O que restou da quinta em Fiais da Beira
Da casa de madeira que a família de Tom Graeve tinha numa quinta em Fiais da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital, não sobrou nada. "Tudo desapareceu. Não ficou lá nada. Até os cavalos morreram", conta o homem, para quem o fogo de outubro de 2017 levou muito mais do que a habitação.
A partir dessa noite, a família não aguentou a pressão e acabou por se separar. Tom viria ainda a enfrentar problemas de saúde que, na sua perspetiva, foram fortemente agravados pelo stress associado a tudo o que aconteceu.
A noite do incêndio e o impacto imediato
Tom descreve o que viveu como "uma coisa horrível, uma cena de guerra, 25 anos de trabalho que desapareceram numa noite". Naquele momento, a filha tinha 11 anos e ele recorda-se de a ter "numa mão, a mulher noutra".
Apesar do choque, teve de continuar a "andar" para garantir trabalho e juntar dinheiro para as despesas. "Felizmente, amigos e os meus pais ajudaram muito", lembra, em declarações ao JN.
Uma autocaravana como teto e trabalho pelo país
Entretanto, a mulher e a filha seguiram para o Sul do país. Tom, que trabalha como ferrador, decidiu comprar uma autocaravana para servir de teto - uma escolha que considerou "conveniente", por lhe dar maior mobilidade, já que exerce a profissão em diferentes pontos do país.
O que antes era rotina - voltar a casa - deixou de existir: já não tem um lar para onde regressar.
Apoios, burocracia e a reconstrução que nunca avançou
Depois de as chamas consumirem a habitação, Tom avançou com a documentação necessária para solicitar apoio, até porque não tinha meios para reconstruir, sozinho, a quinta onde aplicara tudo o que ganhara nos últimos anos.
A candidatura, diz, chegou a ser aceite numa fase inicial, mas mais tarde "um vizinho reclamou" e o processo ficou suspenso. Uma decisão judicial veio alterar esse cenário e a habitação chegou mesmo a entrar em concurso. Ainda assim, a obra não seguiu: "Um dia apareceu lá um empreiteiro com material, como areia e brita, para reconstruir, mas depois desapareceu".
Stress, doença e a tentativa de seguir em frente
A espera prolongou-se. "Fiquei anos à espera, com esperança. Apanhei um cancro por causa do stress. Era a nossa casa de habitação e, de um momento para o outro, tudo desapareceu. A vida tem sido muito complicada desde aí", desabafa.
A desilusão acabou por se somar ao desgaste emocional: "Fiquei muito desiludido, foi muito stress de estar zangado e triste. Totalmente desiludido. Trabalhar, trabalhar... para ver tudo a arder". Avançar foi, nas suas palavras, um processo duro, feito a muito custo, para conseguir "andar para a frente".
Ainda assim, diz que teve de "aceitar a situação, para não estragar mais a saúde".
O regresso ao Centro e a dor de voltar ao terreno
Apesar de a vida ter continuado, Tom insiste que "foi muito, muito complicado". E aponta também o impacto noutras pessoas da região: "Os meus colegas que perderam também, já saíram de Portugal, porque arde, arde, arde... Tenho amigos que perderam a casa duas vezes, é incrível".
Hoje, trabalha por todo o país e, ocasionalmente, volta ao Centro. Quando isso acontece, evita parar a autocaravana no próprio terreno. "Dói-me muito no coração, não consigo lá estar".
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