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Ecolocalização humana: o que o EEG revela sobre o cérebro humano

Homem com dispositivo EEG na cabeça, sentado e a comunicar passando a língua, em laboratório de neurociência.

A ecolocalização não é um talento exclusivo de golfinhos ou morcegos. Por mais surpreendente que pareça, as pessoas também conseguem, de certa forma, “ver com o som” - e, para muitos, é uma capacidade relativamente fácil de começar a aprender.

Outra questão bem diferente é atingir um nível de excelência.

Os melhores praticantes de ecolocalização conseguem usar estalidos feitos com a boca ou as batidas da bengala para formar um mapa mental extraordinariamente preciso do que os rodeia, mesmo quando não há visão.

A partir do som, conseguem extrair informação que vai muito além de saber onde estão os objetos: a posição, o tamanho, a distância, a forma e até o material podem ficar implícitos nos ecos.

Como funciona a ecolocalização humana

Um novo experimento veio agora oferecer o primeiro “relato detalhado” de como o cérebro humano consegue realizar esta tarefa.

De acordo com os resultados, a cada eco que regressa, o sistema nervoso central vai construindo e afinando, passo a passo, a representação do espaço envolvente, aproximando-se progressivamente dos pormenores.

Isto é, o cérebro não se guia por um único eco para perceber e navegar num ambiente, mas sim por uma espécie de sinfonia de sons de retorno. Além disso, outros trabalhos já indicaram que, para decifrar estas pistas, o cérebro recorre tanto a vias visuais como a vias auditivas.

O experimento com EEG no Smith-Kettlewell Eye Research Institute

O estudo foi realizado por neurocientistas do Smith-Kettlewell Eye Research Institute, uma organização sem fins lucrativos de investigação em São Francisco, Califórnia. Os autores compararam 4 especialistas em ecolocalização com 21 participantes videntes sem qualquer experiência prévia em ecolocalização.

Em cada sessão, os participantes colocaram toucas de EEG para registar a atividade cerebral. Depois, numa sala escura, ouviram sequências de até 11 sons de estalidos sintéticos. Esses sons eram seguidos por ecos falsos, concebidos para imitar o ruído a refletir num objeto virtual presente na sala.

Com base nos ecos, os participantes tinham de decidir se esse objeto virtual se encontrava à esquerda ou à direita.

Resultados: desempenho, cegueira precoce e ângulo ideal

Tal como os investigadores previam, os especialistas em ecolocalização foram claramente superiores a identificar onde estava o objeto virtual à sua frente, ficando sempre acima do que seria esperado por mero acaso.

Já os participantes videntes não acertaram melhor do que ao acaso, com respostas em torno de 50 percent.

Mesmo assim, foram os três especialistas que tinham ficado cegos mais cedo na vida que se destacaram de forma mais marcada. Estes três participantes acertaram a localização do objeto virtual em mais de 70 percent das tentativas, mesmo depois de ouvirem apenas alguns estalidos.

No conjunto, os resultados sugerem que a cegueira precoce pode promover uma sensibilidade mais apurada ao som. Curiosamente, quando o objeto virtual estava mais deslocado para a direita ou para a esquerda, eram necessários menos estalidos para o localizar. O ângulo mais favorável para o cérebro humano situou-se perto de 45 graus em relação à linha média.

Os autores observaram ainda que cada som de retorno ativava as redes espaciais do cérebro mais depressa do que o anterior. Isto pode refletir a forma como a informação sensorial é extraída rapidamente, integrada e refinada até formar uma representação coerente.

O estudo tem uma amostra reduzida, mas encaixa em evidência mais ampla que aponta para que, quando a visão falta, o cérebro possa ficar mais atento a pistas acústicas espaciais.

Em dois especialistas com cegueira de início precoce, registou-se uma “melhoria acentuada” entre o sétimo e o oitavo estalidos.

Isto indica que o seu “sistema percetivo integra eficazmente as características ecoacústicas ao longo do tempo e depois estabiliza ou satura quando se atinge o desempenho máximo”.

O trabalho está entre os primeiros a usar registos de EEG para analisar como o cérebro humano processa informação de ecolocalização de estalido para estalido. Embora sejam necessários mais estudos para compreender melhor esta competência, o experimento “mostra a notável flexibilidade dos sistemas percetivos do cérebro na ausência de visão”.

A plasticidade do cérebro não deve ser subestimada.

O estudo foi publicado na eNeuro.

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