A semana arrancou sob o emblema de uma tríade de Melhores Amigos (não) Para Sempre. Por escassos dias, Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin não se cruzaram em Pequim. Entre abraços, sorrisos e brindes, o mundo assistiu de longe à coreografia cuidadosamente preparada dos três líderes - mas era evidente que, enquanto marcavam os passos de uma dança macabra, as sombras se estendiam muito para lá dos salões das receções oficiais.
Depois de acolher Trump numa reunião apontada como “histórica”, Xi Jinping aproveitou o encontro seguinte, com Putin, para enaltecer os laços sino-russos, chamando-lhes - imagine-se - uma força de “calma em meio ao caos”. No Grande Salão do Povo, o líder chinês insinuou que o ambiente internacional está cada vez mais carregado, numa referência indireta ao aumento da beligerância que associa à forma trumpiana de governar. Como se a mão paciente que Pequim estende sobre Taiwan fosse sinónimo de pacifismo e como se o punho russo sobre a Ucrânia espelhasse um abraço fraterno.
“A situação internacional é marcada por turbulências e transformações interligadas, enquanto correntes hegemónicas unilaterais estão desenfreadas”, afirmou Xi, recorrendo ao registo típico de Pequim para censurar o que entende serem excessos da política externa norte-americana.
A BBC notou que a receção reservada a Vladimir Putin “foi praticamente um reflexo da recepção a Donald Trump na semana passada”, descrevendo a sequência como “duas visitas presidenciais de alto risco, com poucos dias de intervalo, [que] representam exatamente a imagem que Xi Jinping quer projetar para o mundo: conversa com todos, sem estar vinculado a ninguém”.
Ainda ressoavam em Pequim os ecos dos copos a tilintar e já novas sombras se desenhavam no horizonte internacional. O Irão ameaça alargar a guerra para fora do Médio Oriente se os EUA voltarem a atacar e, na frente europeia, o confronto entre a Rússia e a Ucrânia volta a engrossar, com a notícia de um drone que entrou no espaço da Lituânia e o embaixador russo na ONU a ameaçar a Letónia e os restantes Estados Bálticos com “represálias” militares, na sequência de informações de que Kiev planeia lançar drones a partir daqueles territórios.
A surpresa, porém, veio bater a Cuba, com a informação de que os Estados Unidos formalizaram esta quarta-feira uma acusação contra o antigo presidente cubano Raúl Castro, responsabilizando-o pelo abate de dois aviões civis em 1996 que resultou na morte de três cidadãos norte-americanos. Uma decisão que parece abrir caminho à ideia de um desembarque de forças norte-americanas, como já se viu ser ensaiado na Venezuela.
O anúncio foi acompanhado por mais uma ameaça do Presidente norte-americano. "Desde as margens de Havana até às margens do Canal do Panamá, expulsaremos as forças da ilegalidade, do crime e da ingerência estrangeira", afirmou Trump num evento na Academia da Guarda Costeira.
Dias antes, noutra cidade costeira, um outro homem saiu do seu terreno habitual para apontar o dedo às narrativas agressivas destes discursos políticos, juntando-lhes o nome do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Javier Bardem, no Festival de Cinema de Cannes, censurou o “comportamento tóxico masculino”, defendendo que “essa agressão e rivalidade alimentam conflitos em lugares como a Ucrânia e o Médio Oriente”. Colocou a arte como ferramenta de alerta contra estas narrativas e disse esperar que a consciencialização crescente ajude a fazer desaparecer estas atitudes.
“Tenho 57 anos e venho de um país muito machista chamado Espanha, onde, em média, duas mulheres são assassinadas por mês por seus ex-maridos ou ex-namorados, o que é horrível. E nós meio que normalizamos isso. Será que estamos loucos? Estamos matando mulheres porque alguns homens acham que são donos delas, que as possuem. E esse problema também se estende ao Sr. Trump, ao Sr. Putin e ao Sr. Netanyahu, o machão que diz: 'Meu pénis é maior do que o seu, e vou bombardear vocês até não sobrar nada'. É um comportamento masculino tóxico que está causando milhares de mortes, então sim, precisamos falar sobre isso", afirmou em conferência de imprensa.
