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Estudo How Much: 22% dos adultos são profissionais cuidadores e muitos não o dizem no trabalho

Mulher de negócios preocupada a falar ao telefone no escritório com computador e caneca "melhor mãe/filha".

Quem passa o dia no escritório ou preso a videochamadas está, muitas vezes, a fazer em paralelo aquilo que não aparece no calendário de trabalho: marcar consultas, gerir medicação e organizar rondas de cuidados durante a noite. Um novo inquérito da agência de consultoria How Much indica que o número de pessoas empregadas que, ao mesmo tempo, apoiam familiares é enorme - e que o silêncio à sua volta torna o tema ainda mais explosivo.

Profissionais cuidadores segundo o estudo How Much: uma em cada cinco pessoas adultas

O estudo da How Much, realizado no início de 2026 com pouco mais de 3.200 participantes, aponta para um cenário muito claro. Cerca de 22% da população adulta diz ter apoiado regularmente, no último ano, alguém próximo que estivesse doente, limitado ou dependente de ajuda. E 18% afirma que ainda está, neste momento, a desempenhar esse papel.

E não se trata apenas de pais muito idosos. O perfil de quem recebe apoio é bastante variado:

  • mais frequentemente, um dos pais
  • depois, a companheira ou o companheiro
  • em muitos casos, um filho com doença crónica ou deficiência
  • mais raramente, avós ou outros familiares

Em mais de um terço das situações, quem cuida acaba por ajudar várias pessoas em simultâneo. O apoio cobre tudo o que é preciso para manter a vida a funcionar: cuidados, transporte, burocracia e formulários, internamentos, reabilitação e tarefas do dia a dia.

A prestação de cuidados não acontece apenas em lares ou hospitais - atravessa carreiras profissionais perfeitamente comuns.

A carga horária está longe de ser um “favor” pontual. Dois terços das pessoas inquiridas dedicam pelo menos seis horas por semana, e muitas bastante mais: um quinto ultrapassa as 20 horas. E estes valores nem sequer contam com a disponibilidade permanente, a coordenação de serviços e a tensão emocional contínua.

Quem sente uma pressão especial é a chamada “geração sanduíche”: pessoas que, ao mesmo tempo, dão apoio a pais mais velhos e cuidam dos próprios filhos. De acordo com o inquérito, isso aplica-se a mais de um terço de quem acompanha um pai ou uma mãe com necessidade de cuidados. Entre creche, escola, trabalho e cuidados, o desgaste chega depressa ao limite.

Quando a dupla carga começa a pesar no trabalho

No emprego, esta multiplicidade de papéis raramente passa sem marcas. 57% dos trabalhadores cuidadores dizem que a sua capacidade de desempenho diminuiu nos últimos 12 meses - pelo menos em determinados períodos. É frequente terem de faltar em cima da hora, chegarem atrasados ou saírem repentinamente porque aconteceu algo em casa.

Muitos tentam manter tudo de pé mexendo na própria organização do trabalho:

  • um terço recorre mais ao teletrabalho (home office)
  • quase um terço destaca-se por faltas imprevisíveis e difíceis de planear
  • mais de um quinto reduz o horário semanal
  • 16% abdica de oportunidades de progressão ou de projectos interessantes

Ao mesmo tempo, existe um grupo que afirma sentir poucas ou nenhumas consequências. Regra geral, consegue-o à custa de um esforço pessoal extremo - muitas vezes com impacto directo na própria saúde.

A pressão financeira ainda agrava o cenário

Para lá do tempo e da energia, cuidar também tem custos. 57% dos trabalhadores cuidadores relatam efeitos financeiros relevantes no último ano. Entre as razões mais comuns estão:

  • despesas adicionais com deslocações, medicamentos, ajudas técnicas ou apoio doméstico
  • perda de rendimento por licença não remunerada ou redução de horas
  • passos na carreira que ficam por dar, travando aumentos salariais

Cerca de um quinto recorre a dispensas não pagas, e quase um quinto reduz oficialmente o ritmo de trabalho. Uma em cada oito pessoas recusa explicitamente uma oportunidade profissional por causa das responsabilidades de cuidado. Mais de um quarto teme perdas de carreira a longo prazo, mesmo que ainda não tenha acontecido nada de concreto.

O que parece um problema privado está, discretamente, a transformar-se num risco grande para o rendimento, a carreira e a retenção de talento.

Porque é que tantos se calam - e o que está por trás

Apesar da pressão, apenas 37% fala abertamente com a entidade patronal. 61% mantém a situação totalmente escondida - mesmo quando já está, de forma regular, a ultrapassar limites.

