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Mães depois dos 45 anos: 617 casos em 2024, segundo o INE

Duas mulheres sentadas num banco de parque a embalar bebés no colo, com carrinho e sacola ao lado.

Em 2024, quase duas mulheres por dia deram à luz já depois dos 45 anos - e perto de metade viveu a maternidade pela primeira vez nessa fase. Neste domingo, 3 de maio, dia em que se celebra a mãe, reunimos motivos e percursos de quem atravessou a gravidez e recebeu um filho nos braços depois dessa idade.

Histórias de maternidade depois dos 45 anos

Rosário Martins sempre se imaginou mãe, mas não sentiu urgência em sê-lo muito cedo. O desejo da arquitecta concretizou-se aos 46 anos, num contexto de monoparentalidade, quando em 2024 nasceu o Joaquim - após um caminho longo e exigente. "Aos 35 anos comecei "quero ser mãe, quero ser mãe", e foram 11 anos de espera".

Nesse período houve expectativa, mas também resistência e dor. "Ainda engravidei antes, em outubro de 2019, já nos 40 e com recurso à Procriação Medicamente Assistida (PMA), mas tive de interromper, o Francisco tinha mal formações, fiz um parto dessa criança", recorda. Depois, tentou a adoção sem sucesso e acabou por procurar outras possibilidades, até conseguir ter o filho que hoje tem dois anos.

Também Margarida Couto viveu dois tempos de maternidade. A professora foi mãe de uma menina aos 36 anos e, já depois dos 40, quis dar-lhe um irmão. O segundo filho acabaria por chegar no limiar dos 45 anos, tal como aconteceu com Rosário depois de uma perda gestacional aos 41. "Já não fui mãe cedo, quando aconteceu pela primeira vez, aos 36 anos, mas fui adiando o segundo até me sentir preparada, o que aconteceu aos 40, mas não chegou", relembra. O segundo filho do casal nasceria em 2024.

Dados do INE: 617 mães acima dos 45 em 2024

A arquitecta e a professora fazem parte de um universo de 617 mulheres que, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados nas Estatísticas da Saúde, em abril, foram mães com mais de 45 anos - um sinal do crescimento da maternidade mais tardia.

De acordo com o INE, entre essas mais de seis centenas de partos em 2024, 344 correspondem a primeiras maternidades. No total, isto representa quase um parto por dia acima dos 45 anos de idade da gestante. E, quando se comparam os números com os de há duas décadas, o próprio INE indica que o valor quase triplicou.

Idade média dispara

Apesar de os nascimentos acima dos 45 anos continuarem a ser residuais no conjunto do país - as estatísticas apontam para 0,7% -, há um movimento claro de adiamento. Em 2024, quase oito em cada dez mulheres (79,9%) foram mães entre os 25 aos 39 anos, mas a idade média da mãe no primeiro filho tem subido de forma expressiva.

Atualmente, a idade média da progenitora no nascimento do primeiro filho ronda os 30,3 anos, e chega aos 31,7 anos quando se considera o nascimento de um descendente (não necessariamente o primeiro).

Por que razão se adia a maternidade

Paulo Machado, demógrafo e membro da Associação Portuguesa de Demografia (APD), admite que se trata de "números inexpressivos" quando comparados com o total, mas sublinha que têm "leituras demográficas" relevantes. "Houve uma extensão do calendário da procriação, o que é interessante analisar-se quando cada vez mais se considera que ter um filho diz mais respeito aos mais jovens do que aos mais velhos".

Para o especialista, o adiamento tem ligação a diferentes fatores: "adiar a maternidade se prende com a prioridade à vida profissional, a questão habitacional, que é muito decisiva, e projetos de vida que não passam por ter filhos nessa idade, geração mais individual". Soma ainda um elemento relacional: "o das relações que devem, hoje em dia, prestar mais garantias como a estabilidade, concordância (dos elementos do casal) face ao modelo de família", o que também tende a empurrar o processo para mais tarde.

Rosário reconhece, na prática, o peso dessa última dimensão. "A construção de família nunca se realizou e foi sempre a adiar, sempre a ser só tia. Até que fui mãe, mesmo sozinha. Ainda hoje me está a fazer confusão a questão da monoparentalidade, vivo esse input de que são precisos dois maiores de idade". Ainda assim, o dia a dia tem-lhe provado que é possível.

Antes disso, enfrentou preconceitos e resistências. "Não foi muito bem aceite na família esta minha atitude de ser mãe nesta idade, mesmo sendo sozinha. (...) Tive a minha própria psicóloga de pé atrás e que me dizia "veja lá, veja lá". Foi uma luta contra todos, mas consegui". A experiência de luto gestacional acabou por não a travar - pelo contrário. "Se não tivesse passado pela perda do Francisco, não tinha avançado para esta tentativa. Mas foi, precisamente, por ter sentido o bebé na minha barriga e ter esse estágio, que para mim foi maravilhoso, que senti um empoderamento como mulher", relata.

Margarida, por sua vez, descreve diferenças claras entre a primeira maternidade e a que viveu já perto dos 45. "Noto mais paciência agora, e talvez se deva ao facto de ser o segundo, mas há uma tranquilidade a vários níveis que não existia aos 36, uma estabilidade profissional e financeira".

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