Em vez de apostarem em alta tecnologia dispendiosa ou em programas gigantescos de reflorestação, escolheram um animal de que muitos jardineiros preferiam livrar-se: os esquilos-terrestres. Hoje, mais de quatro décadas após a erupção do Mount St. Helens, um novo estudo mostra até que ponto esta iniciativa, à primeira vista excêntrica, deixou uma marca duradoura no regresso da vida à montanha.
A montanha explode - e o ecossistema colapsa
Em maio de 1980, o Mount St. Helens, no estado norte-americano de Washington, entrou em erupção. Foi a erupção mais destrutiva da história dos EUA. Morreram 57 pessoas, florestas inteiras foram devastadas e animais e plantas desapareceram sob uma mistura de cinzas, rocha e gás quente.
O que ficou para trás foi um cenário fantasmagórico. Onde antes havia uma floresta densa, formou-se uma camada espessa de pedra-pomes e cinzas. A superfície endureceu, tinha poucos nutrientes e era, para a maioria das plantas, completamente impraticável. Especialistas estimavam que a natureza precisaria de décadas para conseguir reerguer-se minimamente naquela zona.
Foi precisamente aqui que os investigadores avançaram com uma ideia que parece saída de um desenho animado: se não dava para “criar” solo novo de um dia para o outro, porque não recorrer a animais que fazem isso há milhares de anos - ao escavar?
A ideia improvável: esquilos-terrestres como “engenheiros do solo” no Mount St. Helens
Em 1983, três anos depois da erupção, uma equipa de investigação lançou uma experiência ousada. Transportou um grupo de esquilos-terrestres para duas áreas bem delimitadas no campo de pedra-pomes do vulcão - e deixou-os, durante um dia, fazerem aquilo em que são especialistas: abrir túneis subterrâneos e remexer terra para a superfície.
A lógica era simples: se os animais trouxessem camadas mais profundas do solo para cima, poderiam expor microrganismos e fungos que ajudam as plantas a crescer.
O microbiologista Michael Allen, da University of California, descreve o princípio por detrás do plano: os esquilos-terrestres são frequentemente vistos como pragas por escavarem debaixo de campos e prados. Neste contexto, porém, essa mesma característica seria transformada numa ferramenta ecológica. A equipa contava que a escavação puxasse para cima restos de solo antigo mais rico e fungos essenciais que se encontravam enterrados.
De doze plantas a 40.000 - em apenas seis anos
Antes de os esquilos-terrestres iniciarem o seu “projecto de escavação” no vulcão, quase não havia sinais de vida nas superfícies de pedra-pomes. Apenas cerca de uma dúzia de plantas tinha conseguido vingar naquele substrato duro e pobre - e pouco mais.
Seis anos depois, nas duas parcelas experimentais, o cenário era outro: onde os esquilos-terrestres tinham estado activos durante apenas um dia, havia agora cerca de 40.000 plantas. Ervas, arbustos, árvores jovens - um verdadeiro mosaico de vida recente. Mesmo ao lado, em áreas comparáveis onde não houve esquilos-terrestres, o terreno manteve-se em grande parte nu e acinzentado.
Para a equipa, ficou claro que não se tratava apenas de sorte. Algo tinha mudado no solo das parcelas “mexidas” pelos animais. A pista conduziu a aliados microscópicos invisíveis a olho nu.
As estrelas discretas: fungos micorrízicos como ponte de nutrientes
No centro do novo estudo estão sobretudo os chamados fungos micorrízicos. Vivem em associação íntima com as raízes das plantas. As suas redes de hifas atravessam o solo e ampliam enormemente a área efectiva do sistema radicular. Assim, as plantas conseguem aceder muito mais facilmente a água e nutrientes.
A micorriza funciona como uma rede de abastecimento invisível no solo - um cabo de fibra óptica biológico para nutrientes.
Foi precisamente estes fungos que os investigadores encontraram, nas parcelas com esquilos-terrestres, com diversidade e densidade particularmente elevadas. Ao escavarem, os animais trouxeram para a superfície camadas mais antigas e microrganismos. A partir daí, os fungos conseguiram expandir-se, as bactérias formaram colónias e, em conjunto, criaram uma espécie de “kit de arranque” para um novo ecossistema.
Quando, mais tarde, espécies arbóreas como pinheiros e outras coníferas começaram a instalar-se, aproveitaram directamente essa rede. Os fungos alimentavam as árvores jovens com nutrientes provenientes de agulhas caídas e de restos orgânicos. Uma das investigadoras envolvidas, Emma Aronson, salientou que, em alguns pontos, as árvores regressaram a uma velocidade surpreendente - contrariando a expectativa de muitos especialistas, que tinham dado a área como morta.
