Em grande parte das Rocky Mountains, o inverno foi invulgarmente ameno e a cobertura de neve manteve-se reduzida. O que para os amantes de esqui é sobretudo uma frustração, para os investigadores tem um significado bem mais inquietante: novos dados indicam que pouca neve não está apenas associada a épocas de incêndios mais longas, mas sobretudo a incêndios florestais claramente mais violentos. E isto encaixa com precisão no que os modelos climáticos antecipam para as próximas décadas.
Como a pouca neve torna os incêndios ainda mais perigosos
Uma equipa de investigação da Western Colorado University analisou 36 anos de registos sobre cobertura de neve e incêndios florestais em áreas florestais do Oeste dos Estados Unidos. O objectivo não foi apurar se há mais ocorrências de incêndio, mas sim avaliar quão intensamente esses incêndios ardem.
"A principal conclusão: a quantidade de água armazenada na neve ajuda a determinar quão quente e destrutivo um incêndio será no verão."
Os investigadores separam dois tipos de “problemas de neve” que muitas vezes são confundidos:
- Degelo precoce: a neve existe, mas desaparece mais cedo no ano.
- Pouca água armazenada na neve: a camada de neve é, no conjunto, demasiado fina e retém pouca água.
Ambos são preocupantes, mas por motivos distintos. O degelo antecipado alonga o período propício a incêndios. Já um fraco “reservatório” de neve faz com que as florestas sequem muito mais durante o verão - e é isso que faz disparar a severidade do fogo.
Neve como “conta-poupança de água” das florestas
Na linguagem técnica, os cientistas usam o termo snow water equivalent - dito de forma simples: quanta água existe realmente dentro da camada de neve? Meio metro de neve fofa não equivale necessariamente à mesma água que meio metro de neve húmida e pesada; esta última guarda bastante mais.
O responsável do estudo, Jared Balik, compara a neve a uma conta-poupança sazonal de água para a floresta. Quando essa conta está bem “capitalizada”, os solos mantêm-se húmidos durante mais tempo, a vegetação retém água por mais semanas e agulhas, folhas e ramos não se inflamam tão facilmente.
Quando essa reserva diminui, desenrola-se uma sequência previsível:
- A neve desaparece mais cedo das encostas.
- A radiação solar acelera a secagem do solo.
- Ervas, arbustos e árvores perdem humidade.
- Bastam faíscas para incendiar uma mistura altamente inflamável.
O estudo mostra que, nos anos em que a água armazenada na neve foi particularmente baixa, os incêndios arderam com muito mais intensidade - com maiores alturas de chama e maior carga térmica.
O que significa, na prática, “maior severidade” dos incêndios
Nas regiões afectadas, um incêndio florestal “mais severo” não se traduz apenas em mais fumo e em áreas ardidas maiores. As consequências podem prolongar-se por décadas.
- Mais árvores mortas: temperaturas elevadas eliminam até árvores antigas e resistentes; encostas inteiras podem sucumbir de uma só vez.
- Solos danificados: o solo pode ficar “cozido”; a camada superior, fértil, arde ou é degradada pelo calor.
- Danos secundários: chuvas intensas após o incêndio aumentam a probabilidade de fluxos de detritos, cheias e deslizamentos.
- Mudanças duradouras na paisagem: em vez de floresta, pode surgir matagal ou prado - por vezes durante décadas.
"Quanto mais intensamente um fogo arde, maior é a probabilidade de uma área florestal se transformar de forma permanente numa estepe ou numa paisagem de matagal."
Os autores sublinham que não está apenas em causa o “se” acontece, mas o “como”. Ter mais incêndios é grave - porém, a viragem decisiva ocorre quando os ecossistemas deixam de conseguir regressar ao tipo de floresta que existia antes.
36 anos de dados - um padrão inequívoco
Para esta análise, os cientistas trabalharam com o período entre 1985 e 2021. A atenção centrou-se em bacias hidrográficas de grandes rios no Oeste dos Estados Unidos, desde as Rocky Mountains até ao Sudoeste.
A conclusão foi clara: em anos com baixa reserva de água na neve, a intensidade do fogo aumentou de forma significativa. A relação repetiu-se em muitas zonas distintas - não se trata de um acaso local, mas de um padrão consistente.
Bacias como a do Rio Grande ou a do rio Colorado surgem como particularmente afectadas. É precisamente aí que, há anos, se observa uma tendência de longo prazo para menos neve e menores reservas nivais. Nestas regiões, os sinais de alerta já são mais realidade do que teoria.
Padrões atmosféricos de grande escala amplificam os efeitos
O estudo também considera padrões climáticos de grande escala, como El Niño e La Niña. Estes fenómenos deslocam precipitação e temperaturas à escala continental e, consoante a fase, podem trazer ao Oeste dos Estados Unidos mais ou menos neve.
