Uma sondagem muito citada dá uma pista sobre quando é que isso muda.
Ser emocionalmente maduro é muito mais do que viver sozinho ou ter um emprego estável. Tem a ver com a forma como discutimos, tomamos decisões, assumimos responsabilidades - e com o grau de justiça com que tratamos parceiros, família e amigos. Um inquérito britânico que há anos se torna viral de tempos a tempos procurou medir exactamente essa percepção. O resultado continua a gerar debate, gargalhadas e também algum abanar de cabeça.
O que significa, afinal, maturidade emocional
No dia a dia, a expressão aparece em todo o lado: “Ele ainda não tem maturidade”, “ela parece muito adulta para a idade”. Normalmente, o que se quer dizer é maturidade emocional: a capacidade de lidar com emoções, conflitos e responsabilidades - tanto as próprias como as dos outros.
- Consigo ouvir críticas sem perder o controlo de imediato?
- Tomo decisões que amanhã ainda fazem sentido - e não apenas hoje?
- Assumo a responsabilidade pelo meu comportamento em vez de procurar desculpas?
- Numa relação, sou parceiro(a) - ou acabo por ser mais um “caso para tomar conta”?
A maturidade emocional costuma desenvolver-se devagar, somando anos e experiências. Não há uma evolução perfeitamente linear. Ainda assim, um inquérito de 2013 quis apontar uma idade “muito clara” para essa viragem - distinguindo homens e mulheres.
O inquérito polémico: as mulheres chegam primeiro
Por encomenda do canal infantil Nickelodeon, no Reino Unido, homens e mulheres foram questionados sobre a forma como percepcionavam a maturidade emocional - a sua e a do(a) parceiro(a). Não foi um estudo científico rigoroso; tratou-se de uma sondagem de opinião. Mesmo assim, até hoje continua a alimentar conversas.
Segundo a avaliação dos inquiridos, as mulheres atingem a maturidade emocional plena, em média, aos 32 anos, enquanto os homens só aos 43.
Onze anos de diferença não é coisa pouca. Na altura, muitas pessoas acharam o número exagerado; outras concordaram em silêncio, lembrando-se da última relação. Seja como for, estes valores encaixam no tipo de relatos que várias mulheres deram no inquérito.
“Ele fica sempre um pouco criança” - o que dizem os inquiridos
Uma conclusão central foi que muitas mulheres sentem uma distribuição desigual da responsabilidade emocional na relação. Não se trata de “quem ama mais”, mas de quem organiza, planeia e mantém o foco no dia seguinte.
- Muitas mulheres dizem que acabam por suportar mais as decisões sobre finanças, habitação ou planeamento familiar - por vezes quase sozinhas.
- Uma fatia considerável afirma ficar encarregue de tarefas do quotidiano como compromissos, casa e vida social.
- Surge frequentemente a sensação de que uma pessoa “gere” a relação, enquanto a outra vai apenas a reboque.
De acordo com a sondagem, cerca de oito em cada dez mulheres dizem que os homens têm “sempre uma parte infantil que nunca desaparece por completo”. Um dado curioso: aproximadamente um em cada quatro homens descreve-se a si próprio como emocionalmente imaturo. Ou seja, a percepção não parece ser totalmente descabida.
Quando a relação começa a soar a dinâmica de pai/mãe e filho
Os padrões descritos repetem-se de forma surpreendentemente semelhante. As mulheres apontam, por exemplo:
- Fuga a conversas sérias (“Temos mesmo de falar disso agora?”).
- Resistência a planear a longo prazo (temas como filhos, reforma, local de residência).
- Pouco envolvimento na casa ou na carga mental (mental load).
- Decisões espontâneas e impulsivas, com impacto para os dois - sem combinação prévia.
Muitas dizem que deixam de se sentir companheiras e passam a sentir-se uma espécie de “mãe de substituição”. São elas que lembram compromissos, arrumam o que fica para trás, marcam consultas, controlam o calendário - no plano emocional e no plano prático. Com o tempo, instala-se um desequilíbrio.
Cerca de uma em cada três mulheres no inquérito disse já ter terminado uma relação por o parceiro lhe parecer emocionalmente imaturo.
A situação torna-se especialmente pesada quando os papéis ficam fixos. Quem tem de ser sempre a pessoa sensata perde, a certa altura, leveza e vontade de proximidade. E quem é tratado de forma constante como “a criança” muitas vezes demora ainda mais a ganhar sentido de responsabilidade.
Até que ponto estes números são fiáveis?
