Vestígios de tinta de caneta e álcool etílico nos meteoritos de Marte
Enquanto o rover da NASA, Perseverance, continua a recolher e a selar amostras à superfície de Marte no âmbito da missão de devolução de amostras de solo, na Terra já há muito que se analisam rochas marcianas ejectadas para o espaço por impactos de asteroides e que depois acabaram por chegar ao nosso planeta sob a forma de meteoritos.
Foram precisamente essas amostras «visitantes» que estiveram no centro de um novo estudo conduzido por cientistas da Universidade do País Basco (University of the Basque Country (UPV/EHU)). Nelas foram identificados compostos inesperados que, à primeira vista, podiam parecer vestígios de química orgânica complexa - incluindo «moléculas orgânicas sintéticas» pouco compatíveis com processos naturais de Marte.
No entanto, uma análise mais aprofundada mostrou que uma parte significativa desses sinais não tinha origem marciana. Nas amostras foram detectados vestígios de álcool etílico, poeira de diamante e vários tipos de pigmentos de tinta, incluindo componentes de canetas esferográficas e de gel.
Segundo os autores do trabalho, a contaminação não acontece em Marte, mas sim na Terra - durante a preparação dos meteoritos para análise. Depois de chegarem aos laboratórios, as amostras passam inevitavelmente por corte, polimento e tratamento químico, recorrendo a ferramentas, lubrificantes e solventes que podem deixar marcas.
A fase mais problemática acaba por ser a de corte dos fragmentos internos do meteorito. Embora a crosta exterior da amostra se forme durante a passagem pela atmosfera terrestre e a proteja em parte, no laboratório é necessário abrir a rocha para aceder ao material «intacto». É precisamente aí que surge o risco de contaminação.
Os autores sublinham que, mesmo com protocolos muito bem definidos, não é possível excluir por completo impurezas externas. Por exemplo, o álcool etílico é usado para limpar o equipamento, e os abrasivos de diamante servem para cortar, o que já anteriormente levou à detecção de vestígios semelhantes em amostras, incluindo nas missões lunares do programa «Apollo».
No novo estudo, foram ainda registados separadamente vestígios de tinta: duas variedades de tinta azul de canetas esferográficas e o pigmento «hostaperm violet» (Pigment Violet 23), característico de canetas de gel. Os cientistas frisam que estes compostos são, sem margem para dúvida, resultado de contaminação laboratorial e não de química marciana.
Na sua opinião, o simples facto de se encontrarem esses «sinais estranhos» não significa que os laboratórios tenham falhado; pelo contrário, ajuda a aperfeiçoar os protocolos de preparação das amostras. Em particular, propõe-se substituir parte dos solventes e rever os métodos de limpeza para reduzir a probabilidade de transferência de vestígios orgânicos.
Ao mesmo tempo, os autores do estudo sublinham separadamente que não há qualquer fundamento para proibir canetas nos laboratórios - embora tenham sido precisamente elas uma das fontes das moléculas «marcianas» detectadas.
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