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Ligação entre inflamação intestinal e Alzheimer confirmada novamente.

Cientista em laboratório com alimentos saudáveis e ilustração digital do sistema digestivo e cérebro.

Investigadores que vão juntando as peças do enorme puzzle da doença de Alzheimer estão mais perto de encaixar a próxima, ao identificarem mais uma ligação entre o intestino e o cérebro.

Estudos em animais já tinham mostrado que a doença de Alzheimer pode ser transmitida a ratinhos jovens através da transferência de micróbios intestinais, reforçando a relação entre o sistema digestivo e a saúde cerebral. Um estudo de 2023 veio dar ainda mais força à hipótese de que a inflamação poderá ser o mecanismo por detrás desta associação.

“Mostrámos que as pessoas com doença de Alzheimer têm mais inflamação intestinal”, disse a psicóloga da Universidade do Wisconsin, Barbara Bendlin, quando a investigação foi divulgada, “e, entre as pessoas com Alzheimer, quando analisámos a imagiologia cerebral, aquelas com maior inflamação intestinal apresentavam níveis mais elevados de acumulação de placas amiloides no cérebro.”

A patologista da Universidade do Wisconsin, Margo Heston, e uma equipa internacional avaliaram a calprotectina fecal - um marcador de inflamação - em amostras de fezes de 125 indivíduos recrutados a partir de dois estudos de coorte focados na prevenção da doença de Alzheimer.

No momento da inclusão, os participantes realizaram vários testes cognitivos, além de entrevistas sobre antecedentes familiares e exames para detetar um gene de alto risco associado ao Alzheimer. Um subgrupo foi ainda submetido a testes clínicos para identificar sinais de agregados de proteína amiloide, um indicador frequente de que a patologia responsável pela condição neurodegenerativa já está em curso.

Embora os níveis de calprotectina fossem, de modo geral, mais elevados em participantes mais velhos, essa diferença tornava-se ainda mais marcada em quem apresentava as placas amiloides típicas da doença de Alzheimer. Outros biomarcadores da doença também aumentavam à medida que os níveis de inflamação subiam, e as pontuações nos testes de memória diminuíam quando a calprotectina era mais alta.

Mesmo entre os participantes sem diagnóstico de Alzheimer, valores mais elevados de calprotectina estavam associados a piores resultados nos testes de memória.

“Não podemos inferir causalidade a partir deste estudo; para isso, precisamos de fazer estudos em animais”, alertou Heston.

Uma análise laboratorial já tinha demonstrado que substâncias químicas produzidas por bactérias intestinais podem ativar sinais inflamatórios no cérebro. Além disso, outros trabalhos observaram maior inflamação intestinal em doentes com Alzheimer quando comparados com grupos de controlo.

Heston e colegas suspeitam que alterações no microbioma desencadeiam mudanças no intestino que, por sua vez, conduzem a inflamação em todo o organismo. Trata-se de uma inflamação ligeira, mas persistente, que provoca danos discretos e cumulativos, acabando por comprometer a eficácia das barreiras do corpo.

“O aumento da permeabilidade intestinal pode resultar em níveis mais elevados, no sangue, de moléculas inflamatórias e toxinas derivadas do lúmen intestinal, levando a inflamação sistémica, que por sua vez pode afetar a barreira hematoencefálica e pode promover neuroinflamação e, potencialmente, lesão neural e neurodegeneração”, afirmou o bacteriologista da Universidade do Wisconsin, Federico Rey.

Os investigadores estão agora a testar ratinhos para perceber se alterações alimentares associadas a maior inflamação conseguem desencadear a versão roedora da doença de Alzheimer.

Apesar de décadas de investigação, continua a não existir um tratamento eficaz para os milhões de pessoas com Alzheimer em todo o mundo. Ainda assim, com uma compreensão mais profunda dos processos biológicos envolvidos, os cientistas aproximam-se do objetivo, passo a passo.

Esta investigação foi publicada na revista Scientific Reports.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em janeiro de 2024.

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