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La Vaisselle des Chefs regressa a Paris com 20.000 peças de loiça profissional em segunda mão

Mulher inspeciona pratos brancos com padrões num espaço com mesas e outras pessoas ao fundo.

As peças elegantes que emolduravam menus de degustação com estrelas Michelin vão, em breve, parar a prateleiras comuns, com o regresso a Paris de uma grande venda de loiça de restaurante em segunda mão.

Quando a alta gastronomia chega à sua mesa

Durante anos, quem jantou em Paris reparou nos pratos sem lhes dar verdadeira importância. A porcelana finíssima que recebeu uma lagosta-cigala, a colher pesada (prateada) que mexeu um bisque, o copo que refletiu a luz das velas numa proposta de casamento - objetos que, mal saem da sala, quase nunca voltam a merecer atenção.

A iniciativa “La Vaisselle des Chefs” vem inverter essa lógica. Nos dias 7 e 8 de fevereiro, no espaço cultural Césure, no 5.º arrondissement de Paris, serão expostas, etiquetadas e colocadas à venda ao público mais de 20.000 peças de material profissional de mesa. Muitas chegam de moradas icónicas: grandes cafés, brasseries históricas e hotéis-palácio que normalmente vivem nos guias e no Instagram, e não em vendas de segunda mão.

Por um fim de semana, o pano de fundo invisível da alta gastronomia parisiense torna-se a atração principal - e qualquer pessoa pode levar um pedaço para casa.

Por trás do lado poético há uma mudança bem concreta na forma como a hotelaria de topo lida com o que já não usa. Em vez de empurrar pratos antigos para armazéns, leilões ou, pior ainda, para o lixo, as cozinhas mais reputadas passaram a tratar a sua loiça como um ativo: com valor sentimental e também valor económico.

O que é que, afinal, vai estar à venda?

A organização antecipa praticamente o dobro do volume da edição do ano passado, com cerca de 20.000 peças distribuídas por mesas e prateleiras. Não se trata de um despejo aleatório de loiça gasta. Chefs e direções de hotel escolhem o que sai, ponderando a necessidade de libertar espaço, novos conceitos de design e o ciclo de vida de cada objeto.

De hotéis-palácio a cafés com história

Entre os participantes há nomes que qualquer parisiense associa, há décadas, à cultura da restauração da cidade. O Café de la Paix, em frente à Opéra Garnier, deverá enviar peças que testemunharam incontáveis almoços de trabalho e aperitivos antes do teatro. Já o Les Deux Magots, instituição de Saint‑Germain‑des‑Prés frequentada, em tempos, por escritores e filósofos, junta pratos e copos carregados de memórias de vida de café.

Também surgem referências da gastronomia de autor, incluindo o celebrado Lucas Carton, além de vários hotéis-palácio como o Plaza Athénée, o Mandarin Oriental e o Le Meurice. Estes espaços renovam estilos de poucos em poucos anos, atualizando salas, pratos e talheres ao ritmo de novos menus e novos chefs. Em vez de esconder escolhas anteriores em arrecadações, optam agora por lhes dar continuidade nas mãos de outros.

Isto não é merchandising de recordação pensado para turistas, mas sim ferramentas reais de trabalho, usadas noite após noite em salas exigentes.

Não são só pratos: um restaurante inteiro, peça a peça

A maioria dos visitantes procura pratos, taças e copos, mas a venda vai bem além disso. A lista avançada pelos organizadores inclui:

  • Pratos de jantar em porcelana, pratos de sobremesa e pratos de apresentação
  • Copos de cristal, cálices de vinho e copos baixos
  • Conjuntos de talheres em aço inoxidável e em metal prateado
  • Travessas de serviço, molheiras e cestos de pão
  • Acessórios pequenos como açucareiros, manteigueiras e ramequins
  • Mobiliário: mesas de café, cadeiras de bistrô e pequenos guéridons

Na prática, um cozinheiro doméstico particularmente empenhado conseguiria quase “montar” um restaurante em casa - das mesas e cadeiras até à última chávena de expresso.

Economia circular, com uma dimensão social

A “La Vaisselle des Chefs” nasceu há cerca de quinze anos com três objetivos: reduzir desperdício num setor intensivo em recursos, apoiar artesãos e formação, e permitir ao público o acesso a peças de qualidade profissional. Enquadra-se plenamente naquilo que os organizadores chamam a “nova economia circular” da hotelaria, onde nada sai do sistema sem ter uma segunda oportunidade.

Os restaurantes substituem loiça de forma constante: por motivos técnicos ou por tendências. Os menus de degustação encolhem e crescem; a cor de um prato pode “bater mal” com um novo prato assinatura; ou um chef decide trocar pratos de apresentação pesados por opções mais leves para facilitar o serviço. Antes, muito desse stock indesejado acabava discretamente em armazéns de saldos ou em sucateiros.

Recircular estes artigos através de uma venda com curadoria mantém objetos de qualidade em uso, reduz a pressão de produção e canaliza dinheiro para a formação de jovens.

Uma parte das receitas reverte para a Fondation Apprentis d’Auteuil, uma instituição francesa com longa história no apoio a jovens com dificuldades sociais e educativas. Entre outros programas, contribui para financiar formação em hotelaria e restauração, desde bases de cozinha até serviço de sala. A ligação tem algo de simbólico: os pratos de ontem ajudam a pagar a formação dos chefs e empregados de mesa de amanhã.

