Em vários campos de refugiados palestinianos de Beirute, a ideia de voltar ao que designam por Palestina ocupada mantém-se como horizonte político e emocional. Muitos dos residentes já nasceram no Líbano e, entre as gerações mais novas, a defesa da resistência armada contra Israel tem vindo a atrair cada vez mais simpatizantes.
Campos de refugiados palestinianos em Beirute e os símbolos da resistência
Percorrer os campos de Chatila, Mar Elias e Burj al Barajneh é avançar por ruas onde as paredes funcionam como memoriais: estão cobertas de homenagens a combatentes ligados à luta contra o Estado de Israel. Se, para várias autoridades europeias, estas figuras são associadas ao terrorismo, nestes bairros são tratadas como heróis. Nas imagens que se repetem com maior frequência destacam-se Yasser Arafat, Abu Obaida, Leila Khaled, Marwan Barghouti e Yahya Sinwar, rostos presentes nesta espécie de galeria pública da resistência palestiniana.
Para perceber o Líbano, é inevitável considerar o choque demográfico e político provocado pela entrada de mais de 100 mil palestinianos expulsos por Israel em 1948, num país que, mesmo pelas estimativas mais optimistas, teria cerca de 1,3 milhões de habitantes. Ao longo das décadas seguintes, outros fluxos aumentaram a população refugiada instalada em campos espalhados por diferentes zonas do território libanês. Actualmente, o Líbano aproxima-se dos seis milhões de habitantes e, num recenseamento conduzido por Beirute em 2017, foram contabilizados 174 mil palestinianos - a maioria já nascida em solo libanês. Ainda assim, em 2023, a agência das Nações Unidas para os refugiados indicava um total de 250 mil.
Chatila: densidade extrema, carências básicas e desemprego
Numa artéria tão estreita que apenas motorizadas conseguem circular, Naji Dawali, porta-voz do Comité Popular - estrutura que gere o campo de refugiados de Chatila - descreve a realidade local: aqui residem 25 mil pessoas, distribuídas por 620 edifícios, numa área de 110 mil metros quadrados. O resultado é uma densidade populacional muito elevada, num espaço marcado pela ausência de água potável, por dificuldades no acesso a cuidados médicos e por um desemprego que atinge 80%.
Chatila carrega também o peso de um episódio que ficou tristemente inscrito na história recente: o massacre de 1982, perpetrado por milícias cristãs maronitas com o apoio das forças israelitas, que causou a morte de 3 mil palestinianos. O campo ergue-se, assim, sobre a memória das convulsões que atravessaram o Líbano nas últimas cinco décadas. Naji Dawali sublinha que o sucedido não foi um caso isolado na experiência do seu povo e aponta paralelos com o que, diz, se passa hoje em Gaza e no sul do Líbano.
"Estes massacres estão ligados. Onde quer que Israel esteja haverá massacres. É um Estado fora da lei. Se houvesse justiça no mundo, o primeiro país a ser julgado seria Israel", denuncia. É por isso, afirma, que os palestinianos deste campo devem ter garantido o regresso à sua terra, um direito reconhecido pelas Nações Unidas. "Também por esta razão, muitos jovens palestinianos estão a lutar, seja politicamente, seja militarmente, através de todas as formas de luta, para regressar à Palestina", assegura.
Não deixar morrer a memória
A pouca distância de Chatila, fica o cemitério dos mártires palestinianos: uma extensão de sepulturas que parece não ter fim, onde repousam muitos dos que combateram - e dos que, na narrativa local, continuam a combater - pela sobrevivência do seu país.
Uma parte da história da resistência está concentrada neste lugar. Fouad Abu Youssef, veterano da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) - uma das organizações com presença forte neste campo - avança entre bandeiras e flores e vai identificando habitantes desta “cidade dos mortos” que os palestinianos insistem em manter presentes. Entre eles está Ghassan Kanafani, morto em Beirute por Israel através de uma bomba colocada por baixo do carro, e que é apresentado como uma referência cultural central. "A importância de Kanafani reside no facto de, 54 anos após o seu assassinato, as suas ideias continuarem vivas e a serem ensinadas. Ghassan Kanafani representa uma ideia e essa ideia não morre".
Seja na Faixa de Gaza em articulação com o Hamas, seja no sul do Líbano ao lado do Hezbollah, esta organização palestiniana de esquerda afirma ter um adversário principal bem definido: Israel. Ao lado de Fouad Abu Youssef, Abdullah el Danan, um dos dirigentes mais influentes da FPLP no Líbano, mostra-se pouco inquieto com a forma como o partido é criminalizado no Ocidente. "Se a resistência contra a ocupação é terrorismo, somos orgulhosos de ser terroristas. Legalizaram o genocídio em Gaza e se os que se opõem aos genocidas são terroristas, pois bem, aqui estamos".
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