À primeira vista, a missão DART foi “apenas” um teste de colisão num pequeno asteroide - mas os efeitos do embate continuam a revelar surpresas. Quase quatro anos depois, os cientistas perceberam que o impacto mexeu mais no sistema do que se imaginava inicialmente.
Em 2022, a NASA alcançou um marco no ainda jovem programa de defesa planetária lançado nos anos 1990. Pela primeira vez, a agência tentou alterar a trajetória de um asteroide através de uma colisão controlada. O ensaio, realizado no âmbito da missão DART (Double Asteroid Redirection Test), consistiu em lançar uma sonda de 610 kg a alta velocidade contra Dimorphos, um pequeno corpo rochoso com cerca de 170 metros de diâmetro que orbita um asteroide maior, Didymos. A 26 de setembro desse ano, a sonda embateu no alvo a mais de 22 000 km/h, gerando um choque tão intenso que foi observado pelos maiores telescópios terrestres.
As primeiras análises já tinham confirmado o sucesso do DART: a órbita de Dimorphos à volta de Didymos, que era de cerca de 12 horas, encurtou 33 minutos, provando que é possível alterar a órbita de um objeto celeste com energia cinética. Desde então, Dimorphos tem sido acompanhado de perto para compreender melhor as consequências do impacto. A 6 de março de 2026, um novo estudo publicado na revista Science Advances revelou que, afinal, a colisão libertou energia suficiente para alterar ligeiramente a trajetória do par Dimorphos-Didymos em torno do Sol, apesar de o asteroide Didymos não ter sido atingido diretamente.
DART : la collision qui a modifié la course du système Didymos
Embora nenhum dos dois asteroides representasse uma ameaça para a Terra - como aconteceu, por exemplo, com 2024 YR4 -, eram um campo de testes ideal. O mais pequeno (Dimorphos), a orbitar o maior (Didymos), um corpo com 805 metros de diâmetro, oferecia um referencial estável para cronometrar o desvio com precisão ao segundo.
Quando a sonda colidiu com Dimorphos, a energia libertada foi estimada em cerca de 11 gigajoules (o equivalente a 2,5 a 3 toneladas de TNT). A superfície do asteroide foi pulverizada e o impacto projetou entre 1 000 e 10 000 toneladas de detritos, sob a forma de poeira e blocos rochosos. Ao serem lançados para o espaço na direção oposta ao impacto, esses detritos exerceram um empurrão adicional sobre o asteroide, semelhante ao recuo de um canhão.
Este fenómeno é conhecido como «fator de amplificação da quantidade de movimento». Neste caso específico, esse fator foi estimado em cerca de dois: o material arrancado ao asteroide amplificou o choque, tornando a colisão quase duas vezes mais eficaz do que o impacto da sonda, por si só.
Segundo os dados deste novo estudo, a enorme quantidade de material expelido não alterou apenas a órbita de Dimorphos em torno de Didymos. Ao abandonar o sistema binário, esses detritos também levaram consigo uma pequena fração da energia e do impulso do conjunto. Esse desequilíbrio foi suficiente para modificar, em proporções ínfimas, a velocidade do par de asteroides no espaço.
De acordo com os cálculos dos investigadores, a volta completa dos dois corpos à volta do Sol durava cerca de 770 dias, isto é, aproximadamente 2 anos e 1 mês. Após a colisão, esse período orbital diminuiu de forma muito ligeira: agora é mais curto em cerca de 0,15 segundos.
À escala do Universo - e das trajetórias de dois asteroides deste tamanho -, pode parecer irrelevante. Ainda assim, eles passam a orbitar o Sol um pouco mais depressa. Os investigadores estimam que a diferença corresponde a um aumento de velocidade de cerca de 11,7 µm/s, ou seja, 0,00004212 km/h.
Mesmo sendo extremamente lento, segundo Rahil Makadia, investigador na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, uma alteração deste tipo, por mínima que pareça para nós, pode ter grandes implicações. «Com o tempo, uma mudança tão pequena no movimento de um asteroide pode fazer a diferença entre um objeto perigoso atingir a Terra ou passar completamente ao lado».
É uma excelente notícia para os especialistas em defesa planetária: este novo estudo mostra que a energia cinética, quando aplicada no ponto certo, é hoje uma das ferramentas mais eficazes que temos para desviar um asteroide ou um geo-cruzador. Foi precisamente para validar esta ideia que a missão DART foi concebida, com origens que remontam a 2011. O próximo passo para o par Didymos-Dimorphos será a missão europeia Hera, lançada em outubro de 2024, que deverá chegar ao sistema no final de 2026, para analisar de perto a estrutura interna dos dois asteroides. Os dados recolhidos também permitirão medir a massa exata de Dimorphos - a peça que faltava para avaliar plenamente a eficácia do impacto do DART e perceber até que ponto a energia cinética pode ser explorada para proteger o nosso planeta.
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