Em muitas famílias, a distribuição dos papéis foi mudando de forma discreta, mas muito visível. A geração que antes ralhava: “Larga o telemóvel e fala connosco” passa agora, ela própria, minutos sem fim a deslizar no Facebook, no YouTube e no WhatsApp. Os netos dizem que quase nunca apanham os avós sem um smartphone na mão - e interrogam-se se isto é apenas um passatempo inofensivo ou já um problema sério.
Quando o smartphone se senta à mesa da família
Há poucos anos, a preocupação recaía sobretudo sobre os jovens que verificavam mensagens ou viam vídeos durante as refeições. Hoje, cada vez mais adultos jovens descrevem uma cena completamente invertida: vão visitar os avós, esperam uma conversa e acabam sentados em silêncio, enquanto, à cabeceira da mesa, a cronologia do Facebook corre sem parar.
De repente, uma visita aos avós parece uma subscrição de streaming mal paga: está-se ao vivo na sala de estar, mas a atenção pertence ao ecrã.
As imagens que muita gente guarda da infância - o avô com o jornal do dia, a avó com as palavras cruzadas - vão desaparecendo. No lugar delas surgem vídeos curtos no YouTube, vídeos de gatos, comentários políticos e notificações a chegar a toda a hora. Segundo um estudo Nielsen de 2025, as pessoas com mais de 65 anos passam agora o dobro do tempo no YouTube do que passavam há dois anos. O Facebook continua a ser o principal canal, mas a variedade de aplicações e plataformas cresce rapidamente.
A consequência sente-se sobretudo na geração mais nova: ela procura mais proximidade dos mais velhos, enquanto estes se perdem mentalmente em conversas, vídeos ou aplicações de compras. O que antes era o cliché do “adolescente viciado no telemóvel” parece estar a deslocar-se para a geração dos avós.
Porque é que os avós estão agora a entrar tanto online
O aumento acentuado do uso do smartphone entre seniores não surgiu do nada. Várias mudanças encaixaram umas nas outras e acabaram por se reforçar mutuamente.
A pandemia como acelerador digital
A época da covid-19 atirou muitos mais velhos para a internet quase de um dia para o outro. Quem deixou de poder ver filhos e netos presencialmente teve pouca escolha: videochamadas, aplicações de mensagens, celebrações religiosas online, consultas médicas digitais - muita coisa passou a acontecer apenas através do smartphone, do tablet ou do portátil. O que começou como solução de recurso ficou por cá.
Quem aprende uma vez a fazer uma videochamada depressa experimenta mais coisas: enviar fotografias, ver vídeos de culinária no YouTube, testar compras online, talvez até escrever um texto com IA ou pedir recomendações de produtos. Da obrigação nasce a rotina, da rotina nasce o prazer - e do prazer, muitas vezes, o hábito.
Os novos “surfistas prateados” já não têm medo da tecnologia
Os reformados de hoje já não são aquelas pessoas que nunca tinham tocado num computador. Muitos trabalharam nos últimos anos da carreira com e-mails, bases de dados e apresentações. Os ecrãs táteis quase não os intimidam. Isso facilita a entrada nas redes sociais e no streaming.
A isto juntam-se vários factores que tornam o telemóvel particularmente apelativo:
- Muito tempo livre: O dia passa a ter muitas horas livres, sobretudo depois da reforma.
- Distância geográfica: Filhos e netos vivem muitas vezes longe, pelo que o contacto se desloca para o digital.
- Problemas de sono: Quem fica acordado durante a noite pega rapidamente no telemóvel como “ajuda para adormecer” - e depois fica agarrado.
- Sensação de ligação: Olhar para a cronologia dá a impressão de se estar sempre a par do que acontece.
Entre bóia de salvação social e armadilha digital
Avaliar esta evolução não é simples. À primeira vista, parece preocupante quando a avó e o avô ficam colados ao ecrã. Ao mesmo tempo, especialistas sabem que a solidão na velhice pode ser tão prejudicial como fortes factores de risco para a saúde, como o consumo de tabaco. Os contactos digitais podem então funcionar como um ponto de apoio - por exemplo, o chat diário com a vizinha, o grupo de WhatsApp da paróquia ou a videochamada com antigos colegas da escola.
A linha decisiva aparece quando o telemóvel substitui os encontros reais. Se os convites passam a ser recusados porque à noite está a dar a série favorita em streaming, ou se, à hora do café, só interessa o próximo vídeo curto, a vantagem transforma-se no seu oposto.
O problema começa quando o ecrã substitui o contacto real - não quando o complementa.
Essa fronteira esbate-se facilmente no dia a dia. Um neto que quer falar com os avós encontra muitas vezes cabeças inclinadas sobre o ecrã. Muitos mais novos dizem que, nesses momentos, se sentem tão ignorados como se sentiam antigamente, quando, enquanto adolescentes, eram criticados pelo uso do telemóvel.
Digital sem travões: muitos seniores ficam entregues a si próprios
Há ainda uma diferença importante em relação à geração mais nova: crianças e adolescentes crescem, em regra, com limites. Os pais regulam o tempo de ecrã, as escolas falam de literacia mediática, e existem filtros, funcionalidades de controlo parental e avisos.