Num clima que já está a aquecer, estas oscilações funcionam como amplificadores: se num inverno mais quente já cai pouca neve, uma fase climática desfavorável pode reduzir ainda mais as reservas - criando um ano de incêndios especialmente crítico.
A situação da neve como sinal de alerta precoce para as autoridades
Um ponto prático do trabalho é que a altura da neve e, sobretudo, a água armazenada na neve podem servir como um indicador precoce do risco de incêndios severos. As autoridades precisam de planear com meses de antecedência onde colocar pessoas e meios.
"Quem em março sabe que a ‘conta-poupança’ de água das florestas está quase vazia pode reagir com mais precisão em julho - ou, melhor ainda, prevenir."
Decisões típicas de serviços florestais e de protecção civil em que os dados de neve ajudam:
- Em que zonas compensa mais fazer desbastes atempados?
- Em que regiões faz mais sentido recorrer a queimas controladas (prescribed burns)?
- Onde devem ficar estacionados meios aéreos adicionais e equipas de combate?
- Que comunidades precisam de avisos e campanhas de preparação mais cedo?
Com esta informação, a prevenção e a resposta podem ser organizadas de forma mais eficiente e focada - o que é crucial, dado que os recursos são limitados e as épocas de incêndios estão a tornar-se cada vez mais exigentes.
O verão está comprometido se o inverno foi seco?
Apesar de os resultados serem sóbrios, os investigadores não defendem alarmismo. Balik realça que um inverno seco não implica automaticamente um verão catastrófico. A primavera continua a ser determinante.
Se entre março e maio houver chuva abundante ou queda de neve húmida, a situação pode aliviar-se:
- Os solos demoram mais a secar.
- As plantas conseguem absorver água e mantêm-se húmidas durante mais tempo.
- Incêndios iniciais tendem a propagar-se de forma menos agressiva.
Ainda assim, a mensagem central mantém-se: quando, ao longo de vários anos, falta uma manta de neve espessa e estável, a floresta perde a sua margem de segurança. Uma primavera seca passa então a atingir um sistema que já está, por si só, no limite.
O que isto significa para o espaço de língua alemã?
Embora o estudo se foque no Oeste dos Estados Unidos, os mecanismos descritos são relevantes para a região alpina e para as serras de média altitude. Nos últimos invernos, a cobertura de neve em partes dos Alpes ficou claramente abaixo do que era comum em décadas anteriores, sobretudo a altitudes mais baixas. O risco de incêndio florestal na primavera e no início do verão já está a aumentar de forma mensurável no Sul da Alemanha, na Áustria e na Suíça.
Paralelos essenciais:
- Menos dias com neve a cotas inferiores.
- Degelo mais cedo.
- Mais períodos secos na primavera.
Em especial nas zonas de transição entre vales e montanha, é provável que, no futuro, as autoridades tenham de acompanhar com mais atenção mapas de neve e humidade do solo para detectar riscos com antecedência.
Termos e contexto: o que está por trás de “intensidade do incêndio”?
No dia-a-dia, muita gente fala apenas em “área ardida”. Na investigação, entram outras métricas que determinam o quão destrutivo é um incêndio. Entre elas:
| Termo técnico | Significado |
|---|---|
| Intensidade do incêndio | Quanta energia é libertada por unidade de tempo e de área - simplificando: quão “quente” o fogo arde. |
| Severidade do incêndio (severity) | O grau de danos na vegetação e nos solos, observável após a passagem do fogo. |
| Incêndio de copas | O fogo atinge as copas das árvores, propaga-se rapidamente e torna-se difícil de controlar. |
Um inverno com pouca neve tende a agravar todos estes indicadores: mais secura, mais energia no incêndio, maior risco de fogo nas copas - e, por isso, cicatrizes mais duradouras na paisagem.
Lições práticas: o que pode ser adaptado
O estudo, publicado na revista científica Environmental Research Letters, defende de forma explícita medidas preventivas. Se é expectável que a cobertura de neve continue a diminuir a longo prazo, ganham importância estratégias como as queimas controladas e a transformação/gestão da estrutura florestal.
Exemplos de medidas que decorrem dos resultados:
- Reduzir cedo madeira morta e povoamentos jovens demasiado densos em áreas de maior risco.
- Incentivar espécies mais resistentes ao fogo, por exemplo espécies de raiz profunda e casca espessa.
- Proteger melhor povoações nas franjas florestais, com materiais resistentes ao fogo e faixas de protecção sem vegetação densa.
- Integrar medições de neve e dados de humidade do solo de forma sistemática no planeamento operacional.
Em muitas regiões, já não se trata apenas de “apagar” fogos, mas de gerir activamente o fogo como um elemento natural que se tornou mais perigoso. A diminuição da neve no inverno passa, assim, a ser um dos indicadores precoces mais importantes para antecipar quão severo poderá ser o verão.
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