A presença francesa tem dado que falar neste arranque do Festival de Cannes. Como é habitual, o filme de abertura - exibido fora de competição - parece escolhido para instalar a ideia de que, a partir dali, o nível só pode melhorar. A comédia romântica “La Vénus Eléctrique”, de Pierre Salvadori, encaixa bem nessa tradição: um entretenimento leve, quase uma carta de amor às comédias de enganos, ora com pequenos toques de jogo teatral de ilusões bem controlados, ora apenas a cumprir função.
França em destaque na seleção oficial do Festival de Cannes
Logo depois, já na seleção oficial, França voltou a estar bem servida com o melodrama “La Vie d’une Femme”, de Charline Bourgeois-Tacquet. O filme organiza-se como cerca de uma dúzia de vinhetas acompanhando uma médica de reconstituição facial no meio da crise dos 50: a mãe sofre de Alzheimer, o casamento dá sinais de poder estar a desfazer-se, o trabalho ocupa-a 24 horas por dia e, para complicar ainda mais, nasce uma atração por uma mulher.
O resultado assenta numa verdadeira prova de fogo para Léa Drucker (na foto), atriz maior que este ano conquistou o César pelo trabalho em “Dossier 137”. É um exemplo sólido de cinema de autor que consegue comunicar com o grande público - ainda assim, dificilmente será matéria para Palma de Ouro.
“La Vie d’une Femme” é um tour de force de Léa Drucker, a atriz imensa que este ano vendeu o César
Sessões especiais e nostalgia: reposições em grande escala
Uma das tendências desta edição passa pelo relevo dado a filmes do passado em sessões especiais. Na praia, diante de milhares de pessoas, foi exibida uma nova cópia de “Top Gun - Ases Indomáveis”, de Tony Scott, assinalando os 40 anos da superprodução, que também acaba de regressar aos ecrãs portugueses.
Uma homenagem semelhante foi reservada, imagine-se, a “Velocidade Furiosa”, de Rob Cohen, que teve direito à grande sala Lumière, com os atores Vin Diesel e Michelle Rodriguez presentes para celebrar os 25 anos deste infame monumento de pancadaria. Soube-se ainda que vão ser lançadas versões restauradas de “Funny Games”, de Michael Haneke, e de outros títulos já canonizados de cineastas como Xavier Dolan e Ang Lee. O mercado percebe, cada vez mais, que existe público para aderir a estas sessões de reposição.
Luxo e promoção: estrear um trailer como evento
Outra moda em Cannes são os eventos elegantes montados apenas para mostrar uma simples antevisão. No próprio dia de abertura, no renovado Hotel Martinez - o luxo dos luxos em Cannes - realizou-se a estreia do trailer da animação “Wildwood”, de Travis Knight, do estúdio Laika, especialista em animação quadro a quadro, num gesto promocional que nem dois minutos durou.
Ainda assim, percebe-se a aposta: trata-se da maior animação dos autores de pérolas como “Caroline” ou “Kubo e as Duas Cordas”. As primeiras imagens denunciam a ambição de escala - o projeto terá estado em produção durante sete anos e é o mais caro de sempre da companhia. Fica, no entanto, a interrogação sobre se esta excentricidade, que cruza humanos e animais com um exército, não estará a apontar alto demais. Mesmo assim, há ali qualquer coisa de “Senhor dos Anéis” em stop-motion.
A música dos M83 define o tom de um filme que deverá ter campanha para os Óscares, não apenas para melhor animação, mas também para melhor filme. A fasquia está altíssima, embora os responsáveis recordem que a pós-produção continua em curso - em outubro chegará às salas, o que significa que não ficará pronto a tempo de festivais como San Sebastián ou Veneza.
Até 24 de maio: o que ainda falta ver
O Festival de Cannes termina no dia 24 e, até lá, o Expresso acompanha o maior evento mundial de cinema com crónicas diárias online. Em breve serão exibidos os aguardados “Natal Amargo”, de Pedro Almodóvar, “Paper Tiger”, de James Gray, e “L’Inconnue”, de Artur Harari, todos já comprados para Portugal.
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