Já os utilizadores mais velhos navegam muitas vezes na internet sem qualquer travão. Ninguém lhes explica como funcionam os algoritmos, com que rapidez as teorias da conspiração podem entrar na cronologia, ou como distinguir notícias falsas de conteúdos gerados por IA. Muitos acabam presos numa espiral de conteúdos cada vez mais semelhantes e ficam horas a fio sem dar por isso.
Para filhos e netos, isto cria uma espécie curiosa de “papel parental ao contrário”: de repente, são eles que têm de explicar aos avós quando é altura de parar de deslizar, quais são as páginas fiáveis e porque é que as notificações constantes geram stress.
Sinais típicos de uso problemático do telemóvel em pessoas mais velhas
Se alguém quer perceber se o entusiasmo digital dos próprios avós continua inofensivo ou já começou a pesar, há alguns sinais a observar:
| Sinal | O que isso pode significar |
|---|---|
| As conversas interrompem-se assim que o telemóvel vibra | A prioridade está no aparelho, não na pessoa à frente |
| Os encontros de família decorrem quase em silêncio, com todos a olhar para o ecrã | Sobrecarga causada por excesso de estímulos, recolhimento para o mundo online “seguro” |
| Mensagens com conteúdos extremos são reenviadas constantemente | Dificuldade em distinguir notícias falsas de informação credível |
| O ritmo de sono altera-se por causa do uso nocturno | Luz do ecrã, excitação provocada pelos conteúdos, ausência de rotinas offline |
| Os contactos na vida real diminuem de forma evidente | Substituição digital em vez de complemento social |
Como os netos podem ter tato - e, ao mesmo tempo, impor limites claros
Muitos jovens sentem-se sem saída: como dizer à avó que, à mesa, não devia estar sempre a ver Reels sem a magoar? Os papéis carregam muita emoção - afinal, foram os mais velhos que, durante anos, definiram as regras.
Os psicólogos aconselham uma mistura de reconhecimento com uma mensagem clara. Podem ajudar, por exemplo, estes passos:
- Nomear os próprios sentimentos: Em vez de “Estás sempre no telemóvel!”, é preferível dizer: “Sinto-me ignorado quando continuas a deslizar durante a conversa.”
- Sugerir horários concretos: Por exemplo: “Vamos deixar todos os telemóveis de lado na primeira hora em que eu estiver aqui.”
- Criar rituais offline em conjunto: Noites de jogos, passeios, cozinhar em conjunto - o importante é que todas as mãos tenham algo para fazer.
- Mostrar interesse em vez de proibir: Perguntar que vídeos vêem, que páginas apreciam e, depois, chamar a atenção com cuidado para conteúdos problemáticos.
Quem envolve os avós de forma visível, em vez de se limitar a criticá-los, tem mais hipóteses de os levar a pensar no próprio comportamento. Muitos percebem por si próprios que estão online “demais”, mas não se atrevem a dizê-lo em voz alta - por receio de serem tratados como descontrolados ou “viciados”.
Usar a proximidade digital de forma intencional - em vez de ficar à mercê dela
Os smartphones também trazem oportunidades reais para os mais velhos: podem avisar de quedas através de aplicações de emergência, lembrar a toma de medicamentos, ajudar na banca, reproduzir audiolivros ou orientar exercícios de ginástica. Em regiões rurais, substituem em parte infraestruturas que faltam, por exemplo no acesso a serviços de saúde.
Precisamente por isso, parece mais sensato trabalhar com os avós num uso mais consciente, em vez de insistir apenas na renúncia. Um caminho prático pode ser dividir certas aplicações em três categorias:
- Aplicações úteis: serviços de saúde, banca, funções de emergência, aplicações de navegação.
- Pontes sociais: aplicações de mensagens, videochamadas, grupos de conversa com família e amigos.
- Ladrões de tempo: cronologias sem fim, vídeos intermináveis, sites de notícias agressivos.
Na conversa, pode então definir-se quanto espaço deve caber a cada categoria no dia a dia. Muitos seniores respondem bem quando percebem que não se trata de lhes retirar a nova liberdade, mas de os proteger da sobrecarga e da solidão, apesar de estarem sempre online.
A longo prazo, a sociedade e a política ficam com a questão de saber como promover, de forma dirigida, a literacia mediática na terceira idade - por exemplo através de cursos em universidades seniores, atendimentos em bibliotecas ou serviços de aconselhamento em centros de seniores. Porque, por mais que o neto possa ajudar à mesa da cozinha, a autonomia digital dos avós não deve depender apenas de conversas privadas.
Até lá, muita coisa continua a resolver-se em pequenos gestos. Se, no próximo jantar de família, todos silenciarem durante alguns minutos o telemóvel e deixarem o aparelho à vista, mas fora do alcance da mão, talvez não passe de um pormenor. Ainda assim, é um sinal claro: neste momento estamos uns com os outros - e não com o próximo algoritmo.
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