As razões para este silêncio são variadas:

  • muitos preferem separar rigorosamente vida profissional e vida pessoal
  • alguns nem se vêem como “cuidadores”, mas apenas como familiares prestáveis
  • uma parte considerável desconhece as medidas já existentes na empresa
  • há dúvidas sobre se o tema será levado a sério no local de trabalho

Somam-se receios concretos: um quarto preocupa-se com consequências negativas para o percurso profissional. Um pouco mais de uma em cada cinco pessoas teme ser vista como menos resiliente ou ficar rotulada. E há quem apenas espere “aguentar mais um pouco”, enquanto ainda consegue organizar o dia a dia de forma improvisada.

Quando um assunto privado chega à agenda da gestão

Especialistas em políticas laborais e de recursos humanos defendem, cada vez mais, uma mudança de abordagem por parte das empresas. Na sua leitura, trabalhadores cuidadores não são um fenómeno marginal, mas um factor estrutural: com o envelhecimento da população, cresce o número de pessoas que trabalham e, em paralelo, apoiam familiares.

O inquérito da How Much mostra uma expectativa muito clara: 81% dos trabalhadores cuidadores querem regras vinculativas na empresa, uma espécie de “acordo de cuidado” ou “acordo para apoio a familiares”. As medidas mais desejadas são ferramentas práticas e aplicáveis no quotidiano, como:

  • horários flexíveis e modelos de horário móvel
  • teletrabalho (home office) mais alargado
  • dias adicionais de dispensa ou bancos de horas para doação de tempo por colegas
  • part-time temporário com uma perspectiva de regresso bem definida

O pedido por apoio psicológico, pontos de contacto internos ou ajudas financeiras é menos frequente - o que também pode dever-se ao facto de essas opções serem pouco divulgadas. Quase um quarto diz, pura e simplesmente, não conhecer qualquer medida na própria empresa.

Um enquadramento claro e confidencial não protege apenas trabalhadores em dificuldade; também dá às empresas previsibilidade e ajuda a preservar o desempenho no longo prazo.

O que as empresas podem fazer, na prática

As entidades patronais não têm de inventar tudo de raiz para aliviar quem cuida. Três linhas de actuação destacam-se:

  • Criar abertura: falar do tema na intranet, em reuniões de equipa ou em formações para lideranças reduz a barreira para pedir ajuda.
  • Definir regras com clareza: acordos internos sobre teletrabalho (home office), dispensas de curta duração e regimes de part-time dão segurança - para ambos os lados.
  • Indicar pessoas de contacto: um interlocutor interno pode esclarecer, coordenar e mediar quando surgem conflitos.

Quando a situação é comunicada cedo, tende a ser possível chegar a soluções pragmáticas: trocas de turnos, redistribuição de tarefas, pausas temporárias em projectos. Quando tudo fica escondido, o problema costuma rebentar apenas quando alguém adoece, entra em baixa ou se despede de forma abrupta.

Quando a própria energia chega ao limite

Para quem está nesta posição, não se trata só de modelos de horário; trata-se também de auto-protecção. Muitos trabalhadores cuidadores têm tendência para colocar as suas necessidades em último lugar. Sinais de alerta comuns incluem cansaço persistente, problemas de sono, irritabilidade e a sensação de que já não conseguem fazer nada “bem”.

Nessa altura, ajudam passos pequenos, mas consistentes:

  • redistribuir tarefas na família e pedir ajuda de forma activa
  • recorrer a serviços de aconselhamento e a estruturas de apoio ao cuidador para aproveitar melhor os direitos e recursos existentes
  • falar cedo com a chefia sobre períodos de aperto, em vez de esperar até deixar de ser possível
  • planear pausas pessoais de forma intencional, mesmo que custe

Quem apoia familiares vive, muitas vezes, numa zona cinzenta: não está formalmente identificado como cuidador, mas carrega, na prática, uma responsabilidade permanente. E é precisamente este grupo que pode cair numa sobrecarga gradual, sem conseguir nomeá-la com clareza.

Porque é que este tema diz respeito a todos

Trabalhadores cuidadores não são um caso isolado; são um sinal avançado da evolução demográfica. Maior longevidade, mais doenças crónicas e escassez de profissionais de cuidados - tudo isto empurra responsabilidade para as famílias. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas trabalham a tempo inteiro, muitas vezes longe dos pais ou sem uma rede de apoio forte.

Mesmo quem não está, hoje, nessa situação sente os efeitos de forma indirecta: colegas que faltam, equipas que vivem em replaneamento constante e falhas em áreas críticas. Quanto mais cedo empresas e decisores políticos actuarem, menor será o impacto para todas as partes.

No futuro, cuidados e trabalho vão cruzar-se com ainda mais frequência. Se isso se traduz sobretudo em exaustão e travões na carreira - ou em modelos sólidos que permitam conciliar ambos - é uma decisão que está a ser tomada agora, nas empresas, nos departamentos de recursos humanos e nas administrações.


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