Uma investigação de grande escala, citada esta quarta-feira pela BBC, conclui que 11 tipos de cancro se estão a tornar mais frequentes entre os jovens em Inglaterra. Apesar de ainda não haver uma explicação definitiva para esta subida, o estudo indica que o aumento do excesso de peso observado na população ao longo de décadas pode estar a contribuir para esta evolução, embora “esteja longe de ser a única explicação”.
A subida de diagnósticos de cancro em pessoas no fim da adolescência e nas idades dos 20, 30 e 40 anos tem vindo, há muito, a levantar questões na comunidade científica. No trabalho referido pela BBC, investigadores do Instituto de Investigação do Cancro e do Imperial College London salientam, ainda assim, que estes casos continuam a ser pouco comuns e que o risco pode ser reduzido através da adoção de hábitos de vida saudáveis.
Cancro em jovens adultos em Inglaterra: 11 tipos em alta
No artigo, os cientistas descrevem assim o padrão observado: "Onze tipos de cancro (três específicos do sexo feminino) com riscos acrescidos devido a fatores comportamentais, mostraram um aumento de incidência nos jovens adultos. Tendências semelhantes foram observadas em adultos mais velhos, exceto no cancro colo-retal e ovariano, que só subiram nos mais jovens. Em alguns tipos de cancro a incidência subiu mais rapidamente nos jovens do que nos mais velhos", escrevem os cientistas. que, olhando para todos os fatores de risco ambientais, apenas detetaram uma diferença. "Todos os fatores de risco exceto a obesidade mostraram estar estáveis ou a descer. No caso dos cancros em que o Índice de Massa Corporal (IMC) é um fator de risco, a incidência subiu, houvesse ou não uma relação direta com o IMC."
Ainda assim, as inferências retiradas do trabalho são limitadas. "Os fatores comportamentais são responsáveis por uma parte substancial dos casos de cancro mas, tirando o IMC, dificilmente explicarão o aumento da incidência nos jovens adultos. Este estudo sublinha a necessidade urgente de investigar fatores de risco emergentes, ao mesmo tempo que devem ser feitos mais esforços para prevenir" a doença em todas as idades.
Segundo a BBC, a equipa procurou padrões ao cruzar tendências no Reino Unido “tanto em relação ao cancro como aos estilos de vida, para ver se conseguia identificar algum padrão”, tendo verificado que, “para além do cancro do intestino, os cancros da tiróide, do mieloma múltiplo, do fígado, do rim, da vesícula biliar, do pâncreas, do revestimento do útero (ou endométrio), da boca, da mama e do ovário estavam a aumentar”.
O texto nota ainda: “Os cancros do intestino e da mama são os mais comuns em adultos mais jovens, com um total de 11.500 casos por ano, enquanto os cancros do pâncreas e da vesícula biliar são muito mais raros” e acrescenta que “apenas os cancros do intestino e do ovário estavam a aumentar exclusivamente nos jovens, com os outros nove a aumentarem também nos adultos mais velhos”.
O caso de Bradley Coombes e os sinais ignorados
Entre os exemplos referidos pela BBC está o de Bradley Coombes, natural de Portsmouth. Tinha 23 anos quando morreu com cancro do intestino e, segundo a mãe, Caroline Mousdale, apesar de apresentar diversos sinais de alerta compatíveis com a doença, foi repetidamente desvalorizado por ser considerado demasiado jovem para aquele diagnóstico. A mãe sublinha também que o filho não tinha excesso de peso.
De acordo com Caroline Mousdale, tratava-se de “um jovem em forma e saudável”, que estava prestes a assinar um contrato para jogar futebol semi-profissional e frequentava o primeiro ano da universidade. Ainda assim, começou a emagrecer de forma marcada e a queixar-se de dores abdominais; mais tarde, surgiram diarreia e sangue nas fezes.
Os sintomas prolongaram-se durante 18 meses até ser estabelecido o diagnóstico. Quando finalmente realizou uma colonoscopia, a cirurgia e a quimioterapia não conseguiram travar a progressão do tumor, e Bradley acabou por faleceu.
Uma "resposta imperfeita"
O estudo debruçou-se também sobre tendências de comportamentos há muito associados ao risco oncológico. No entanto, concluiu que, no Reino Unido, o tabagismo, os níveis de atividade física, o consumo de álcool e de carne vermelha e processada, bem como padrões alimentares pobres em fibras, estavam a melhorar ou, pelo menos, a manter-se estáveis.
Embora estes fatores possam contribuir para o aparecimento de cancro, não esclarecem por si só a razão da subida observada. O relatório aponta que o único indicador que acompanhava o aumento de casos era a evolução do excesso de peso e da obesidade, que tem vindo a crescer desde a década de 1990.
Sobre o possível mecanismo, a BBC refere: “Pensa-se que o tecido adiposo em excesso altere as hormonas no organismo, como a insulina, o que pode afetar o risco de cancro”, mas sublinha que “mesmo esta é uma resposta imperfeita”. Como ilustração, é citado o cancro do cólon: os investigadores estimam que, em cada 100 casos adicionais, 20 possam ser atribuídos ao excesso de peso, permanecendo 80 por explicar.
Os autores estimam ainda que quase 40% dos cancros a nível mundial poderão ser evitados através de escolhas relacionadas com o estilo de vida, como não fumar. “É muito preocupante saber que os casos de cancro estão a aumentar entre os jovens”, afirmou à BBC Montserrat García Closas, do Instituto de Investigação do Cancro, acrescentando que “há medidas que podem ser tomadas para reduzir o risco através de um estilo de vida saudável - por exemplo, praticar atividade física e manter um peso saudável”.
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