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Estudo novo aponta para uma plataforma continental de um oceano antigo em Marte

Astronauta observa deserto marciano com projeções holográficas azuis através de janela de base científica.

Um estudo recente conclui que Marte ainda guarda uma faixa extensa, semelhante a uma prateleira, onde um oceano antigo terá encontrado terra firme.

A descoberta reforça a hipótese de que a água chegou a cobrir cerca de um terço do planeta e ajuda a perceber porque é que os mapas anteriores de linhas de costa nunca coincidiam totalmente.

Costa marciana escondida

Nas planícies baixas do hemisfério norte, o relevo apresenta um cinturão invulgarmente amplo de terreno plano, situado muito abaixo do nível de referência de Marte.

Ao seguir essa faixa à escala global, Abdallah S. Zaki, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), associou-a ao tipo de margem costeira que os oceanos deixam na Terra.

Em vez de um limite nítido e estreito, a costa antiga parece ter persistido como uma zona larga, construída e remodelada ao longo de períodos muito prolongados.

Esta assinatura mais ampla torna o cenário do oceano mais consistente, mas também levanta a questão de por que motivo os investigadores se centraram, durante tanto tempo, em procurar uma linha de costa única.

Pistas em falta nas antigas linhas de costa

Os primeiros mapas tentavam seguir vestígios de uma linha de costa que, em princípio, deveria manter-se à mesma altitude, mas alguns desses traçados desviavam-se vários quilómetros de região para região.

Cargas vulcânicas posteriores, inclinações do planeta, impactos e a erosão podem deformar ou apagar qualquer borda estreita deixada por águas antigas.

Já um mar que perdure muito tempo consegue produzir algo mais abrangente: uma zona costeira repetidamente formada e reformada por sedimentos, ondas e oscilações do nível da água.

Um alvo mais largo explica por que uma única linha se revelou tão difícil de fixar e como uma zona costeira extensa poderia sobreviver mesmo depois de o oceano desaparecer.

A Terra como modelo

Na Terra, a plataforma continental - a borda submersa e ampla de um continente - assinala a transição real entre terra e mar.

Aí, os rios abrandam e depositam sedimentos, enquanto a agitação das ondas alisa o fundo e redistribui material ao longo de uma superfície ampla e suavemente inclinada.

A maior parte das plataformas situa-se entre 15 e 410 metros abaixo do nível do mar, e essa faixa tende a minimizar a curvatura, isto é, uma medida de quanto o terreno se dobra.

Este conjunto de características deu à procura em Marte um padrão concreto, uma vez que deltas e plataformas resistem melhor ao tempo do que fragmentos frágeis de uma linha de costa.

A candidata a plataforma continental de Marte

Os dados marcianos revelaram duas zonas extensas e relativamente planas, mas só a mais elevada coincidia com antigas desembocaduras de rios, deltas e linhas de costa propostas.

A faixa favorecida encontra-se a cerca de 1,8 a 3,9 quilómetros abaixo da superfície de referência e acompanha a transição entre as terras altas e as terras baixas.

Quando a equipa ajustou o método com base na Terra, os parâmetros usados permitiram recuperar 69–71% da plataforma continental terrestre.

Aplicada a Marte, a mesma abordagem delimitou 10,1 milhões de quilómetros quadrados de possível plataforma costeira, o que corresponde a cerca de 7% do planeta.

Como se formam as plataformas

Em qualquer mundo com água livre, os rios alimentam a margem, criando planícies baixas que, mais tarde, se estendem para o mar através de águas pouco profundas.

Depois, as ondas desgastam as elevações e, com a subida e descida do nível do mar, novas camadas de sedimentos acumulam-se repetidamente ao longo do mesmo corredor amplo.

Em Marte, este processo poderá ter ocorrido durante milhões de anos, mesmo sem a dinâmica de placas móveis da Terra, porque a deposição e a erosão também actuam no planeta.

Assim, a plataforma resultante guardaria muitos momentos de diferentes linhas de costa em simultâneo, em vez de conservar um único nível de água perfeito.

Indícios nas rochas

A topografia não foi o único sinal: a mesma faixa já concentrava deltas fluviais, depósitos costeiros e rochas espessas e estratificadas.

Perto de Utopia Planitia, no norte de Marte, o rover Zhurong da China identificou entre 10 e 35 metros de sedimentos inclinados na direcção do mar, tal como camadas costeiras.

A plataforma proposta também coincide com mais de 14 000 montes estratificados, alguns com cerca de 500 metros de espessura e com idades superiores a 3,7 mil milhões de anos.

Estas sobreposições são relevantes porque um simples aplanamento - por exemplo, por lavas ou depósitos de cheias - teria mais dificuldade em justificar, ao mesmo tempo, tantos sinais associados a ambientes costeiros.

Um mar em mudança

Dois grandes sistemas de deltas em Marte registam variações do nível de água entre 500 e 900 metros, muito acima do que é típico em exemplos recentes na Terra.

Na divulgação do artigo, a plataforma foi apresentada como o elo em falta entre terreno plano, deltas e indícios de linhas de costa.

“Se existe um oceano, tem de existir uma plataforma continental”, disse Zaki.

Avanços e recuos repetidos sobre a mesma plataforma espalhariam naturalmente os vestígios de linhas de costa, mas preservariam a forma mais geral de uma margem oceânica.

Onde os rovers devem procurar

As futuras missões com rovers passam a ter um alvo mais definido: a plataforma pode conservar sedimentos costeiros onde ondas, correntes e o escoamento dos rios interagiram.

Essas rochas poderão conter clinoformas, isto é, camadas sedimentares inclinadas construídas junto à linha de costa, além de texturas de ondulação e camadas associadas a tempestades.

“Isto é uma assinatura topográfica mais estável”, afirmou Zaki, explicando por que uma plataforma pode durar mais do que uma linha de costa.

Isto é importante porque os depósitos de plataforma conseguem registar histórias ambientais longas, tornando-se alvos de habitabilidade mais robustos do que uma única linha de costa, entretanto erodida.

Limites da prova

A prudência é essencial, já que Marte atravessou milhares de milhões de anos de erosão pelo vento, impactos, vulcanismo e inundações desde a época do oceano.

Fluxos de lava locais ou sedimentos de cheias também podem aplanar o relevo, pelo que uma área plana, por si só, não prova a existência de um oceano.

Ainda assim, a coincidência de forma, altitude, sinais sedimentares e observações de rover numa única faixa torna menos convincentes explicações mais simples.

O teste que falta é a verificação directa no terreno, quando missões futuras puderem avaliar se estas rochas se formaram mesmo ao lado de água aberta.

O que muda agora

A hipótese de um oceano em Marte ganha força porque já não depende de linhas de costa degradadas se manterem “perfeitas” após milhares de milhões de anos.

Ao tratar a plataforma continental como a assinatura principal, os investigadores passam a dispor de uma forma mais clara de interpretar mares antigos e de seleccionar locais para perfurações futuras.

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