Só a luz desfaz a sombra - e alguns focos de luz trazem promessas para lá das receções em Pequim ou das ameaças em Washington. O Governo de Netanyahu parece aproximar-se do colapso, com a hipótese de eleições antecipadas. Nos Estados Unidos, a popularidade de Donald Trump mantém-se em terreno negativo: a economia e a gestão da guerra no Irão concorrem para penalizar a avaliação dos norte-americanos, ainda que persista uma base fiel ao Presidente norte-americano, lembrando o jogo interminável entre a luz e a sombra.
Outras notícias
Alto risco
No mesmo dia em que se soube do caso de duas crianças francesas abandonadas na estrada de Alcácer do Sal, veio também a público que existem em Portugal mais de 62 mil situações de crianças em perigo comunicadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens. Um número que cresceu 40% desde 2020.
À míngua
Em Portugal, 15% das famílias pobres não conseguem assegurar às crianças uma alimentação nutritiva. Cerca de 1,5 milhões de pessoas continuam abaixo da linha de pobreza, segundo um relatório da Nova SBE. As desigualdades atingem sobretudo as crianças e os agregados mais vulneráveis. Em 2024, uma em cada seis crianças vivia na pobreza.
A hora H
A eleição de quatro juízes para o Tribunal Constitucional ficou marcada para 12 de junho. Os nomes dos candidatos terão de ser entregues até 29 de maio e o PSD, PS e Chega poderão chegar a entendimento sobre as escolhas para o Palácio Ratton, incluindo o presidente da instituição. Será desta?
Paragem de alerta
Cerca de uma centena de jornalistas da agência Lusa suspenderam esta quarta-feira a operação nacional num protesto junto à Assembleia da República contra os novos estatutos da empresa, em vigor desde janeiro. Consideram que está em causa a independência editorial e que se abre espaço a ingerências políticas na informação.
Super Angela e Super Mario
O “Financial Times” avançou que caberá a Merkel e a Draghi assumirem o papel de interlocutores da União Europeia junto de Vladimir Putin, com o objetivo de reabrir canais negociais e desbloquear conversas sobre a guerra na Ucrânia. A discussão sobre estes e outros nomes decorre no Chipre, na próxima semana. António Costa também está na calha.
Troca-troca
Um artigo do “New York Times” refere que “um dos objetivos iniciais da guerra de Israel e dos Estados Unidos no Irão era o de instalar o ex-Presidente linha-dura como líder do país”. Um ataque israelita terá sido planeado para libertar Mahmoud Ahmadinejad da prisão domiciliar em Teerão, segundo autoridades norte-americanas disseram ao jornal, numa tentativa de promover uma mudança de regime e colocá-lo no poder.
Ajoelhar sem rezar
O Ministério dos Negócios Estrangeiros reagiu às detenções, por Israel, de dois ativistas portugueses - Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias - condenando o “comportamento intolerável” do ministro da Segurança Nacional israelita, que obrigou os ativistas detidos a permanecerem ajoelhados, com as mãos amarradas atrás das costas e a testa no chão. O Presidente da República recebeu os familiares dos dois portugueses e Paulo Rangel classificou a atitude de Ben-Gvir como “intolerável”.
Orar por descendência
O novo líder supremo do Irão apelou a que os iranianos tenham mais filhos. A taxa de fertilidade no país caiu a pique, de 6,5 em 1979 para 1,7 em 2024, e o Irão suspendeu as vasectomias e a distribuição de contracetivos em 2020 para aumentar a natalidade.
Grande Explosão
A SpaceX apresentou esta quarta-feira o aguardado pedido oficial de entrada em Bolsa junto do regulador norte-americano, naquela que deverá ser a maior oferta pública inicial (IPO) já realizada.
Faltam 21 dias
Depois do mega-mediático anúncio dos escolhidos por Carlo Ancelotti para a seleção brasileira - que não conquista um Mundial de Futebol há 24 anos e em que a nota de destaque vai para um atacante com 34 anos que não joga com a camisa verde e amarela desde 2023, Neymar de seu nome -, chegou a divulgação dos 27 (!) selecionados por Roberto Martinez para representar Portugal, em que a manchete é Ronaldo, um atacante de 41 anos, que não falha uma convocatória há seis mundiais. Com tantas cedências, a ansiedade cresce para o arranque da competição.
