Durante décadas, uma ideia parecia quase garantida: os filhos seriam mais inteligentes do que os pais - pelo menos quando medidos por testes padronizados de inteligência. Porém, novos dados dos EUA, de vários países europeus e da OCDE apontam para uma inversão. Em particular, a Geração Z (aproximadamente nascidos de meados dos anos 1990 ao início dos anos 2010) destaca-se por resultados mais fracos em memória, raciocínio lógico e atenção.
A subida histórica dos valores de QI - e o seu fim abrupto
Ao longo do século XX, investigadores observaram um padrão surpreendentemente consistente: em média, cada nova geração obtinha cerca de três pontos de QI acima da anterior. Este fenómeno ficou conhecido na literatura científica como o “efeito Flynn”.
A principal força por trás desta evolução foi, sobretudo, o ambiente. As condições de vida melhoraram: as crianças cresceram mais saudáveis, passaram mais anos na escola e viveram em contextos quotidianos mais complexos. Tudo isso colocou maiores exigências ao cérebro - e, ao mesmo tempo, ajudou a desenvolvê-lo.
- Mais anos de escolaridade e programas curriculares mais exigentes
- Melhor alimentação e melhores cuidados de saúde na infância
- Empregos com maiores exigências cognitivas
- Ambientes quotidianos com mais abstracção e símbolos (trânsito, tecnologia, meios de comunicação)
Em muitos países ocidentais, os testes padronizados desenhavam uma trajectória ascendente quase contínua. Até aos anos 2000, a estagnação mal aparecia de forma relevante nos conjuntos de dados.
"Durante mais de um século, o aumento da capacidade de raciocínio pareceu assegurado - até que, por volta de 2010, ocorreu a ruptura."
O psicólogo neozelandês James Flynn defendeu que estes ganhos se explicavam praticamente por completo por factores ambientais. Mudanças em poucas décadas não seriam justificáveis por genética. Neste enquadramento, a inteligência parecia muito mais moldável do que durante muito tempo se assumiu.
Desde 2010: queda em várias áreas cognitivas
Por volta de 2010, vários conjuntos de dados começam a revelar uma mudança de tendência. Em alguns países, as médias deixam de subir; noutros, recuam de forma perceptível. Quem chama a atenção para isso é, entre outros, o neurocientista Jared Cooney Horvath, que apresentou análises perante o Congresso dos EUA.
As descidas abrangem mais do que um domínio central:
- Memória de trabalho - a capacidade de manter informação por pouco tempo e manipulá-la
- Raciocínio lógico abstracto - por exemplo, ao resolver problemas desconhecidos
- Controlo da atenção - manter o foco por períodos prolongados, sem se deixar distrair
Que não se trata apenas de um fenómeno norte-americano é sugerido, por exemplo, pelo PISA 2022 da OCDE: aos 15 anos, os resultados em Matemática, Ciências e literacia de leitura são claramente mais baixos do que os de jovens da mesma idade dez anos antes. Esta quebra aparece em vários países europeus e na América do Norte.
"A Geração Z atinge, em partes da cognição, valores mais baixos do que os seus pais - uma ruptura histórica com a tendência secular de aumento dos valores de QI."
Suspeito número um: ecrãs omnipresentes
Horvath destaca sobretudo um factor: a deslocação massiva do dia-a-dia dos adolescentes para dispositivos digitais. Hoje, os jovens passam, em média, cerca de oito horas por dia em frente a ecrãs - o que representa aproximadamente metade do tempo acordado em actividades com ecrã.
Em paralelo, muitos sistemas educativos investiram somas elevadas em computadores portáteis, tablets e plataformas digitais de aprendizagem. Nos EUA, foram canalizados milhares de milhões para programas cujo objectivo era substituir, em grande parte, os manuais escolares impressos. A promessa era clara: ensino mais moderno, mais individualizado, mais eficiente.
Segundo Horvath e várias análises, o resultado foi muitas vezes o inverso. Os dispositivos digitais não levam apenas software educativo para a sala de aula; levam também distracções constantes. O esforço necessário para manter a concentração aumenta de forma acentuada.
"Onde antes havia um manual e um caderno, hoje competem, de forma permanente, aplicações de mensagens, redes sociais, vídeos e jogos com o conteúdo da aprendizagem."
Além disso, várias investigações indicam que ler em ecrã favorece mais o “passar os olhos”, enquanto o papel tende a apoiar uma leitura mais profunda e uma melhor retenção. Para a formação de memória de longo prazo, este aspecto parece ser particularmente relevante.
A Escandinávia trava a fundo
Alguns países já estão a reagir de forma visível. Na Escandinávia - durante muito tempo vista como pioneira na educação digital - está em curso uma mudança de rumo.