Porque é que o efeito ainda se sente passados 43 anos?
A nova publicação na revista científica “Frontiers” indica que a intervenção com esquilos-terrestres continua a ter impacto. Mais de quatro décadas após a presença breve dos animais, as áreas com e sem esquilos-terrestres mantêm diferenças claras:
- Nas parcelas com esquilos-terrestres, existe um conjunto estável e diverso de micróbios e fungos.
- A vegetação cresce mais densa e acede com maior facilidade aos nutrientes necessários.
- As árvores conseguiram estabelecer-se mais depressa e criar um microclima que atrai mais vida.
- As áreas de comparação, sem esquilos-terrestres, parecem significativamente mais empobrecidas e evoluem mais lentamente.
O ponto central é este: quando se acelera a construção das bases de um ecossistema, obtêm-se efeitos de longo prazo. E essas bases são formadas por microrganismos e fungos - exactamente o que o curto “visita” dos esquilos-terrestres ajudou a pôr em movimento.
O que o estudo revela sobre o papel de animais “irritantes”
Esquilos-terrestres, toupeiras, ratazanas - em muitos jardins são tratados como uma praga. Fazem montículos, levantam relvados e escavam por baixo de canteiros. As observações no Mount St. Helens sugerem outra leitura: em muitos habitats, estes animais funcionam como verdadeiros actores-chave.
Contribuem para que:
- o solo se torne mais permeável e a água se infiltre melhor;
- nutrientes de camadas profundas cheguem à superfície;
- sementes germinem em túneis mais protegidos;
- microrganismos se distribuam de forma mais eficaz no solo.
A micologista Mia Maltz, do Connecticut, resume a ideia: para compreender como a natureza funciona, não se podem ignorar os níveis invisíveis - micróbios, fungos e pequenos organismos do solo. São eles que determinam se uma área fica estéril ou se se transforma num habitat vivo.
O que podemos aprender com a experiência dos esquilos-terrestres
O caso do Mount St. Helens oferece várias lições que vão muito além de um único vulcão. Há pontos essenciais que se destacam:
| Aspecto | Lição da experiência no vulcão |
|---|---|
| Ideias não convencionais | Abordagens pouco comuns em ecologia podem ser surpreendentemente eficazes. |
| Animais do solo | Espécies escavadoras desempenham um papel-chave na recuperação de paisagens degradadas. |
| Micróbios e fungos | Sem organismos funcionais no solo, a reflorestação e o reverdecimento têm poucas hipóteses. |
| Dimensão temporal | Uma intervenção breve pode ter efeitos durante décadas, se actuar no ponto certo. |
| Conservação da natureza | Para recuperar áreas, não basta plantar árvores: é preciso também “curar” o solo. |
O que significa isto para outras áreas após catástrofes?
Cenários como incêndios florestais, zonas de mineração, crateras de minas a céu aberto ou áreas afectadas por chuvas intensas têm um traço comum: o solo fica frequentemente muito perturbado ou praticamente morto. Por isso, os investigadores têm vindo a apostar cada vez mais em estratégias que lembram a experiência dos esquilos-terrestres.
Entre as medidas consideradas estão, por exemplo:
- aplicação dirigida de fungos micorrízicos e bactérias do solo;
- promoção de espécies escavadoras em vez de combate sistemático;
- introdução de madeira morta e material orgânico como fonte de nutrientes;
- pastoreio controlado com cabras ou ovelhas para orientar a vegetação.
Em vez de intervir apenas com grandes máquinas em áreas danificadas, ganha força a ideia de reactivar processos naturais - muitas vezes com acções pequenas, mas bem direccionadas.
Um olhar por baixo da superfície: porque o solo é tantas vezes subestimado
Para muita gente, o solo parece apenas uma massa escura e suja. Na realidade, contém uma diversidade extraordinária de vida - por vezes, milhares de milhões de organismos numa única mão-cheia. Filamentos de fungos, células bacterianas, protozoários, insectos minúsculos e aracnídeos formam um sistema altamente interligado.
As micorrizas, por exemplo, ligam plantas entre si. Em alguns casos, os investigadores falam do “Wood Wide Web”, porque as redes de fungos podem permitir até transferências de nutrientes e sinais entre árvores. Em paisagens destruídas, essa rede colapsa. Quem a consegue reactivar - como no Mount St. Helens - dá à natureza uma vantagem poderosa.
Num contexto de alterações climáticas, aumento da frequência de incêndios e episódios meteorológicos extremos, o interesse por estas abordagens tem crescido. O vulcão em Washington ilustra quão influentes podem ser ajudantes discretos - do fungo ao pequeno roedor que muitos vêem apenas como um incómodo.
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