Quatro décadas do pluriverso de Manuel João Vieira no MAAT
Mais de quarenta anos do chamado "pluriverso" do artista plástico Manuel João Vieira estão agora reunidos numa exposição inaugurada esta segunda-feira, em Lisboa, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT).
Com o título "A ilha púrpura: Notas e Paisagens", a mostra junta mais de 50 obras selecionadas a partir do atelier de Manuel João Vieira e da coleção do MAAT, abrangendo pintura, escultura e desenho.
Segundo o comissário, João Pinharanda, não se trata de uma retrospetiva nem de uma antologia do percurso do artista, ainda que as peças escolhidas cubram praticamente todo o arco cronológico do seu trabalho nas artes visuais, dos anos 1980 até à atualidade.
Um "pluriverso" com unidade: a leitura do comissário
Na apresentação da exposição aos jornalistas, João Pinharanda descreveu o conjunto como um universo múltiplo, mas coerente: "Não é um universo, é um "pluriverso' com uma grande unidade. Tudo entra numa mesma lógica, figurativa, narrativa e dentro dela com elementos que identificamos muitas vezes: Bonecos da banda desenhada, deuses e deusas, faunos e figuras da literatura".
Ainda sobre a forma como deve ser observado o trajeto do artista, o comissário afastou a ideia de evolução linear: "Não faz muito sentido olhar para ele [o percurso] como uma evolução, um caminho. O universo do qual o Manuel João se alimenta é de personagens míticas, literárias, históricas, religiosas às vezes, e que estão a dialogar connosco. A maior parte das pinturas é pensada a partir da ideia de palco, estão viradas para nós".
O momento de criação: "Banda Desenhada" na galeria
Quando os jornalistas chegaram, Manuel João Vieira (Lisboa, 1962) ainda estava a retocar um longo rolo de papel instalado numa parede curva da galeria, onde concebeu "Banda Desenhada", a obra mais recente incluída na exposição.
Interrompeu o trabalho com simplicidade: "Estava a fazer uns risquinhos", disse, pousando de imediato os materiais, antes de lembrar que era precisamente na banda desenhada que gostaria de ter trabalhado.
Da música e da política ao atelier
Embora seja mais reconhecido publicamente pela atividade musical - Ena Pá 2000, Irmãos Catita, Corações de Atum - e pelas várias candidaturas às eleições presidenciais, Manuel João Vieira é apresentado também como uma presença consolidada no campo das artes visuais. Participou em diversos coletivos artísticos, entre os quais o Movimento Homeostético, que nos anos 1980 integrou igualmente artistas como Pedro Proença, Xana e Pedro Portugal.
A propósito das diferentes facetas públicas, o artista sublinhou aos jornalistas que, tanto na política como na música, assume uma personagem, ao passo que o espaço de trabalho altera esse registo: "em estúdio é diferente": "No atelier existe um despir de tudo aquilo que sejam ideias do sujeito".
Pinturas, referências e paródia do museu
No MAAT, a exposição propõe uma espécie de "paródia dos museus de arte antiga" e apresenta uma obra que, nas palavras do comissário, "manipula, a partir do presente, convenções de representação", cruzando Antiguidade, Renascimento, Barroco, Maneirismo, Banda Desenhada, Dadaísmo.
Predominam as obras em óleo sobre tela, muitas delas de caráter narrativo, como encenações quase oníricas, capazes de convocar referências tão distantes quanto Tintoretto, o Rato Mickey ou Alice no País das Maravilhas.
Sobre a leitura do público, Manuel João Vieira comentou: "Não sei se as coisas ficam na retina do espectador, ou que coisas ficam ou não, que coisas são entendidas como eu entendo. Eu acho que é muito subjetivo".
Esculturas e instalações em destaque
Entre as esculturas presentes, surge um autorretrato do artista construído por sobreposição de objetos: numa mesa de ferro encontra-se uma máquina de música; por cima, uma pequena gaiola com um pássaro embalsamado; e, no topo, uma cartola.
A exposição inclui também uma espécie de retábulo com pinturas de várias décadas e uma moldura preenchida com rolhas de cortiça; a estatueta vermelha de um cão com cabeça de Salazar, intitulada "Salazauro rubro"; e a instalação "O atelier de Lenine", composta por uma mesa de carvalho onde um comboio de brincar circula em torno de um globo terrestre, enquanto nas gavetas estão colocados pequenos bustos coloridos do revolucionário comunista russo Lenine.
Datas e próximas exposições
"A ilha púrpura: Notas e paisagens" permanece patente no MAAT até 7 de setembro.
João Pinharanda adiantou ainda que, em junho, Manuel João Vieira inaugurará outra exposição, com obras diferentes, na Galeria Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão (distrito de Braga), estando prevista a produção de um catálogo conjunto das duas mostras.
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