A Suécia afasta-se dos tablets no ensino básico
Em 2023, a Suécia decidiu reduzir gradualmente o uso de tablets no ensino básico. Em vez disso, voltam a ganhar peso os manuais tradicionais, os cadernos e os exercícios escritos à mão. A justificação oficial: com a digitalização intensiva, os desempenhos em disciplinas-chave teriam descido de forma notória.
Dinamarca e Noruega voltam a apostar mais em caneta e papel
Também na Dinamarca e na Noruega, métodos tradicionais voltam a ocupar o primeiro plano. Depois de anos em que eram apontadas como exemplos de “escolas high-tech”, os dois países estão agora a limitar de forma deliberada o tempo de ecrã nas aulas. A escrita manual recupera importância.
As autoridades educativas da região defendem cada vez mais que aprender com a mão apoia melhor a consolidação do conhecimento a longo prazo. Escrever conteúdos - em vez de apenas digitar ou clicar - tende a fixá-los de forma mais profunda no cérebro.
Confiança alta, desempenho baixo - uma combinação perigosa
Um achado particularmente desconcertante na exposição de Horvath: muitos jovens da Geração Z avaliam as próprias capacidades cognitivas de forma muito positiva - por vezes até acima de coortes anteriores. Ao mesmo tempo, em testes objectivos, os resultados são piores.
Uma explicação possível: o acesso imediato a informação via motores de busca e sistemas de IA cria a sensação de “saber tudo”. Se as respostas aparecem em segundos, é fácil confundir disponibilidade de informação com compreensão real.
"Procurar conhecimento não substitui a compreensão própria de um tema, mas subjectivamente transmite muitas vezes a mesma impressão de competência."
Investigação da Northwestern University sugere ainda um quadro misto. Algumas capacidades caem de forma marcada, enquanto outras registam um ligeiro aumento:
| Área | Tendência em coortes mais jovens |
|---|---|
| Compreensão verbal | queda perceptível |
| Raciocínio espacial | queda |
| Memória de trabalho | queda |
| Reconhecimento de matrizes/padrões | ligeiro aumento |
O pequeno ganho no reconhecimento de padrões visuais encaixa num quotidiano dominado por interfaces gráficas, símbolos e ícones. A familiaridade com esse ambiente pode fortalecer competências específicas - ao passo que a compreensão linguística profunda e o raciocínio lógico complexo parecem perder terreno.
O que significam termos como efeito Flynn e memória de trabalho
O efeito Flynn não descreve uma “explosão” de inteligência inata. Refere-se, antes, a um processo de adaptação de longo prazo: sociedades mais complexas, sistemas educativos mais exigentes e infâncias vividas em contextos muito diferentes dos dos avós. Os testes de inteligência reflectem estas mudanças, e por isso as normas têm de ser ajustadas regularmente.
Já a memória de trabalho funciona como um bloco de notas mental. Mantém, durante segundos ou minutos, informação como números de telefone, passos de cálculo ou etapas de um argumento. Quando este sistema enfraquece, quase todas as tarefas exigentes sofrem: desde resolver problemas de Matemática, passando por compreender textos longos, até planear acções com várias etapas.
O que pais, escolas e adolescentes podem fazer na prática
A descida do desempenho cognitivo não é destino inevitável; reflecte circunstâncias de vida. Há ajustes concretos que podem ser feitos no quotidiano:
- Definir tempos de ecrã claros, sobretudo em dias de escola
- Criar períodos sem telemóvel, por exemplo durante o estudo e as refeições
- Ler regularmente em papel, em vez de apenas no smartphone
- Voltar a fazer apontamentos e memorizar vocabulário com escrita manual
- Praticar actividades que exijam memória de trabalho e concentração (por exemplo, cálculo mental, xadrez, instrumentos musicais)
Ao mesmo tempo, compensa olhar com espírito crítico para ofertas digitais de aprendizagem. Ferramentas bem concebidas podem apoiar o estudo, por exemplo com exercícios adaptativos ou simulações claras. O essencial é que não se transformem numa fonte permanente de distracção e que não substituam as formas básicas e comprovadas de aprendizagem.
Escolas que usam meios digitais de forma selectiva e com doseamento descrevem, muitas vezes, efeitos positivos: experiências interactivas em Física, escrita colaborativa de textos ou feedback imediato em exercícios. Onde tablets e portáteis funcionam sobretudo como dispositivos universais de substituição, parecem dominar a frustração, a dispersão e a superficialidade.
Os dados actuais deixam, assim, um aviso claro: as capacidades cognitivas não aumentam automaticamente de geração em geração. São sensíveis ao ambiente de aprendizagem, aos hábitos e à forma como se usam os media. Até que ponto a curva continuará a descer - ou poderá voltar a subir - dependerá das escolhas que famílias, escolas e políticas educativas fizerem perante estas mudanças.
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