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As penas dos corvos-americanos revelam cores ocultas ao ultravioleta

Jovem com pena colorida e lâmpada UV cerca de corvos num bosque iluminado pelo sol.

O que faz com que um corvo seja identificável por outro corvo? Para os humanos, esta pergunta tem sido difícil de responder há séculos, porque os corvos-americanos parecem quase impossíveis de distinguir entre si.

À nossa vista, a plumagem é de um preto homogéneo, os corpos são muito semelhantes e, quando se juntam em parques de estacionamento, campos ou árvores nas cidades, os seus movimentos confundem-se num único grupo em constante mudança.

Ainda assim, os corvos vivem em sociedades surpreendentemente complexas: reconhecem rostos individuais, defendem territórios, lembram-se de inimigos e mantêm ligações familiares durante longos períodos.

Um modo de vida tão social costuma assentar em sinais visíveis. Então, como é que aves que parecem tão pouco distintas do ponto de vista visual conseguem comunicar entre si?

Um novo estudo aponta para uma resposta: as penas dos corvos poderão conter muito mais informação do que os humanos conseguem perceber.

As penas dos corvos guardam segredos

A investigação foi liderada por Jessica Yorzinski, da Texas A&M University, e por Anne Clark, da Binghamton University.

O trabalho debruçou-se sobre um enigma antigo na biologia das aves: por que razão um dos grupos de aves mais inteligentes e sociais do planeta aparenta ser visualmente “sem características”?

Durante décadas, os cientistas estudaram pigmentos brilhantes em espécies como papagaios, flamingos e cardeais. Já as penas pretas receberam muito menos atenção.

Esse preto resulta sobretudo da melanina, um pigmento que as próprias aves produzem. A melanina não serve apenas para dar cor: pode reforçar as penas, ajudar na regulação térmica e proteger contra o desgaste e a poluição.

A equipa suspeitava, porém, que a melanina e a estrutura das penas poderiam também transportar sinais visuais que simplesmente nos passam despercebidos.

Os corvos vêem cores escondidas

Para testar esta hipótese, os investigadores fotografaram 28 exemplares de corvo-americano das Texas A&M Biodiversity Research and Teaching Collections.

Só que a fotografia comum não chegava. As aves conseguem ver luz ultravioleta, ao contrário dos humanos.

“Eles, na verdade, vêem mais longe no UV (ultravioleta) do que nós. Isso dá-lhes um canal de comunicação que podemos não detectar”, disse Clark.

Com uma câmara de espectro total especialmente modificada, a equipa registou a luz visível e a luz ultravioleta reflectidas pelas penas.

Depois, as imagens foram tratadas com software concebido para simular a forma como os próprios corvos percepcionam a cor.

O resultado aproximou-se mais daquilo que um corvo vê noutro corvo nas interacções do dia-a-dia.

Cada pena parece diferente

Os investigadores dividiram cada ave em várias regiões de plumagem, incluindo asas, pescoço, cabeça, garganta, cauda e zonas em torno dos olhos.

Em cada área, quantificaram a tonalidade no visível, a tonalidade no ultravioleta, a saturação, o brilho e a lustrosidade.

Estas medições mostraram que as penas dos corvos não são uniformes como parecem aos humanos. Diferentes partes do corpo reflectiam a luz de modo distinto, sobretudo nos comprimentos de onda ultravioleta.

A variação tornou-se ainda mais relevante quando a equipa analisou a idade dos indivíduos.

As penas revelam a idade do corvo

O padrão mais evidente observado no estudo foi a diferença entre corvos mais novos e mais velhos.

As aves mais velhas reflectiam mais luz ultravioleta e apresentavam alterações mensuráveis na tonalidade das penas em comparação com indivíduos jovens.

Modelos estatísticos conseguiram classificar os animais por grupos etários muito melhor do que o acaso, apenas a partir da coloração das penas em zonas como as asas ou a cauda.

Isto sugere que um corvo poderá estimar a idade de outro simplesmente ao observá-lo.

“Há muitos mecanismos possíveis”, disse Clark. “Pode haver uma maior concentração de melanina, ou alterações na estrutura da pena.”

A razão biológica exacta por detrás destas mudanças de cor continua incerta, mas o padrão encontrado parece consistente.

A idade molda a sociedade dos corvos

Os corvos-americanos vivem frequentemente em grupos familiares alargados, nos quais as crias permanecem com os progenitores durante anos.

Por vezes, filhos adultos competem com o pai por oportunidades de reprodução. Além disso, famílias vizinhas interagem com frequência e defendem os seus territórios contra intrusos.

Distinguir se outra ave é jovem, madura ou envelhecida pode influenciar a forma como os corvos reagem uns aos outros.

Em muitas espécies, sinais visíveis de juventude tendem a reduzir a agressividade por parte de indivíduos mais velhos. Algo semelhante poderá acontecer entre corvos.

A equipa também notou indícios de que a qualidade das penas pode variar ao longo da vida.

“Há a sensação de que talvez as penas fiquem cada vez melhores e, depois, isso caia à medida que envelhecem”, disse Clark. “Infelizmente, isto deverá ser familiar para a maioria das pessoas; fica mais difícil ter bom aspecto.”

Machos e fêmeas parecem iguais

Um resultado inesperado esteve ligado às diferenças entre sexos. Machos e fêmeas de corvo-americano mostraram-se estatisticamente indistinguíveis quanto à coloração das penas.

Ao que tudo indica, os corvos-americanos recorrem a outras pistas para reconhecer o sexo. Os machos tendem a ser ligeiramente maiores, enquanto as fêmeas costumam emitir vocalizações de frequência mais alta.

A cor das penas, porém, não parece desempenhar esse papel.

As penas escuras reduzem o encandeamento

Uma região de plumagem destacou-se das restantes: a zona em torno dos olhos e da testa surgiu mais escura e mais “plana” do que as penas à volta, quando analisada pelo modelo de visão das aves.

Os investigadores consideram que isto pode funcionar como uma máscara anti-encandeamento.

Marcas escuras semelhantes aparecem em muitas aves de rapina e podem reduzir a luz reflectida durante a caça ou quando procuram alimento no solo.

Como os corvos passam grande parte do tempo a forragear ao ar livre, diminuir o encandeamento poderá melhorar a visão.

“Pode ajudar a melhorar a visão deles e a reduzir hiper-reflexos do chão”, disse Clark. “Isto é tudo hipótese, mas é transversal a todas as espécies de corvos que analisámos.”

As penas pretas transportam sinais

Mesmo com algumas limitações nos dados, o estudo altera a forma como os cientistas encaram a plumagem preta.

Afinal, os corvos-americanos não são visualmente “simples”. As suas penas contêm informação sobre a idade - e possivelmente muito mais, ainda por compreender.

“A nossa identificação da qualidade e da identidade dos nossos companheiros sociais usa muitas modalidades sensoriais. O que mostramos é que o preto de um corvo varia e tem informação, apesar de ser sexualmente monomórfico”, disse Clark.

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