Informações práticas para visitantes

O evento decorre ao longo de dois dias, com bilhetes de entrada escalonados para controlar a afluência e manter parte do fim de semana mais acessível:

Dia Faixa horária Preço de entrada
Sábado, 7 de fevereiro Todo o dia €5
Domingo, 8 de fevereiro Manhã €4
Domingo, 8 de fevereiro Tarde Gratuito

A entrada requer reserva online, disponível a partir de 5 de janeiro. Quem já conhece a dinâmica aconselha a chegar cedo, sobretudo no sábado, porque colecionadores, designers de interiores e estudantes de hotelaria percorrem as mesas a grande velocidade.

Porque é que colecionadores e cozinheiros domésticos ligam a isto

Para alguns, a atração é sobretudo estética. Muitos restaurantes encomendam peças feitas à medida a ceramistas, vidreiros e ourives franceses e europeus. Raramente esses objetos chegam às lojas; e, quando chegam, o preço costuma ficar fora do orçamento doméstico. Na “La Vaisselle des Chefs”, um prato com riscos ligeiros ou um copo com um logótipo discreto pode transformar-se num luxo acessível.

Para outros, trata-se de levar histórias para a mesa. Servir sobremesas em pratos que, em tempos, transportaram petits fours no Plaza Athénée muda a atmosfera de um almoço descontraído de domingo. Receber amigos em cadeiras resgatadas de um café da Margem Esquerda acrescenta uma camada narrativa silenciosa à casa.

Cada lasca, cada marca no verso de um prato, sugere longos serviços, polimentos apressados e noites que acabaram tarde.

Há ainda uma vertente prática. Pratos profissionais aguentam uso intensivo e ciclos de lavagem exigentes. O cristal de salas de hotéis-palácio suporta polimentos repetidos. Para famílias que recebem com frequência, comprar equipamento de restauração em segunda mão pode ser mais sensato do que investir em peças frágeis “de autor”, pensadas para utilização ocasional.

Como comprar com cabeça numa venda de loiça de chef

Iniciativas deste tipo puxam por compras por impulso, mas algum planeamento ajuda. Quem anda nisto há mais tempo costuma recomendar:

  • Meça os armários antes de ir, para não acabar com pratos de apresentação demasiado grandes para caberem.
  • Observe cada peça com boa luz e procure fissuras, não apenas riscos superficiais.
  • Combine peças dentro de uma paleta de cores, em vez de perseguir serviços perfeitos, que são raros.
  • Tenha em conta o peso: a loiça profissional pode ser pesada para transportar e para usar no dia a dia.
  • Leve sacos resistentes ou um carrinho; as caixas de cartão desaparecem rapidamente quando a multidão chega.

Compradores vindos do estrangeiro, muitas vezes, planeiam um fim de semana em Paris à volta destas vendas, juntando a “caça” a reservas em restaurantes. Alguns revendem parte do que encontram em lojas de artigos de época no seu país, alimentando um pequeno negócio paralelo associado ao fascínio global pela gastronomia francesa.

Para lá de Paris: uma mudança mais ampla na reutilização na restauração

O que acontece em Paris encaixa numa tendência mais vasta, na Europa e na América do Norte, dentro da hotelaria. Hotéis renovam roupa de cama trabalhando com empresas de reciclagem têxtil. Wine bars fazem parcerias com vidreiros para transformar garrafas vazias em novos copos. Alguns chefs desenham menus sob a lógica do desperdício zero, incluindo a forma como equipam as suas salas.

Hoje, vendas em segunda mão de equipamento profissional tornaram-se regulares em Londres, Nova Iorque, Berlim e Copenhaga. Muitas começam como encontros discretos do setor, mas depressa atraem o público em geral. Para quem vive nas cidades, é uma maneira de aceder a objetos que normalmente ficam do outro lado de sistemas de reserva e códigos de vestuário.

Esta prática também torna a alta gastronomia menos distante. Em vez de projetarem apenas perfeição e inacessibilidade, os restaurantes de topo parecem mais “humanos” quando deixam circular os seus pratos antigos - já com sinais de uso - por casas comuns. Uma chávena com uma lasca, vinda de um grande hotel, recorda que até as salas mais impecáveis dependem de um trabalho diário intenso e, por vezes, caótico.

Do prato à política: o que isto revela sobre consumo

Eventos como a “La Vaisselle des Chefs” levantam uma pergunta discreta sobre como equipamos as nossas casas. Precisamos mesmo de comprar pratos novos quando restaurantes, hotéis e cantinas já guardam tanto stock parado? Reutilizar exige mais organização do que encomendar um conjunto a condizer online, mas reduz a pressão sobre fábricas de cerâmica e redes de transporte.

Para os chefs, esta mudança influencia também a forma de encomendar peças novas. Saber que os pratos poderão, mais tarde, passar para uma cozinha privada pode incentivar escolhas de formas intemporais e materiais resistentes, em vez de decisões guiadas apenas pela moda. Essa perspetiva de longo prazo favorece artesãos e compradores.

Para quem pensa visitar Paris no início de fevereiro, esta venda pode tornar-se um desvio inesperado no roteiro: uma tarde a folhear pilhas de pratos de serviço antigos e, depois, jantar num bistrô que um dia poderá colocar a sua própria loiça no mesmo circuito circular. A fronteira entre o cliente na primeira fila e o colecionador dos bastidores vai-se esbatendo, prato a prato, em segunda mão.


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