Os autores da sondagem não pretendiam apresentar uma prova médica, mas sim captar percepções. A intenção era chegar a um número apelativo e “de impacto”, não a um diagnóstico clínico. A amostra foi limitada, focada num contexto cultural específico, e muitas respostas reflectem estereótipos e vivências comuns.
Ainda assim, há um ponto interessante: a idade de 32 anos, atribuída às mulheres, cai aproximadamente na faixa etária em que também neurocientistas localizam fases relevantes do desenvolvimento do cérebro. Investigadores da Universidade de Cambridge defendem hoje que o cérebro humano atinge, em média, o seu pico de maturidade por volta desta idade - sobretudo em áreas como:
- planeamento e resolução de problemas
- controlo de impulsos
- ponderação de consequências
- regulação de emoções intensas
De forma simplificada: a partir do início dos 30, o cérebro deixa de funcionar como o de um adolescente e passa a operar mais como o de um adulto capaz de planear a longo prazo. A partir daí, a forma como nos comportamos depende muito mais das escolhas e hábitos - e menos de limites biológicos.
Maturidade emocional é mais do que a data de nascimento
Mesmo que o cérebro esteja plenamente desenvolvido no início dos 30, isso não significa que toda a gente aos 32 - ou aos 43 - seja emocionalmente equilibrada. A maturidade nasce da combinação de:
- educação familiar, modelos e referências
- experiências em amizades e relações
- forma de lidar com crises, perdas e falhanços
- disponibilidade para auto-reflexão
Duas pessoas da mesma idade podem estar em lugares internos completamente diferentes. Uma gere família, trabalho e finanças, discute conflitos de forma justa e pede desculpa quando erra. Outra despede-se por impulso, corta contacto com o(a) parceiro(a) e foge à responsabilidade. O ano de nascimento descreve condições de partida, não garante o desfecho.
Como reconhecer maturidade emocional numa relação
É sobretudo nas relações que se percebe rapidamente até onde vai a maturidade emocional de alguém. Alguns sinais comuns de maturidade construída ao longo do tempo são:
- Os conflitos são abordados, não varridos para debaixo do tapete.
- Os próprios erros são assumidos, em vez de serem atribuídos ao(à) parceiro(a).
- As emoções são nomeadas (“Sinto-me magoado(a)”) e não escondidas atrás de ataques.
- Os limites da outra pessoa são respeitados.
- Decisões sobre o futuro são planeadas em conjunto.
Quem ainda não domina isto tende a parecer “imaturo”. Um pormenor interessante: segundo o inquérito, muitos homens têm consciência disso. O facto de um em cada quatro se classificar como imaturo mostra, pelo menos, um grau de honestidade - e a honestidade já é uma peça da maturidade.
Como casais com níveis de maturidade diferentes podem lidar com isso
Na prática, os casais raramente estão exactamente no mesmo ponto. Às vezes um tem mais experiência de terapia, outro já passou por mais crises; outras vezes vêm de culturas familiares totalmente distintas. O que faz a diferença é a forma como lidam com a assimetria.
Pode ajudar:
- dizer com clareza onde está o desequilíbrio (“Estou a carregar muita responsabilidade sozinho(a) neste momento”)
- redistribuir tarefas de forma intencional - não por hábito, mas por justiça
- combinar regras: quem decide o quê e em que áreas?
- criar pausas conscientes da “função parental”, para a proximidade voltar a ser possível
Por vezes, também faz falta apoio externo, como terapia de casal. Aí pode clarificar-se se um parceiro realmente não consegue - ou se simplesmente não quer. A maturidade revela-se sobretudo quando alguém aceita trabalhar em si.
Porque a “parte infantil” também tem lugar
A sondagem desenha um retrato muito polarizado: homens que ficam crianças durante muito tempo e mulheres que “amadurecem” cedo. No entanto, há um aspecto que muitas discussões ignoram: uma parte brincalhona e bem-humorada não é algo negativo. É o que traz espontaneidade, leveza e criatividade às relações.
O problema começa quando essa parte abafa toda a responsabilidade. Quem segue sempre apenas “o que apetece” e evita conversas desconfortáveis deixa de parecer divertido e passa a parecer cómodo. Quando existe um equilíbrio entre a criança interior e o adulto interior, aparece aquilo que muitos procuram: alguém com quem se ri - e com quem também se consegue planear a vida.
Se as mulheres têm, em média, mesmo onze anos de vantagem é difícil de provar com exactidão. Mas uma coisa é clara: a maturidade emocional tem peso na estabilidade das relações, na justiça com que se resolvem conflitos e na carga que acaba por recair sobre uma só pessoa. A data de nascimento define apenas o enquadramento; o resto constrói-se no dia a dia - discussão após discussão, decisão após decisão.
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