"O Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen, apresenta-se como um drama sobre cinema e vida, e sobre a forma como um se entranha no outro.
Com cinco dias já cumpridos no Festival de Cannes, e sendo a primeira de três presenças espanholas em competição, "O Ser Querido" é, até agora, o primeiro título a deixar no ar uma sensação nítida de Palma de Ouro possível.
Rodrigo Sorogoyen e "O Ser Querido": cinema feito de vida
Apesar de ter apenas 44 anos, Sorogoyen traz uma experiência longa acumulada nas curtas-metragens e na televisão. Nas salas portuguesas já tínhamos acompanhado o seu filme anterior, o inquietante "As Bestas". Este novo trabalho não só corresponde ao que se esperava, como evidencia uma maturidade rara: há segurança na mise-en-scène, solidez na aposta cinematográfica e, sobretudo, uma reflexão sustentada sobre as ligações entre cinema e vida - como o cinema se alimenta do vivido e como o vivido, por sua vez, condiciona quem filma.
Na história, Javier Bardem interpreta um pai ausente que reaparece em Madrid e propõe à filha - de quem se afastou há muito - que seja a protagonista do seu novo filme. A narrativa que ele quer contar decorre no Sara Ocidental, embora as filmagens aconteçam no cenário das Canárias. Inserindo-se numa tradição já vasta de filmes sobre o próprio cinema, "O Ser Querido" supera essa etiqueta: funciona como uma dissecação implacável da relação entre pai e filha, dentro de uma família em ruínas. E se Bardem já deu repetidas provas do alcance que tem, Malena Villa surge como uma presença capaz, em todos os planos, de o enfrentar de igual para igual.
James Gray regressa a Nova Iorque com "Tigre de Papel"
Mais veterano, James Gray volta aos subúrbios de Nova Iorque dos anos 1960 com "Tigre de Papel". O ponto de partida é o de dois irmãos - um deles polícia - que acabam por envolver a família, de forma inesperada, com a poderosa máfia russa. Uma tragédia de ordem pessoal virá adensar as fraturas já existentes entre as personagens.
Também aqui o centro é familiar, mas o eixo dramático desenha-se no confronto entre dois irmãos de temperamentos radicalmente distintos, que vão marcando o rumo da narrativa. Gray filma com a autoridade de um mestre; e sente-se ainda mais a diferença quando o elenco reúne nomes como Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson.
Os japoneses em competição: Koreeda e Hamaguchi
Os dois filmes japoneses em competição já passaram, mas não provocaram grande entusiasmo. Koreeda Hirokazu, vencedor da Palma de Ouro com "Pequenos Ladrões - Uma Família de Pequenos Ladrões", regressa às dinâmicas familiares em "Ovelha na Caixa", embora agora a partir de um ângulo completamente diferente.
Ao realismo social do filme premiado em Cannes sucede uma fantasia situada num futuro não muito distante, em que uma nova tecnologia permite recriar, com base em vídeos e fotografias, um robô com a imagem de um rapaz morto num acidente de automóvel. A ideia inicial é promissora, mas fica aquém do que poderia ser: é pouco explorada, o resultado repete-se e cai num minimalismo que aqui joga contra o filme, apesar de todas as qualidades da "apresentação" formal do realizador japonês.
Ainda mais frustrante - sobretudo pelo que se esperava - foi "Subitamente", de Ryusuke Hamaguchi. Desde logo, o autor de obras maiores como "Conduz o Meu Carro" ou "Roda da Fortuna e Fantasia" abandona o seu território habitual, tal como tem acontecido com outros nomes em Cannes, e filma desta vez em França. O foco recai numa curadora de um centro de acolhimento para pessoas com problemas de saúde mental, papel que Virginie Efira interpreta sem grande esforço. O problema é que a narrativa se transforma em excesso num exercício pedagógico e, para agravar, vai empilhando tragédias como se isso, por si só, bastasse.
"Monstro Gentil", de Marie Kreutzer
Por fim, "Monstro Gentil", da austríaca Marie Kreutzer, é daqueles filmes que são bons, mas que deixam a sensação de que podiam ter sido muito melhores. Sem revelar o seu segredo - para não estragar a surpresa de quem o venha a ver quando eventualmente estrear em Portugal -, acompanhamos uma pianista que convence o marido a mudar-se para uma casa isolada. Porém, algo inesperado vem romper a rotina, já de si complicada, desta família.
Léa Seydoux impõe-se na personagem, na combinação entre força criativa e dúvidas íntimas. Catherine Deneuve regressa com uma breve participação noutro filme em competição, depois de "Histórias Paralelas", o desastroso filme de Asghar Farhadi.
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