Frases
“Um embaraço”, assumiu o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, que pediu desculpas, esta quarta-feira, pela situação no aeroporto de Lisboa, admitindo que, com as filas de espera, a imagem de Portugal "já está comprometida”
“Só há espaço para uma estrela na família, terei que me livrar dela”, Donald Trump sobre a popularidade e o que disse ser o sucesso da primeira-dama, Melania Trump, ao discursar depois dela num piquenique na Casa Branca
“Vou falar com ele. Eu falo com toda a gente… Vamos trabalhar no problema de Taiwan”, o Presidente dos Estados Unidos sobre as conversações que pretende iniciar com o Presidente de Taiwan, Lai Ching-te, uma medida sem precedentes para um líder norte-americano desde 1979 e que poderá perturbar as relações dos EUA com a China
Os nossos podcastes
No “Geração 2000”, Manel Rosa conversa com Madalena Aragão, apresentando-a como “uma das caras mais reconhecidas da nova geração de atores portugueses”. Uma conversa “sobre crescer depressa, manter os pés no chão e tentar perceber o que acontece quando metade da vida é vista em público”.
Em “A História Repete-se”, excepcionalmente sem Margarida de Magalhães Ramalho, Lourenço Pereira Coutinho conversa com o investigador brasileiro Paulo Rezzutti - autor de “D.João VI - A história não contada”. Um rei que, dizem eles, “literalmente, viveu entre dois mundos, alguém adepto da moderação e equilíbrios, cuja vida e ação vai para além das caricaturas que moldaram a forma como passou à História”.
A nova estratégia para atacar tumores sem os efeitos secundários da quimioterapia - os “medicamentos com 'GPS' - é o foco da “Liga dos Inovadores”, em que Pedro Lima e Elisabete Miranda falam com Sérgio Simões, fundador da Bluepharma, que, dizem, “tem-se destacado no mundo da indústria farmacêutica”.
O que eu ando a ler
No nosso espaço dedicado a divulgar exemplos de bom jornalismo, sugiro um artigo do diário espanhol “El Mundo”, que recorda o tempo em que o escritor Arturo Pérez-Reverte era “apenas” um jovem jornalista, “com uma mochila e uma câmara”. No texto, percebemos que, ao fazer reportagens internacionais, Reverte concluiu que “quando se entende que o trabalho de um jornalista consiste em entrar, sair e contar histórias, nunca mais se vê o mundo da mesma maneira”.
O texto foi escrito a propósito do lançamento do livro “Enviado Especial”, que reúne as suas crónicas como repórter de guerra, e Pérez-Reverte explica-se na primeira pessoa: “Às vezes, quando olho para trás, tenho a impressão de que as muitas vidas que vivi pertencem a outra pessoa, não a mim. É estranho lembrar dos diferentes homens que eu era antes de me tornar quem, para o bem ou para o mal, sou agora. Antes de Nicósia e Beirute, antes do Saara, das paisagens devastadas e das fronteiras incertas, eu começara a explorar a profissão que me levaria ao meu futuro.”
No ouvido - e no coração - ficam as palavras do escritor. “Com o tempo, as memórias tornam-se cachos de cerejas, cada uma levando à seguinte: um nome traz à mente uma esquina crivada de balas; uma cidade traz de volta um rosto; um quarto de hotel evoca uma conversa; a solidão ou a música fazem você lembrar-se de uma estrada, um sorriso ou um túmulo. E isso não é nostalgia, mas simplesmente o arquivo de uma longa vida. A partir do material com o qual mais tarde se escrevem romances, e em algumas noites, insone na escuridão, paga-se o preço de ter observado seres humanos por tanto tempo sem desviar o olhar.”
Amanhã, já sabem, há Expresso nas bancas - e nós continuaremos também aqui, à vossa espera, para irmos construindo em conjunto as nossas memórias. Bom dia e bom resto de semana.
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