Quando enormes mantos de Sargassum dão à costa, o impacto parece instantâneo: as praias ficam bloqueadas, o cheiro torna-se nauseabundo, o turismo ressente-se e as comunidades costeiras ficam a lidar com um problema que parece ter surgido de um dia para o outro.
No entanto, um novo estudo indica que estas florações podem começar muito mais cedo - e muito mais a leste - do que se pensava.
A investigação, coordenada por cientistas da University of Miami, aponta as águas costeiras ao largo da África Ocidental como o local mais provável onde se iniciou a primeira grande floração no Atlântico.
Segundo a equipa, a floração de Sargassum que ganhou atenção generalizada em 2011 pode ter começado a formar-se perto do Golfo da Guiné até dois anos antes - muito antes de os satélites a terem detectado no Atlântico ocidental.
Uma floração sem princípio claro
Desde 2011, gigantescas jangadas de Sargassum à deriva tornaram-se um pesadelo recorrente em todo o Atlântico tropical.
Estas florações - hoje frequentemente designadas por Grande Cintura de Sargassum do Atlântico - afectaram costas das Caraíbas, do Golfo do México, do sul da Flórida e de partes da África Ocidental.
O Sargassum sempre existiu no Atlântico. Ainda assim, estas florações tornaram-se tão extensas e persistentes que colocaram uma pergunta difícil: afinal, de onde vinham?
Durante muito tempo, o Mar dos Sargaços, conhecido pelas suas massas de algas flutuantes, pareceu a explicação mais óbvia. Mas nunca esclareceu por completo porque é que as grandes florações tropicais começaram quando começaram, nem por que razão se espalharam da forma como se espalharam. Essa incerteza arrasta-se há mais de uma década.
“Os surtos de Sargassum tiveram enormes impactos ecológicos e económicos nas Caraíbas, no Golfo do México, no sul da Flórida e na África Ocidental”, afirmou o autor principal, Francisco Beron-Vera, professor investigador na Rosenstiel School.
“Os nossos resultados fornecem provas sólidas de que estas florações começam no Atlântico tropical oriental, e não no Mar dos Sargaços, como se pensava anteriormente.”
Reconstruir o percurso da floração de Sargassum
Um dos aspectos mais marcantes do estudo é que os investigadores não se limitaram a seguir as algas a atravessar o oceano como é habitual. Em vez disso, reconstruíram o trajecto ao contrário.
Para reconstituir o local mais provável de origem da floração de 2011, a equipa recorreu a dois métodos distintos. Um deles foi a inversão bayesiana, que estima a fonte mais provável recuando a partir do local e do momento em que a floração foi observada.
O outro foi a teoria dos caminhos de transição, usada para identificar as rotas mais eficientes que alimentam a floração.
O que reforça a robustez do resultado é o facto de ambos os métodos apontarem para a mesma zona geral: as águas costeiras ao largo da África Ocidental, em particular nas proximidades do Golfo da Guiné. A equipa também alterou a forma como representou o próprio Sargassum.
“Em vez de tratar as algas como deriva passiva, o modelo representa-as como aglomerados de ‘jangadas’ flutuantes influenciadas por correntes oceânicas, ventos e interacções entre massas”, explicou Beron-Vera.
“Milhares de trajectórias simuladas foram depois traduzidas para um enquadramento probabilístico através de uma cadeia de Markov variável no tempo, permitindo à nossa equipa reconstruir onde a floração terá começado com maior probabilidade.”
Para lá do Mar dos Sargaços
Assim que os investigadores apontaram para a África Ocidental, outras peças começaram a encaixar. Apesar de já haver registos de Sargassum a dar à costa no Gana em 2009, na altura isso pareceu um episódio isolado e local.
Agora, esse sinal passa a parecer uma pista precoce de que algo muito maior já estava em marcha.
Os especialistas também concluíram que as vias que transportam Sargassum do Mar dos Sargaços para o Atlântico tropical são relativamente fracas. Isso não significa que nunca haja algas a deslocarem-se nessa direcção, mas torna a explicação antiga muito menos convincente como origem principal das florações gigantes.
Há ainda a evidência biológica: o tipo dominante de Sargassum observado nos primeiros anos da floração tropical não coincidia com o tipo mais frequentemente associado ao Mar dos Sargaços.
Este pormenor é relevante porque sugere que a floração não resultou simplesmente de uma população setentrional familiar a descer para sul em grandes quantidades.
Em alternativa, os investigadores consideram provável que já existissem baixos níveis de Sargassum no Atlântico tropical e que estes se tenham expandido rapidamente quando as condições se tornaram favoráveis.
Ou seja, a floração poderá ter-se desenvolvido discretamente a partir de uma presença tropical mais pequena, que, de repente, encontrou as condições certas para explodir.
Condições que impulsionaram o crescimento do Sargassum
A equipa aponta ainda condições ambientais invulgares em 2009 e 2010 que poderão ter posto a floração em movimento.
Um factor provável foi um forte episódio semelhante ao Dakar Niña, que trouxe temperaturas mais baixas à superfície do mar e um afloramento mais intenso, rico em nutrientes, ao largo da África Ocidental.
O afloramento faz subir nutrientes de águas mais profundas para perto da superfície, onde podem alimentar o crescimento. Poeiras do Sara e um aumento do escoamento fluvial poderão ter acrescentado ainda mais nutrientes a esta combinação.
“Estas condições parecem ter fornecido a combinação certa de nutrientes e dinâmica oceânica para desencadear um crescimento em grande escala”, afirmou a co-autora María Josefina Olascoaga, professora na University of Miami.
Nesse sentido, a África Ocidental pode não ter sido apenas o ponto de partida - pode também ter sido o local onde as condições do oceano, por um breve período, se alinharam da pior forma possível.
O Sargassum começa fora de vista
Estas florações continuam a perturbar a vida costeira numa vasta faixa do Atlântico. Danificam habitats marinhos, dificultam a pesca, prejudicam negócios locais e obrigam a operações de limpeza dispendiosas.
A crise do Sargassum não começa quando as algas se amontoam na areia. Nessa altura, o processo pode já estar a desenrolar-se há anos.
Este novo estudo sugere que o verdadeiro início é mais silencioso, mais distante e muito mais fácil de passar despercebido. Pode começar ao largo da África Ocidental, numa parte do oceano em que a maioria das pessoas nem pensa, muito antes de a floração crescer o suficiente para o resto do Atlântico a notar.
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