O comportamento dos animais - muitas vezes descrito como “personalidades animais” - e o grau de proximidade que estabelecem com as pessoas acabam por influenciar tanto a longevidade como a probabilidade de terem descendência.
Um caso claro vem do Mar Morto: investigadores observaram que os corvos-de-cauda-em-leque, corvídeos de porte médio adaptados ao deserto e naturais do Norte de África e do Médio Oriente, vivem mais tempo quando evitam a presença humana nessa zona.
Os resultados indicam que a interação humana com a fauna não só pode reduzir populações, como também se pode ligar diretamente ao destino de uma espécie específica.
Turistas e personalidades animais no corvo-de-cauda-em-leque
Na faixa costeira do Mar Morto, os corvos-de-cauda-em-leque repartem o dia entre locais turísticos cheios e áreas de alimentação mais tranquilas, situadas mais longe das pessoas.
Ao acompanhar estas escolhas, o Dr. Miguel de Guinea, da Universidade Hebraica de Jerusalém, mostrou que as aves mais dispostas a permanecer perto de humanos eram também as que apresentavam maior probabilidade de morrer.
Esta tendência manteve-se durante tempo suficiente para distinguir, de forma consistente, os corvos que evitavam pessoas daqueles que permaneciam onde a comida era fácil de obter e o contacto humano se tornava praticamente inevitável.
O contraste levantou uma questão central sobre a sobrevivência da população.
O mesmo padrão comportamental que garante uma fonte de alimento regular pode, ao mesmo tempo, estar a contribuir para o declínio da população.
Traços estáveis com consequências imediatas
Os cientistas chamam a estas diferenças persistentes personalidade animal: padrões de comportamento que, num mesmo indivíduo, se mantêm relativamente constantes ao longo do tempo.
Neste estudo, os corvos-de-cauda-em-leque, Corvus rhipidurus, foram submetidos a quatro provas com comida desconhecida, objetos estranhos, pessoas por perto e alterações no espaço.
As aves que avançavam rapidamente para um tipo de teste tendiam, em geral, a fazer o mesmo nos restantes, o que sugeriu uma predisposição ampla para o risco.
A consistência entre testes foi relevante porque estas provas não eram truques aleatórios; reproduziam pressões reais que moldam o habitat destas aves.
O custo de estar perto de humanos
O trabalho decorreu numa faixa desértica junto ao Mar Morto, onde estradas, miradouros, parques de campismo e hotéis se alinham ao longo da margem.
Entre 2015 e 2023, a média de visitantes diários aumentou 60.3 percent, levando mais fontes de alimento - e mais perigos - para dentro do território dos corvos.
As zonas turísticas disponibilizavam restos alimentares fáceis, mas também expunham as aves a lixo, comida envenenada e conflitos diretos com pessoas.
Assim, a comida “fácil” pode transformar-se num risco: recompensa os indivíduos mais ousados, ao mesmo tempo que aumenta a probabilidade de morte.
Dados de indivíduos marcados
Concluídas as provas, a equipa libertou 51 aves com dispositivos solares de seguimento e acompanhou muitas delas durante vários meses.
Os investigadores recorreram a 41 registos completos de localização para comparar distâncias percorridas, tempo passado perto de locais turísticos e visitas a áreas de alimentação fora das zonas de maior presença humana.
As temperaturas elevadas e semanas com maior afluência levaram muitas aves a aproximarem-se das zonas turísticas; nesses locais, os movimentos tornavam-se mais lentos e o tempo de permanência aumentava.
Ainda assim, os padrões individuais mantiveram-se suficientemente estáveis para separar aves cautelosas, que guardavam distância, de aves arrojadas, que ficavam em áreas povoadas.
Personalidade animal e propensão para o risco
O número mais marcante surgiu após a libertação: 22 das 51 aves marcadas foram posteriormente confirmadas como mortas.
Os corvos que passavam mais tempo em locais turísticos tinham uma probabilidade muito superior de morrer, ao passo que os indivíduos mais rápidos e com maior alcance de deslocação sobreviviam por mais tempo.
“Os nossos resultados mostram que traços comportamentais consistentes não são apenas curiosidades; podem decidir entre a vida e a morte”, afirmou o Dr. Guinea.
Guinea sublinhou que esta conclusão é particularmente urgente para os corvos-de-cauda-em-leque no Mar Morto, onde a população está a diminuir tão depressa que pode desaparecer em breve da região.
Ligar personalidade animal ao movimento
Uma tarefa em ambiente controlado destacou-se por se aproximar mais do que acontece no terreno: observar se os corvos comiam na presença de uma pessoa visível.
As aves criadas em cativeiro vieram a passar mais tempo junto de turistas e menos tempo na periferia da sua distribuição.
Os locais periféricos situavam-se junto da área de vida de cada ave - a zona que utilizava com maior regularidade - e longe de uma presença humana intensa.
Ao relacionar o comportamento observado em cativeiro com o comportamento registado no deserto aberto, os cientistas conseguiram reforçar a correspondência entre os dados dos dois contextos.
Respostas a um mundo em mudança
A personalidade não explicou tudo, porque os corvos também se ajustaram ao calor, às multidões e ao tipo de alimento que surgia em cada semana.
Uma parte importante da variação ocorreu dentro dos mesmos indivíduos ao longo do tempo, o que revelou flexibilidade a par de tendências estáveis.
Esta combinação de estabilidade e adaptação ajuda a perceber porque é que o efeito da presença humana continua a ser difícil de antecipar ao longo de uma única linha costeira.
Identificar estas diferenças torna-se especialmente relevante quando se avalia o nível de perigo a que as aves estão expostas.
O turismo como força evolutiva
O desenvolvimento humano pode estar, agora, a filtrar a própria população: as aves mais inclinadas a explorar áreas turísticas parecem ser as que menos probabilidades têm de persistir.
No Mar Morto, os corvos não beneficiam por estar perto de humanos, apesar de a comida lhes ser facilmente acessível.
A comida junto de hotéis e parques de campismo reduz esforço no curto prazo, mas também traz toxinas e pior qualidade nutricional.
Deste modo, uma população pode diminuir mesmo quando há calorias em abundância, porque o caminho mais seguro para o alimento exige maiores deslocações e mais gasto energético.
Reduzir perigos em espaços humanos
Muitos planos de conservação tratam uma espécie como se todos os indivíduos respondessem do mesmo modo - e, neste caso, essa suposição não se verifica.
Locais turísticos mais limpos, gestão de resíduos mais segura e menos perigos associados a alimentos poderiam reduzir o risco para as aves mais ousadas, que são as que mais se aproximam de pessoas.
Os gestores poderão também ter de proteger áreas de alimentação mais silenciosas na periferia da distribuição, onde os corvos cautelosos já encontram refeições mais seguras.
Salvar a população poderá depender menos de apoiar um “corvo médio” e mais de diminuir os perigos que atingem, de forma desproporcionada, os indivíduos mais aventureiros.
Para lá das ligações entre comportamento e sobrevivência
A investigação uniu personalidade, movimento e sobrevivência numa única sequência, mostrando como a atividade humana pode remodelar a vida selvagem a partir do nível do indivíduo - e para além dele.
Trabalho futuro ainda terá de testar de que modo a dieta, o sucesso reprodutivo e as causas específicas de morte influenciam a capacidade de recuperação destes corvos.
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