porto, para um milhão de contentores, em cima da praia e das casas”.
“Respeitar raízes”
Perto do paredão do porto, construído no final do século XIX, o Bar do Óscar mantém-se de portas abertas há décadas. Porém, se a construção do novo Terminal Norte - previsto no Plano Estratégico do Porto de Leixões 2025-2035 - avançar, o espaço arrisca-se a passar a oferecer aos clientes uma vista direta para uma parede de contentores.
Com amplas janelas viradas a sul e a poente, esplanada e uma panorâmica que se estende do molhe ao mar no horizonte, o bar de praia que Óscar foi desenvolvendo ao longo de quase 40 anos será um dos primeiros a sentir o efeito do futuro terminal de contentores. Esse terminal ocupará ainda a atual marina de recreio, cuja área está prevista ser totalmente aterrada.
"O Porto de Leixões tem de crescer, mas é preciso ter regras e medidas. Antes de Leixões ser porto, já Leça da Palmeira existia", afirmou Óscar Oliveira.
Na leitura do proprietário, a intervenção significará colocar “um quilómetro de contentores” naquele local, e a presença constante dessas pilhas - que não se ficarão pela altura dos edifícios existentes há muitos anos - acabará por degradar a praia de Leça. Para Óscar, não faz sentido sacrificar as vistas e “todo este cenário”, ainda por cima com habitações tão próximas: para quem vive ali, “vir à janela e ver um navio a carregar ou a descarregar” é uma coisa; mas “vir à janela e ver sempre contentores” é, diz, “outra muito diferente”.
Tiago Oliveira, filho de Óscar e também ele criado na praia, sustenta que o crescimento deve existir, mas sem perder a ligação à identidade local. “É preciso crescer, mas também saber respeitar as raízes da cidade. E isto é desrespeitar Leça. Imagine o que é empilhar cinco contentores; vai ficar uma muralha e virar monumento - a muralha de contentores de Leça”, ironiza.
Hélder Santos, leceiro assumido, diz-se “contra” a expansão da APDL e chama a atenção para um problema adicional: “É o barulho que vem para aqui. Já o temos, mas vai ser para ter mais”, antecipa, lembrando que “há navios que ficam a trabalhar um fim de semana inteiro, e fazem muito barulho”.
O morador, que também é herdeiro da Barbearia Santos - fundada “há quase cem anos” pelo avô, na antiga Rua do Castelo, e hoje entre os negócios que ainda resistem na Leça antiga - lamenta: “E querem tapar-nos isto tudo”. Considera ainda que, com a saída da marina e das escolas de vela, quem vive do comércio local ficará com muito pouco. Na sua perspetiva, “não são os contentores que nos trazem alguma coisa” e não serão os habitantes “nascidos e criados aqui” a beneficiar. Evoca o exemplo do terminal de cruzeiros em Matosinhos: os navios atracam, mas os passageiros seguem “de camioneta para outros lados”, o que “não traz nada para cá”. Conclui que a zona “está a ficar um entreposto”.
“Existem alternativas”
Para Tiago Oliveira, é difícil encontrar em Leça alguém que considere o plano da APDL “uma boa solução”. Ainda assim, insiste que “existem alternativas, se lhes interessar”. Óscar aponta, como exemplo, “o descampado que [a APDL] tem em S. Gens”. Maria Carvalho, residente na zona antiga, concorda que há “tantos espaços para explorar”, admitindo: “Mas, se calhar, não lhes dá jeito...”.
"Não concordo; isto não tem jeito nenhum e não vai ficar bonito. Pode ser feito noutras zonas, mas o dinheiro tem poder sobre tudo o resto", afirma Maria Carvalho.
Tiago defende que Leça está cada vez mais “saturada” e que parece haver uma tentativa de concentrar ali “tudo... à força”, algo que, diz, não é viável porque “não há espaço”. Aponta também o que está a acontecer na Amorosa, em frente à Exponor, com a “construção de torres” para habitação. Óscar, que diz conhecer Leça “como a palma das mãos”, prevê consequências na mobilidade: “Isto vai entupir tudo, e qualquer dia não se consegue sair daqui nem pela A28 nem pela A41”.
Hélder Santos refere que muitos ficaram à espera para perceber o rumo do projeto da APDL, mas que o processo avançou “mais rápido do que pensávamos”. Considera possível que “já está decidido e que não há volta a dar”, mas entende que deveria haver consulta pública, porque “ainda temos alguns direitos...”. Defende, por isso, que a população se una e “faça mais barulho”.
Marina Porto Atlântico e contestação judicial
Os utilizadores da marina de Leça da Palmeira admitem avançar com uma ação em tribunal para tentar travar o projeto da APDL, por entenderem que este viola diversas normas, incluindo as de “segurança portuária e de navegação”.
José Barbosa, representante dos utilizadores da Marina Porto Atlântico, afirma que o futuro terminal de contentores terá “um impacto tenebroso sobre Leça da Palmeira, porque vai delapidar completamente o património existente: a 500 metros está a Piscina das Marés, que é considerada uma das mais bonitas do Mundo, e depois a Casa de Chá”. Barbosa recorda que se trata de duas obras do arquiteto Siza Vieira, classificadas como Monumento Nacional desde 2011. E questiona: “Imagine o que é estar na piscina e ver os contentores e os pórticos de movimentação, que têm cem metros de altura”. Defende ainda que “aterrar o porto é destruir uma obra única da engenharia do século XIX”.
No final de março, a presidente da Câmara de Matosinhos, Luísa Salgueiro, já tinha alertado que a autarquia “recorrerá às vias judiciais” caso a APDL avance com a ampliação do Porto de Leixões sem salvaguardar os impactos negativos no território.
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